ENTREVISTA: Ann Druyan sobre Cosmos, exploração espacial e o mundo onde vivemos

Por Patrícia Gnipper | 05 de Junho de 2020 às 17h20
Emily Lakdawalla/ The Planetary Society

A nova temporada da aclamada série científica Cosmos estreia no Brasil neste sábado (6) à noite, no National Geographic. A sequência intitulada Possible Worlds ("Mundos Possíveis") dá continuidade à produção iniciada por Carl Sagan em 1980 — um dos cientistas e divulgadores científicos mais relevantes das últimas décadas, falecido em 1996 e que contou com uma parceira essencial para o sucesso de sua série televisiva.

Estamos falando de Ann Druyan, esposa de Sagan. Ela é cocriadora, produtora executiva, diretora e roteirista de Cosmos, série hoje apresentada por Neil deGrasse Tyson. Você descobre tudo sobre Cosmos: Mundos Possíveis nesta matéria do Canaltech e, abaixo, confere a entrevista exclusiva que fizemos com Ann — que enxerga Cosmos como "muito mais do que uma jornada dramática e cinematográfica", buscando despertar na audiência "a busca sagrada pelo essencial da ciência".

(Foto: National Geographic)

Canaltech: Me conta como e quando você decidiu trazer Cosmos de volta… qual foi o "estalo" que fez você pensar "essa série precisa ser atualizada e exibida a uma nova geração"?

Ann Druyan: Essa é uma ótima pergunta. Isso começou por volta de 2008. Eu sabia que já tinha um novo Cosmos em mim, e eu queria fazê-lo da mesma forma que fiz com Carl em 1980. Eu queria que a série tivesse a mesma qualidade, o mesmo nível de produção, efeitos especiais… então procurei uma variedade de emissoras, e todas elas disseram “sim”, mas não quiseram me dar o controle criativo e também não queriam oferecer dinheiro suficiente para a produção, para que ela fosse uma experiência praticamente cinematográfica. E foi aí que me encontrei com Seth McFarland, e ele me contou o quanto a série original de Cosmos havia sido importante para ele, em sua vida. Então ele me deu tudo o que eu precisava para criar o tipo de programa que eu tinha em mente, e sem nenhuma interferência — e isso foi o fator decisivo.

Sobre a série original… eu sempre achei que deveriam existir mais Cosmos. E em 2008 houve um momento, ao menos nos Estados Unidos, em que muitas ideias pseudocientíficas estavam ficando cada vez mais populares. Então, era hora de tomar partido em defesa da ciência.

CT: Já sobre Cosmos: Possible Worlds… foram cinco anos de preparativos para essa nova temporada, certo? O que você gostaria de nos dizer sobre o processo da pesquisa científica, o monitoramento das descobertas e inovações na área, a seleção de assuntos que seriam incluídos? E que reflexões você espera que os espectadores façam depois de assistir à série, que impacto no mundo você gostaria que a produção proporcionasse?

AD: Eu espero que os espectadores sintam a admiração que eu sinto pelos cientistas das histórias que contamos ali. De muitos deles, ninguém nunca ouviu falar. Mas eles foram tão brilhantes, tão corajosos e nada egoístas, que acabaram acrescentando tanto ao nosso entendimento da natureza. Eu também espero que as pessoas intensifiquem seu senso de esperança pelo futuro, porque eu enxergo tantos motivos para sermos esperançosos… nós podemos construir aquele futuro a partir do momento em que nós enxerguemos nossos problemas com uma visão realista.

E temos que usar a ciência como uma ferramenta para proteger nossa civilização, nossas vidas. Sem isso, eu não acho que temos muita esperança, porque negar a realidade de uma pandemia, por exemplo, ou negar a realidade das mudanças climáticas, nada disso contribui para com a nossa sobrevivência. Nossa sobrevivência depende de conseguirmos nos adaptar ao ambiente, e esse é um grande desafio para nós enquanto espécie. E a verdade é que paramos de nos adaptar ao nosso ambiente, nós acabamos nos engajando em destruir nosso ambiente. E uma coisa que me deixa muito feliz é ver tantas pessoas seguindo carreira científica sendo inspiradas por terem assistido ao programa… se esse tipo de coisa continuar acontecendo, isso seria um resultado incrível.

CT: Você atuou como diretora criativa do Voyager Interstellar Message Project, com a NASA. Como foi o processo de escolher o conteúdo dos Golden Records? Que critérios você usou para decidir por A ou B?

AD: No momento em que Carl me contou sobre o projeto e me pediu para trabalhar nele, eu o encarei de uma maneira até mesmo bastante religiosa. No sentido de que essa seria uma missão sagrada, digo. Porque em 1977 estávamos na sombra da Guerra Fria, do armamento nuclear, tudo isso estava fora de controle. E o mundo sofria com a ameaça das armas nucleares. Então foi como se estivéssemos criando uma Arca de Noé espacial com a cultura humana que poderia ser acessada por alguma civilização em algum outro lugar do universo, mesmo se nós não sobrevivêssemos. E naquela época, a música popular era essencialmente a música americana. Mars Carl sabia, e eu também sabia, que essa deveria ser uma mensagem de todo o planeta, e seria muito melhor e mais rico se o conteúdo dos discos fosse uma representação das culturas de todo o mundo. Nós demos o nosso melhor para fazer isso. Neste ano a criação dos Golden Records completa 43 anos, e eu me recordo de tudo isso com a maior das felicidades. Eu amava o Carl, tive uma família linda com ele, e tenho a alegria de que meus sentimentos e meu trabalho usados ali em 1977 têm um futuro mais longo do que qualquer outra coisa nas quais já colocamos as mãos. Os discos continuarão viajando pela Via Láctea e ainda serão reproduzíveis.

CT: É realmente um legado maravilhoso!

AD: Maravilhoso! Eu acho que nunca vou me conformar com o quão incrível é isso.

CT: Já sobre o asteroide 4970 Druyan, que ganhou seu nome por orbitar o asteroide 2709 Sagan, nomeado em homenagem ao Carl… Eu não imagino a honra que deve ser ter um objeto espacial batizado em minha homenagem, sabe? O que você pode me dizer sobre isso?

AD: É incrível! É a ideia de que esses dois asteroides estão em uma espécie de casamento orbital perpétuo, entende? Eu te digo que isso é tão maravilhoso! Essa ideia veio de uma astrônoma chamada Eleanor F. Helin. Como o Carl já tinha seu próprio asteroide, ela me deu esse presente no aniversário de 60 anos do Carl, enquanto estávamos comemorando. E é como se tivéssemos nos tornado uma espécie de mito grego, sabe? Eu sou uma pessoa extremamente sortuda, em todos os sentidos.

CT: Essa foi uma parte muito bonita da sua história, mesmo.

AD: Sim, foi mesmo! Muito obrigada! (emocionada)

Carl Sagan e Ann Druyan (Foto: Reprodução)

CT: Em 2015, rumores diziam que a Warner iria produzir um filme sobre seu relacionamento com Carl, mas não ouvimos mais nada sobre isso desde então. Você poderia nos dizer mais sobre essa produção? Ela ainda vai acontecer?

AD: Eu acho que ainda tem grandes chances de esse filme acontecer. Quando fizemos esse contrato, nós fizemos um desenho inicial de como seria um filme sobre o Carl, e isso na verdade aconteceu no início dos anos 1980, ou até mesmo em 1979. Aí depois isso se enrolou, até que Carl morreu, e o filme seria mudado em 1997. Esse tipo de projeto costuma mesmo ser uma longa estrada, mas eu acho que você vai ouvir alguma coisa sobre isso em algum momento no futuro não muito distante.

CT: Espero que sim! Eu quero muito assistir a esse filme!

AD: Eu também (risos)

CT: Agora me conta tudo o que você puder sobre seu envolvimento com o Breakthrough Initiatives. Você acredita que a nave planejada por eles vai mesmo chegar a Proxima Centauri? O que seria preciso pra esse tipo de coisa acontecer mais cedo? Mais dinheiro investido? Tecnologias ainda não disponíveis?

AD: Enquanto eu estava produzindo Cosmos, não fiquei muito envolvida com esse projeto como antes, mas espero voltar a me envolver de novo em breve. Em alguns pontos eles estão adiantados, na verdade, mas é que existem muitos aspectos diferentes neste projeto que exigem inovações, de fato. Mas eu acho que está tudo bem adiantado. Não sei se vão mesmo fazer um lançamento do tipo na década de 2030, mas enxergo esse tempo como saudável, e eles têm se reunido com um grande número de cientistas para isso, então eu acredito no projeto.

CT: Acabei de ser avisada que nosso tempo infelizmente acabou, então gostaria de agradecer imensamente pela nossa conversa! Não tenho palavras suficientes para descrever o quão honrada estou por você ter aceitado conversar com a gente. Muito obrigada, mesmo!

AD: Patricia, foi um prazer! E eu espero de verdade que nossos caminhos se cruzem novamente.

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