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10 cientistas negros que fizeram história e devem ser lembrados

Por| Editado por Patricia Gnipper | 15 de Novembro de 2023 às 09h50

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vecstock/Freepik
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No Brasil, todo 20 de novembro marca o Dia Nacional da Consciência Negra, data que promove reflexões sobre a presença do negro na sociedade e debate pautas importantes como a discriminação racial e a desigualdade social. Trazendo o tema para o universo da ciência, é inegável o apagamento histórico de cientistas negros que deixaram, sim, sua marca, mas nem sempre são lembrados quando se fala em descobertas e invenções que mudaram os rumos dessa história.

Se parar para pensar em quantos cientistas negros você conhece, talvez hoje em dia essa lista não seja pequena. Afinal, nos anos mais recentes é notável o reconhecimento de mais negros na ciência. Um exemplo é o astrofísico e apresentador norte-americano Neil deGrasse Tyson, bastante presente na divulgação científica atual e que herdou de Carl Sagan a missão de comandar a série Cosmos, levando a palavra da astronomia ao grande público com maestria.

Mas e aqueles do passado, que driblaram ainda mais dificuldades para atuar como cientistas? Provavelmente, você precisaria fazer uma busca na internet para levantar alguns nomes. Ou talvez assistir ao filme Estrelas Além do Tempo, que resgatou a história das mulheres negras que fizeram, à mão, os cálculos que a NASA precisava para levar seus primeiros astronautas ao espaço. Porém, fato é que ainda é mais fácil lembrarmos dos primeiros astronautas (brancos) que pisaram na Lua, ou astrônomos (brancos) que observaram planetas e objetos espaciais pela primeira vez. 

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Por isso, o Canaltech faz questão de, nesta matéria, resgatar o nome de cientistas negros importantes que precisam ser lembrados por suas contribuições inestimáveis para a humanidade.

Benjamin Banneker (1731–1806)

Astrônomo afro-americano, relojoeiro e inventor, Benjamin Banneker usou seu conhecimento de astronomia para criar almanaques que continham informações sobre os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. Ele aprendeu astronomia e matemática avançada através de livros emprestados por seu vizinho, o topógrafo George Ellicott.

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Banneker começou a fazer cálculos para prever eclipses solares e lunares, um trabalho que inclusive corrigiu erros cometidos por especialistas da época. Depois, compilou sua obra no Benjamin Banneker Almanac, com uma tabela das posições dos objetos celestes e onde elas apareciam no céu em determinados momentos durante cada ano. O almanaque também listou tabelas de marés em vários pontos ao redor da região da Baía de Chesapeake.

O Secretário de Estado Thomas Jefferson ficou impressionado com o trabalho de Banneker, e enviou uma cópia do almanaque à Academia Real de Ciências de Paris como prova do talento dos negros. O almanaque de Banneker ajudou a convencer a muitos, na época, que os negros não eram intelectualmente inferiores aos brancos.

Arthur Bertram Cuthbert Walker II (1936–2001)

Walker II foi um físico que estudou ativamente o Sol por meio de raios-x e sensores ultravioletas. Ele é mais conhecido por ter desenvolvido telescópios ultravioletas para fotografar a coroa solar, por sinal.

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Suas metodologias ainda são usadas na astrofísica atual, sendo empregadas em telescópios solares como o SOHO/EIT e o TRACE, e também na fabricação de microchips via fotolitografia ultravioleta. Há um prêmio anual dado em seu nome pela Sociedade Astronômica do Pacífico, inclusive.

George Washington Carver (1864–1943)

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Este cientista e inventor ficou mais conhecido por descobrir 100 usos para o amendoim. Mas isso é apenas a ponta do iceberg de seu trabalho e sua grande contribuição para a ciência.

Sua mãe de criação o ensinou a ler e escrever porque as escolas locais, na época, não permitiam estudantes negros, e isso despertou seu interesse na aprendizagem ao longo da vida. Carver foi autodidata, conduziu experimentos biológicos de seu próprio projeto, e acabou conseguindo um mestrado no programa de botânica da Iowa State Agricultural College com uma reputação de cientista brilhante.

No Instituto Normal e Industrial Tuskegee para Negros, Carver desenvolveu métodos de rotação de culturas, que revolucionou a agricultura do sul nos EUA. Ele educou os agricultores sobre métodos para alternar as culturas de algodão, que destroem o solo, com culturas que enriquecem o solo, como amendoim, ervilha, soja, batata-doce e nozes. Além disso, foi pioneiro em uma série de invenções práticas que tornariam a agricultura mais lucrativa e menos dependente do algodão, incluindo mais de 100 maneiras de monetizar batata-doce, soja e amendoim.

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Carver tornou-se consultor em questões agrícolas do presidente Theodore Roosevelt e, em 1916, era um dos poucos membros americanos da Sociedade Real Britânica de Artes. Não patenteou nem lucrou com a maioria de suas criações, mas doou livremente suas descobertas para a humanidade.

Patricia Era Bath (1942–2019)

Bath melhorou a visão de milhares de pessoas graças à sua invenção para o tratamento da catarata. Nascida em 1942, se formou no colegial em apenas dois anos e depois se formou em medicina pela Howard University. Sua pesquisa revelou que, quando comparados aos outros pacientes, os negros tinham oito vezes mais chances de desenvolver glaucoma e duas vezes mais chances de ficarem cegos com essa doença.

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Ela buscou, então, desenvolver um processo para aumentar o atendimento oftalmológico para pessoas incapazes de pagar por isso. Hoje, essa iniciativa se chamada oftalmologia comunitária e opera em todo o mundo. Bath se tornou a primeira afro-americana a concluir residência em oftalmologia em 1973, e a primeira mulher a ingressar no departamento de oftalmologia da UCLA em 1975.

Em 1981, Bath trabalhou em sua invenção mais notável: uma sonda a laser que tratava com precisão as cataratas com menos dor ao paciente. Com a nova sonda, ela foi capaz de restaurar a visão de pacientes que estavam cegos por 30 anos. Em 1988, Bath se tornou a primeira médica negra a receber uma patente para fins médicos e, depois que se aposentou em 1993, Bath continuou defendendo os menos favorecidos clinicamente, concentrando-se no uso da tecnologia para oferecer serviços médicos em regiões remotas.

Katherine Johnson (1918–2020)

A cientista americana da NASA fez, à mão, cálculos responsáveis por levar o primeiro astronauta americano à órbita da Terra, que contribuíram para levar o Homem à Lua com o programa Apollo. Johnson concluiu o ensino médio aos 14 anos e, aos 18, recebeu um diploma universitário, mas só começou a trabalhar na NASA aos 35 anos.

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Ela foi contratada para ser um "computador humano", nome que as pessoas como ela recebiam na época por fazer cálculos matemáticos à mão. O cargo era reservado inicialmente apenas a mulheres brancas, mas, a partir de 1940, passaram a contratar negras, que trabalhavam em uma ala segregada chamada “West Area Computers”, na sala “computadores de cor” ("colored computer", em inglês). Sua história é retratada em Estrelas Além do Tempo.

Em 1960, Katherine assinou seu primeiro relatório para a NASA e se tornou a primeira mulher da sua área a receber créditos por um relatório de pesquisa. Ela escreveu 26 relatórios espaciais e participou do desenvolvimento dos Ônibus Espaciaus, até se aposentar em 1986, aos 68 anos.

Por seus mais de 30 anos de trabalho na agência espacial, Johnson recebeu, em 2015, a Medalha Presidencial da Liberdade, que é a maior condecoração civil dos Estados Unidos. A cientista faleceu em fevereiro de 2020, aos 101 anos.

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Dorothy Vaughan (1910–2008)

Dorothy Vaughan também era matemática, formada pela Universidade de Wilberforce aos 19 anos, e seguiu um caminho parecido com o de Katherine Johnson. Durante a Segunda Guerra Mundial, Vaughan chegou até o Langley Memorial Aeronautical Laboratory (o mais antigo centro de pesquisa de campo da NASA) e acabou se tornando supervisora informal da ala “computadores de cor”.

Ao perceber que a “West Area Computers” seria a primeira ala a ser cortada com a introdução de máquinas da IBM, Vaughan decidiu aprender a programar, e acabou sendo a pessoa que implementou o sistema de linguagem Fortran na NASA. Ela também contribuiu para o projeto do foguete Scout (Solid Controlled Orbital Utility Test), que lançaria pequenos satélites à órbita.

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A programadora se aposentou da NASA em 1971 e também teve sua história lembrada no filme Estrelas Além do Tempo.

Mary Jackson (1921–2005)

Mary Jackson conquistou o diploma duplo em matemática e ciências físicas em 1942. Ela foi a primeira engenheira negra da NASA, e trabalhou como “computador humano” sob supervisão de Dorothy Vaughan em 1951. Dois anos após sua contratação, passou a trabalhar com o engenheiro Kazimierz Czarnecki no projeto de Túnel de Pressão Supersônico.

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Jackson é a terceira protagonista de Estrelas Além do Tempo. Em diálogo excluído do filme, Czarnecki pergunta se ela desejaria ser um engenheiro da NASA caso fosse um homem branco. A cientista responde que, se ela fosse um homem branco, ela não precisaria desejar, pois ela já seria um engenheiro da NASA. No entanto, apesar de seus diplomas e experiência, ela deveria ter uma pós-graduação pela Universidade de Virgínia se quisesse se candidatar à promoção, mas a instituição não aceitava alunos negros naquela época.

Após vencer a segregação nos tribunais e ganhar o direito ao estudo, Mary Jackson se torna a primeira engenheira negra da NASA em 1958. Ao perceber que o passar dos anos diminuiria suas promoções, ela abandonou o cargo como engenheira para se tornar Gerente Federal do Programa de Mulheres de Langley, onde ajudava as funcionárias das novas gerações a conseguirem mais oportunidades. Mary Jackson se aposentou em 1985.

Annie Easley (1933–2011)

Criada por sua mãe solteira, Easley foi uma matemática, programadora e engenheira espacial da NASA. Na agência espacial, ela trabalhou na divisão de veículos de lançamento, e fez também importantes pesquisas na área de fontes alternativas de energia.

Easley começou sua carreira como "computador humano" em 1955, fazendo cálculos para pesquisadores, e era uma das quatro únicas funcionárias afro-americanas no laboratório. Em uma entrevista em 2001, ela disse que nunca se propôs a ser pioneira: “Eu apenas tenho minha própria atitude. Estava aqui para fazer o trabalho e sabia que tinha a capacidade de fazê-lo, e era aí que estava o meu foco”.

Sua carreira durou 34 anos, e ela contribuiu para vários programas como cientista da computação, inspirou muitos com seu entusiasmo na participação em programas de extensão, e derrubou barreiras para mulheres e pessoas não-brancas nos campos da ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Easley se aposentou em 1989, mas continuou participando ativamente do Speaker's Bureau e da associação de mulheres profissionais e de negócios.

Percy Julian (1899–1975)

Percy Julian foi um dos maiores químicos da história, e permitiu que muitos medicamentos chegassem aos pacientes a custos mais baixos e em maior disponibilidade.

Ele nasceu em 1899 no Alabama e, aos 17 anos, se matriculou em cursos duplos como colegial e calouro na DePauw University, em Indiana. Julian estudou química e se formou em 1920, frequentou Harvard e obteve um mestrado. Enfrentou várias barreiras em sua trajetória — uma vez lhe foi negada uma posição de pesquisa porque uma lei da cidade proibia que negros passassem a noite ali.

Apesar das dificuldades, sua pesquisa sobre compostos de soja levou a várias patentes e medicamentos pioneiros, como versões sintéticas do hormônio feminino progesterona e da cortisona, usada no tratamento da artrite reumatóide. Em 1962, vendeu sua empresa privada, Julian Laboratories, por mais de US$ 2 milhões, e continuou a trabalhar como pesquisador e consultor até sua morte.

Marie Maynard Daly (1921–2003)

Marie Maynard Daly foi pioneira no estudo dos efeitos do colesterol e do açúcar no coração, e a primeira mulher negra a obter um doutorado em química nos Estados Unidos. Ela nasceu numa época em que as mulheres minoritárias tinham oportunidades de educação e emprego negadas, mas, mesmo assim, em 1942 ela se formou em química com honras no Queens College, em Nova York, e concluiu o mestrado, também em química, apenas um ano depois.

Foi durante o doutorado na Universidade de Columbia que Daly descobriu como os compostos produzidos internamente ajudam na digestão, e passou grande parte de sua carreira como professora pesquisando núcleos celulares. Ela descobriu a ligação entre colesterol alto e artérias entupidas, o que ajudou os estudos de doenças cardíacas. Além disso, Daly também estudou os efeitos do açúcar nas artérias e do fumo no tecido pulmonar.

África na vanguarda da ciência

Para finalizar, vale destacar que a África já estava à frente na ciência antes da dominação europeia — que também buscou apagar a história e as descobertas científicas dos povos naquele continente.

A África subsaariana sofreu bastante com o apagamento e é simplesmente esquecida nos sistemas de ensino ocidentais. Porém, há muitas evidências de que os povos dali eram bem mais avançados do que poderíamos imaginar. No atual Quênia, por exemplo, foram encontrados, ao lado do Lago Turkana, restos de um observatório astronômico, o que evidencia o desenvolvimento pré-histórico na região.

Outro exemplo são os Dogon, um povo do Mali, na África Ocidental. Cinco ou sete séculos antes da Era Cristã, eles já conheciam o Sistema Solar, a Via Láctea com sua estrutura espiral, as principais luas de Júpiter e até mesmo os anéis de Saturno. Ainda, sabiam que o universo tinha milhões de estrelas e que a Lua era deserta e inabitada, refletindo a luz do Sol à noite.

No extremo meridional do Saara, está o que sobrou da cidade de Timbuktu, guardiã de milhares de manuscritos científicos antigos. Eles revelam um conjunto de conhecimentos próprios no campo da astronomia, sem que aquele povo tivesse qualquer contato com o desenvolvimento científico da Europa renascentista.

O apagamento histórico afetou até mesmo o Antigo Egito, que foi considerado por anos como fora das fronteiras africanas. Isso levou a classificarmos erroneamente a ciência do tempo dos faraós como “oriental”, e não como africana. A ciência daqueles tempos não só influenciou a Europa e o mundo ocidental, como ainda intriga os estudiosos — e é preciso resgatar essa história, não apenas para informar melhor as novas gerações, como também para fazer justiça a tantos fatos e nomes que não tiveram o reconhecimento devido por todo esse tempo.