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Crítica A Rede Antissocial | Filme não deixa ninguém tirar os olhos da tela

Por| Editado por Durval Ramos | 09 de Abril de 2024 às 12h00

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Provando mais uma vez que sabe fazer bons documentários, a Netflixlançou no dia 5 de abril A Rede Antissocial: Do Meme Ao Caos, uma produção com quase uma hora e meia de duração que conta o surgimento do fórum 4Chan e retrata o perigo do efeito manada e do ódio coletivo que nascem graças ao anonimato que a página oferece. Com uma narrativa ágil e sem rodeios, a obra não peca na cronologia e esse é seu principal acerto.

Como se trata de uma história muito longa e cheia de reviravoltas, a linha do tempo era o principal fio condutor para a trama, e mesclar fatos sem mostrar as datas poderia tornar a narrativa confusa e cansativa. Felizmente, os roteiristas optaram pela simplicidade para contar, passo a passo, como um dos principais sites da internet surgiu.

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Criado na década de 2000, o 4Chan nasceu como resposta para o 2Chan, um fórum japonês que servia como espaço para que as pessoas pudessem discutir sobre animes, mangás e desenhos de forma anônima. A ideia atraiu Christopher Poole, um garoto de 15 anos que copiou o código aberto e criou outro igual, substituindo o número 2 pelo 4 na hora de batizar o serviço. 

O anonimato e a certeza de que não seriam identificados, atraiu vários usuários que começaram a debater sobre diversos assuntos nos boards — subgrupos dentro dos fóruns — sendo o principal a pornografia. O espaço seguro também permitiu que brincadeiras maldosas surgissem. Chamadas de trollagens, elas consistiam em inventar notícias falsas, adulterar imagens e até perseguirem organizações, como a Igreja de Cientologia da qual Tom Cruise fazia parte.

Como uma bola de neve, uma trollagem puxou outra e o que era apenas brincadeira se tornou um efeito manada sem freio que culminou em ações de ódio, como a invasão do Capitólio estadunidense em 6 de janeiro de 2021, após a posse do novo presidente, Joe Biden.

Para entender melhor como uma ação se relaciona com a outra, os diretores Arthur Jones e Giorgio Angelini optaram por imagens e vídeos reais, além de ilustrações digitais futurísticas que contrastam com o desastre que as redes sociais já causaram no mundo moderno.

Autores também de Feels Good Man, documentário que tenta entender como o meme de um sapo virou símbolo de ódio online, eles tinham a bagagem necessária para contar a história do 4Chan sem tropeçar em deslizes, mas trouxeram depoimentos fracos de ex-usuários do fórum que deixaram a desejar em conteúdo. Ficou claro como os personagens estavam desconfortáveis em frente às câmeras e também como o melhor de suas histórias ficou para os bastidores.

Ainda assim, entre os depoimentos, uma frase chama atenção: “A gente não sabia o que estava fazendo”.  Dita por um dos ex-usuários, ela poderia ser o título da obra, já que resume perfeitamente como a sociedade ainda não sabe — ou finge não saber — qual é o poder da internet. E o 4chan ilustra muito bem como essas brincadeiras aparentemente inocentes podem resultar em tragédias reais.

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Para os usuários do fórum, o espaço era apenas um local seguro para que pudessem derramar o pior de si; misoginia, racismo, homofobia, etc. Por vezes, uma piada é realmente apenas um deboche, mas a obra mostrou como, na internet, os fatos ganham vida. Exemplo disso é que comentários racistas culminaram em desfechos importantes como a organização do grupo neo-nazista Sieg Heil.

Os algoritmos também têm culpa

Embora, A Rede Antissocial foque bastante na responsabilidade dos internautas sobre consequências de seus atos, ele também não exime a própria internet e os algoritmos de alimentar esse ódio. O enredo mostra que sites como Twitter e Facebook são alimentados pela raiva, pois quanto mais ódio um usuário sente, mais tempo gasta conectado a eles.

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De modo geral, o documentário mostra dois vieses importantes: como o ser humano é massa de manobra das redes e como ele as usa para vomitar o pior de si enquanto se esconde no anonimato. Afinal, o que você faria se ninguém estivesse olhando? 

Outro ponto importante é que o enredo é contado todo do ponto de vista de dois estadunidenses, então a obra é focada na repercussão que o 4Chan teve no país do Tio Sam, porém ainda assim é fácil para os brasileiros se identificarem com a narrativa por terem vivido uma situação semelhante com a disseminação das fakes news, e o ataque golpista em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023 — embora nada disso tenha envolvimento direto com o 4Chan.

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Nem tudo que existe, é

Outro grande acerto do novo documentário da Netflix é que ele esmiúça a manipulação que podem ser feitas online. Uma das mais importantes aconteceu quando membros do 4Chan criaram uma espécie de persona chamada Q que supostamente previa tudo que Donald Trump iria postar em seu Twitter.

Isso reverberou de tal modo, que se criou uma teoria de que existia a QAnon, uma espécie de seita em que caçava pedófilos satânicos que matavam crianças. Trump seria o caçador e Hillary Clinton, sua concorrente à presidência dos Estados Unidos, a caça.

Foi uma teoria que se espalhou com tanta força nos EUA que, até os dias de hoje, ainda há quem acredite nessa seita que surgiu sem ter um líder, sendo apenas o reflexo de uma brincadeira online.

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A Rede Antissocial revira a internet do avesso

Trazendo muitas reflexões e vários fatos históricos simultaneamente, o documentário poderia ter dedicado um pouco mais de tempo para revirar o lixo da internet, ainda assim não desagrada e é um grande acerto da gigante do streaming. Vale lembrar que ele é uma ótima adaptação do livro homônimo de Ben Mezrich, autor também de Bilionários do bitcoin: os gêmeos que desafiaram Mark Zuckerberg e se tornaram os reis do bitcoin e Bilionários por Acaso: A Criação do Facebook.

Mais do que interessante ou meramente curioso, A Rede Antissocial é um documentário necessário justamente por dar luz a fatos pouco conhecidos do público e mostrar o efeito cascata que brincadeiras na internet podem gerar. A narrativa é, de fato, alarmante em certos momentos, mas não sensacionalista. Tem erros: não aborda os outros chans (8 e 16), mas é rico tão rico em detalhes que não permite que o espectador se distraia por um minuto. Por isso, mesmo quem não se interessa por tecnologia, precisa dar uma chance à obra para entender o que é a internet… essa terra sem lei que pisamos.