Crítica | Joias Brutas é pintado a soco: um filme raivoso e intenso

Por Sihan Felix | 14 de Fevereiro de 2020 às 09h19
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A ideia do cinema realizado pelos irmãos Safdie é, por um lado, semelhante à do franco-argentino Gaspar Noé (de Clímax, 2019). Há uma intensa busca pelo sensorial do público, uma procura pela desestabilização proposital deste, que acaba por se sentir engolido por sensações e, de tão imerso, pode absorver o que assiste como se estivesse em um provável efeito alucinógeno. Isso, no caso de Joias Brutas (disponível na Netflix), leva a um prazer de pouco mais de duas horas ou a uma bad trip – claro que tudo totalmente lícito.

Mas as semelhanças entre o que Benny & Josh Safdie fazem e o trabalho de Noé termina nas questões sensoriais. Isso porque, tanto no filme protagonizado por Adam Sandler quanto nos anteriores da dupla, há uma absoluta inserção da história e dos acontecimentos na construção de um todo muito coeso – frenético sim, talvez nauseante, mas não é somente uma escolha que leva a qualquer sensação, é o conjunto, a união da totalidade.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Uma espiral de sensações

Há na mistura homogênea de Joias Brutas uma força que começa a consumir o fôlego do espectador desde o princípio: em uma mina, trabalhadores de uma escavação na Etiópia encontram uma gema (uma opala) que estará ligada à vida de Howard Ratner (Sandler) para sempre. A forma que a sequência de apresentação daquela pedra ainda na mina é unida à introdução de Howard acaba por sedimentar toda uma união que é também metafórica: com o trabalho dos efeitos visuais de Jimmy Hays (de Brooklyn: Sem Pai Nem Mãe), um close in adentra na joia bruta ainda na Etiópia e sai pelo esôfago da personagem de Sandler nos EUA.

Joia bruta ou interior do corpo humano? (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Muito mais do que estilo, essa abordagem sede uma camada inseparável ao filme. Não importa o que aconteça dali em diante, a única verdade é que tanto a pedra mais dura quanto o interior visivelmente flácido do corpo humano têm muito de carbono em suas composições. Não interessa se é mineiro ou se é um vendedor de joias que utiliza um Rolex avaliado em milhares de dólares. Mas isso não basta para definir uma unidade, claro. Para isso, os irmãos Safdie contam, desde o princípio, com a inquietante composição de Daniel Lopatin para a trilha sonora. O compositor, parceiro dos Safdie em Bom Comportamento (2017), carrega seu trabalho com uma aflição quase raivosa, elétrica, demolindo qualquer senso-comum.

Além disso, a cada passo de Howard rumo ao fim, a montagem de Ronald Bronstein (também de Bom Comportamento) e do próprio Benny Safdie acelera o ritmo do que é visto e, ao mesmo tempo, parece manter a história presa em um mesmo lugar, no mundo doentio da vida do protagonista. Dessa maneira, com os cortes rápidos nas ações e nos diálogos, com a música de Lopatin consumindo e preenchendo o áudio sem pudor algum e com uma agitação aparente imposta também pela atuação de Sandler, existe a citada divisão: ou se escolhe embarcar em uma viagem cinematograficamente prazerosa ou se entrega a uma bad trip. E é justamente em uma espiral de sensações desagradáveis – fisiológicas e psicológicas – que Howard gradativamente se insere.

Claro que existem respiros, mas eles são sempre momentos construídos com tensão pela direção. A cena em que, escondido, Howard observa Julia (Julia Fox) é especialmente fundamental para essa percepção. Enquanto pela visão subjetiva de Howard o espectador consegue assistir por um fresta, os Safdie abusam dos planos detalhes – seja nos olhos, nas mãos digitando mensagens no celular ou em um pacote de loja, a dita inquietação até em um momento de surpresa e, de algum modo, inocente e sincero está presente em planos claustrofóbicos que, logo depois, na resolução da cena, é substituído por uma tomada distante, que parece evocar Janela Indiscreta (de Alfred Hitchcock, 1954). Nesse sentido, até mesmo momentos de mínima paz ou prazer são tratados com a evocação de um suspense. A agonia em Joias Brutas é incessante.

Close claustrofóbico em Howard (Sandler) (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)
Evocando Hitchcock? (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Gigante e raro

Contudo, é possível que seja indissociável para essa uniformidade do filme a escalação de Sandler como Howard. O ator alia uma ingenuidade que acumula de muitos dos seus personagens anteriores a um carisma quase hipnotizante que tem força para conseguir reunir a torcida do público a seu favor – por mais que esteja sempre escrevendo torto por linhas também tortas. Além disso, pelas mãos dos Safdie, Sandler recebe ares de animal enjaulado, mas não raivoso. Seu tom é melancólico e há sempre novas interpretações a serem descobertas por suas expressões e seus olhares.

Por esse lado, só existe um momento em que ele desaba, mas é tudo tão enérgico que nem mesmo há espaço para lágrimas dramáticas. Joias Brutas, com toda essa agonia, mais parece um quadro único, renascentista, pintado como uma releitura por um artista contemporâneo que decidiu mergulhar as mãos em tinta e pintar socando a tela. É genuíno, raivoso e intenso; é uma mistura das construções de personagens e de naturalidade de um gênio como John Cassavetes e a desordem psíquica recorrente nas obras de Brian De Palma.

Sem espaço para lágrimas dramáticas. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

No final das contas, a vida – bruta – acaba por valer tanto quanto ou menos que uma pedra. Volta-se ao interior do corpo somente para constatar o quanto viver é algo gigante e raro. Há um universo dentro de cada um de nós e, às vezes, acabamos por desperdiçar por algo que já temos. A metáfora aqui é o carbono, mas pode servir para quase tudo.

“Do ser ao pó, é só carbono.
Solene, terreno, imenso,
perene, pequeno, humano.”
– Lenine e João Cavalcanti.

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