O que falta para os carros elétricos pegarem no Brasil?

O que falta para os carros elétricos pegarem no Brasil?

Por Felipe Ribeiro | Editado por Jones Oliveira | 07 de Agosto de 2021 às 07h00
Felipe Ribeiro/ Canaltech

Muito embora o mercado de carros elétricos tenha crescido com algum destaque no Brasil, ainda falta muito para que esse tipo de automóvel realmente se popularize por aqui. Notadamente mais eficientes quando pensamos em consumo energético e emissão de gases, eles serão, com certeza, o futuro de um dos segmentos que mais movimentam dinheiro e empregos mundo afora.

Na Europa, o caminho parece mais pavimentado para a total eletrificação da indústria. O parlamento europeu já determinou que o prazo para que todas as montadoras deixem de produzir e vender carros a combustão é 2035. Até lá, muito terá de ser feito não apenas pelas empresas, mas também pelas montadoras, que precisarão se adequar e transformar toda a sua linha de automóveis.

Em 2021, pouco mais de um terço dos carros vendidos na Europa são eletrificados, sejam eles híbridos, híbridos plug-in ou 100% elétricos. No Brasil, ainda estamos bem longe dessa popularização, por inúmeros fatores. Apesar disso, segundo dados da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), o Brasil registrou 13.899 novos veículos elétricos/híbridos e híbridos plug-in no primeiro semestre de 2021. De maio para junho foram 3.507 novos emplacamentos.

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Mas o que será que falta para que os carros elétricos se popularizem por aqui? Separamos alguns motivos que podem explicar.

Infraestrutura

Enganam-se aqueles que acham que o problema dos carros elétricos é a autonomia. Já existem modelos à venda no Brasil que podem circular mais de 300 quilômetros com uma só carga e outros que ultrapassam os 400 quilômetros, como o Chevrolet Bolt. O que torna o alcance dos veículos elétricos "ruim", indiretamente, é a falta de investimento em infraestrutura.

Cidades como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro já contam com uma boa oferta de eletropostos e pontos de carregamento, mas todos em locais privados — muito embora com uso gratuito. Capitais pelo mundo, como Roma e Londres, por sua vez, contam com diversos carregadores rápidos nas ruas e isso facilita bastante para quem quer ter um carro elétrico.

(Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

No Brasil, empresas como a Volvo, Enel e a Nissan são algumas das que mais investem em pontos de carregamento para carros elétricos. Com uma maior união e troca de ideias entre as autoridades e essas companhias, as cidades brasileiras poderiam ter um avanço significativo neste departamento, principalmente se considerarmos que nossa matriz energética é uma das mais limpas e sustentáveis do mundo.

Preço dos carros

O preço dos carros elétricos não são um problema apenas do mercado brasileiro. Por serem relativamente novos e contarem com muita tecnologia embarcada, esses automóveis ainda custam mais do que a média dos modelos a combustão. Na Europa, as montadoras têm conseguido diminuir um pouco o custo de produção e repassar esse desconto aos clientes, mas ainda falta muito.

O Renault Zoe custa mais de R$ 200 mil (Imagem: Divulgação/Renault)

De modo geral, o que pode ajudar a diminuir os preços dos carros elétricos é o corte nos gastos para produzi-los. Uma solução seria trazer a fabricação desses modelos para cá, o que demandaria, em um primeiro momento, um enorme investimento em fábricas e mão de obra. Outra solução é contar com apoio governamental por meio de incentivos fiscais às empresas, de modo a conseguir um ambiente de negócios mais fértil.

Impostos devem baixar

Na linha dos estímulos governamentais está o corte de impostos de importação, uma das maiores fatias do preço dos carros elétricos. Um acordo comercial entre União Europeia e Mercosul deve zerar a alíquota para trazer esses produtos em até oito anos, com uma queda consistente já se iniciando em 2022. Como a maioria desses automóveis são oriundos da Europa, podemos sentir uma queda sensível na precificação.

Desinformação

Assim como em vários outros setores da sociedade, a desinformação pode ser um grande problema. No caso dos carros elétricos, isso pode ser elevado a níveis gigantescos. Por ser de difícil acesso à maioria da população, é comum ver pessoas considerarem esses automóveis piores do que os modelos a combustão por fatores como autonomia, espaço, design, comportamento e muitos outros.

(Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

Em nossos testes aqui no Canaltech todos esses mitos foram desconstruídos um a um. O mais fácil deles foi o do comportamento do carro, que pode, em um primeiro momento, não agradar aos entusiastas mais fervorosos. A falta daquele ronco do motor pode até fazer falta, mas não podemos reclamar dos carros elétricos quando o assunto é desempenho.

Tomemos como exemplo um dos modelos mais vendidos no Brasil, o Nissan Leaf. O hatch elétrico entrega 149cv e 32,6kgf/m de torque que, na prática, seria como guiar um esportivo de entrada com muito mais potência. Traduzindo em números, o 0 a 100 km/h do Leaf é de 7,9 segundos, menos do que automóveis badalados do mercado, como o Honda Civic Touring, por exemplo.

Divulgação

Por mais que as empresas que atualmente vendem carros elétricos no Brasil façam um bom trabalho, ainda é preciso disseminar mais a cultura dos veículos 100% elétricos. As barreiras naturais como preço e infraestrutura são verdadeiras e presentes, mas as montadoras podem, e devem, ser mais criativas para trabalhar com esses produtos, principalmente se considerarmos a boa capilaridade das concessionárias.

Um exemplo recente foi a Nissan, que expandiu seu número de concessionárias prontas para vender e fazer a manutenção do Leaf para 44 lojas em 15 estados do Brasil. Agora essa rede começa a ser preparada para ter o atendimento completo, com vendas e serviço de oficina, ou atuar como ponto de vendas. Em setembro, todas terão completado os treinamentos específicos para atender aos clientes de carros elétricos, feito as adaptações necessárias em suas infraestruturas e recebido as ferramentas e equipamentos para garantir a manutenção seguindo o padrão global da montadora.

O caminho natural é a eletrificação

Com diversas montadoras avisando que deixarão de desenvolver carros a combustão, fica claro que o caminho do setor automotivo deve mesmo ser o da completa eletrificação. Muito embora cada mercado tenha a sua peculiaridade, a notável eficiência energética e avanços tecnológicos tornam o ambiente para essa popularização mais fértil e consistente do ponto de vista mercadológico.

Novo Fiat 500e chega este ano ao Brasil (Imagem: Divulgação/FIAT)

O Brasil é um país de proporções continentais e é injusto comparar com o poderio financeiro e estrutural da Europa, muito mais avançado sobretudo no âmbito cultural. Mas, ao contrário do Velho Continente, temos uma matriz energética mais limpa e um potencial ainda inexplorado, principalmente quando falamos de energia solar e eólica. Para explorar todo esse potencial, porém, precisamos de mais investimentos e estímulos das autoridades.

Mesmo assim, o futuro por aqui é promissor. Segundo dados da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), a expectativa é de que até o final de 2021 o país chegue à marca de 28 mil carros elétricos vendidos.

E aí, canaltechers, vocês teriam um carro elétrico atualmente? Deixem nos comentários!

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