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Bluesky é diferente do Twitter e quer ainda mais brasileiros, diz CEO

Por| Editado por Douglas Ciriaco | 20 de Maio de 2024 às 10h59

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Divulgação/Bluesky
Divulgação/Bluesky

A rede social Bluesky é uma das principais alternativas ao X (antigo Twitter): foi fundada pelo ex-dono da rede social de textos curtos, Jack Dorsey, e ainda tem uma interface muito similar à concorrente. Em entrevista ao Canaltech, porém, a CEO da companhia Jay Graber reforça que a plataforma traz mais possibilidades do que outras redes convencionais, vai além de uma simples rede de microblogging e está de braços abertos para receber ainda mais brasileiros.

O Canaltech conversou durante 1 hora com Graber e com a responsável por Estratégia, Operações e Crescimento da Bluesky, Rose Wang. A dupla falou sobre temas como o impacto da comunidade brasileira no app, novidades para o futuro, eleições e a saída de Jack Dorsey da empresa.

"Na superfície ele se parece com o Twitter, isso foi uma escolha intencional de design para torná-lo mais fácil de usar. Porém, a partir do momento que as pessoas começam a usar, elas percebem que há muita coisa diferente", explica a CEO. Com relação ao público do Brasil, Graber diz ainda que alguns dos primeiros usuários da plataforma eram brasileiros e até fizeram amizade com a comunidade, enquanto Wang reforça que a chegada dos GIFs ao app foi um impacto causado pela "comunidade divertida e brilhante do Brasil".

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Confira agora um resumo da entrevista de Jay Graber e Rose Wang ao Canaltech.

Os primeiros passos 

A Bluesky foi fundada por Jack Dorsey em 2021 para atuar como um protocolo aberto, paralelo ao (então) Twitter. Após a aquisição da rede do passarinho por Elon Musk, o projeto foi desvinculado da empresa e ganhou autonomia: o resultado foi o lançamento da Bluesky Social em 2023, uma rede de textos curtos com base no protocolo aberto AT Protocol

Jay Graber: Jack [Dorsey] era o CEO do Twitter em 2019 e disse que queriam criar um projeto para construir um protocolo para rodar a rede nele. Eu assumi o projeto em 2021, nunca trabalhei no Twitter, mas numa companhia separada que trabalhou com a rede para montar esse protocolo. Quando Elon [Musk] comprou, ele cortou relações e nos tornamos independentes.

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Naquele momento, criamos o app da Bluesky para mostrar o que é possível com uma rede aberta. Quando você abre a Bluesky, é muito parecido com o Twitter, mas debaixo da superfície a experiência é feita de coisas criadas por diferentes pessoas, comunidades e companhias. 

Rede descentralizada

A Bluesky segue a ideia de uma rede descentralizada, ou seja, que não é vinculada a uma única empresa ou servidor. A plataforma oferece um espaço para que qualquer pessoa publique um feed próprio e ainda possui ferramentas personalizadas de moderação. Esse "mercado de feeds" permite que cada pessoa customize a rede social para ver seus interesses em destaque, por exemplo.

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Jay Graber: Num site normal, você tem um único algoritmo que é feito como uma caixa preta, criado para você descer a tela — você não sabe como é feito nem tem controle sobre ele. E isso é controlado pela empresa, que normalmente quer maximizar engajamento ou renda de anúncios. 

O que a Bluesky faz, na verdade, é criar um mercado de feeds e você pode se inscrever naquele que satisfaz seus interesses: se você quer ver fotos de gatos, pode olhar o feed de gatos, ou se você acha que gasta muito tempo nas redes sociais e quer algo mais saudável, pode ver apenas as fotos dos seus amigos. A analogia aqui é que um site normal é como uma TV com um tipo de canal, em contrapartida isso é como ter uma grande variedade de programas favoritos para você se inscrever e, se você não gosta do que vê, pode criar o próprio.

Além dos feeds, cada comunidade pode desenvolver certas ferramentas de moderação, como filtros e regras específicas para contextos específicos — algo como as Notas da Comunidade do X, mas ainda mais personalizável. Para a CEO, isso faz parte do protocolo aberto e torna a plataforma mais democrática.

Jay Graber: Nós temos uma base de serviços de moderação que seguem as diretrizes da comunidade, e além disso deixamos os membros das comunidades criarem suas próprias camadas. Se você quer ver menos fotos de aranhas, por exemplo, pode se inscrever a um serviço específico que permite reportar uma imagem e escondê-la para você. Isso é algo que uma rede social centralizada provavelmente nunca faria, porque é muito específico e nichado — por mais que as pessoas tenham medo de aranhas, não é do interesse da companhia usar recursos para criar algo tão específico.

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Quando deixamos as comunidades tomarem conta, elas podem personalizar e deixar as redes mais democráticas. Pensamos nisso como algo criado por pessoas e para as pessoas, porque nós oferecemos feeds e serviços de moderação, mas se não gostar, você pode abrir mão deles e montar os seus próprios. Então é assim que imaginamos que as redes sociais vão evoluir e tem um caminho longo até lá. A primeira parte foi uma demonstração de que podemos criar um app para mostrar esse ecossistema às pessoas.

Rose Wang: Quando você olha o que acontece no cenário das mídias sociais, muitas estão ficando mais “mídias” do que “sociais”. E quando você só tem um feed e desce a tela sem parar, as pessoas tendem a ficar mais desconectadas do que conectadas.

Por exemplo, nós temos um feed de ciências no qual cientistas de todo o mundo compartilham informações e criam conexões, e esses especialistas fazem a curadoria e a moderação do próprio feed para evitar a desinformação — conteúdos falsos são categorizados e derrubados pelos experts. Eu gosto de imaginar o que aconteceria se a Bluesky existisse durante a era da covid-19, com tanta desinformação por aí. Então, se dermos o poder nas mãos dos usuários, principalmente cientistas que ajudam a identificar erros, poderíamos ter um resultado melhor.

A presença do Brasil

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Não é nenhuma novidade que os brasileiros conseguem “invadir” qualquer rede social e a Bluesky também se beneficiou disso. Durante as tensões entre Elon Musk e o Supremo Tribunal Federal, no mês de abril, a plataforma recebeu cerca de 100 mil novos usuários do Brasil, incluindo o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Canaltech: Como vocês veem o Brasil no ecossistema da Bluesky?

Jay Graber: Alguns dos nossos primeiros usuários são brasileiros. Nessa mesma época no ano passado nós tínhamos apenas algumas dezenas de milhares de usuários, uma parte deles eram brasileiros e fizemos amizade com eles. Então, estamos muito animados para ver ainda mais brasileiros chegando — tivemos o Lula, que chegou há algumas semanas, e nos anima ver mais brasileiros entrando nas discussões.

Nós criamos um super grupo de feeds para o Brasil que mostra apenas posts de usuários brasileiros. Os feeds podem ser baseados em hashtags, posts em português ou no tema das publicações.

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Rose Wang: Os GIFs estavam bem distantes no nosso mapa de lançamentos. Porém, quando os brasileiros chegaram no último mês, nós pressionamos para que isso fosse lançado, porque nós amamos a comunidade divertida e brilhante do Brasil e os GIFs que usam, então foi muito divertido!.

Próximos recursos

Recentemente, a companhia divulgou um panorama de desenvolvimento de novas funções para deixar a rede mais completa. Alguns deles, como o suporte a mensagens diretas e vídeos, são recorrentes em muitas outras plataformas, mas ainda não estão disponíveis na Bluesky e devem chegar nos próximos meses.

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Canaltech: você acha que a falta de recursos pode ser um fator que afasta a chegada de novos usuários?

Jay Graber: Sim, potencialmente. Mas nós queríamos finalizar o protocolo e mostrar o que é possível com ele. A Bluesky é muito parecido com qualquer outra plataforma social, então as pessoas podem não entendê-lo no começo, então agora que criamos os feeds e moderações personalizáveis, nós realmente montamos a base da rede. Pensamos nisso como uma base para a casa que nós construímos e outras pessoas podem construir.

Agora, as ferramentas estão aí, então quando os usuários chegam, eles podem olhar e usar coisas criadas por outras pessoas. Mensagens diretas e vídeos são alguns recursos mais básicos que não possuem esse nível de customização — nós sabemos que são realmente importantes e estão no mapa de lançamentos, mas agora que criamos a base nós queremos avançar e preencher com essas coisas. Nós abrimos ao público em fevereiro, então não tem muito tempo que saímos do período de Beta com convites, então algumas coisas estavam planejadas para sair depois disso.

Saída de Jack Dorsey

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A Bluesky ficou nos holofotes no começo de maio após a saída do fundador Jack Dorsey — por muito tempo, Dorsey foi o nome mais forte vinculado ao projeto e ajudou a promovê-lo como uma alternativa ao Twitter após a aquisição de Musk. 

O empresário saiu da diretoria e, em entrevista, acusou a rede de “cometer os mesmos erros do Twitter”, principalmente com relação ao uso de ferramentas para moderar os conteúdos na plataforma. Ele, inclusive, chamou a Bluesky de “anti-Twitter”, pois as pessoas só migravam para lá quando estavam insatisfeitas com a concorrente.

Canaltech: o que muda com a saída de Jack Dorsey da diretoria? Ele recentemente disse que a Bluesky virou um "anti-Twitter", pois as pessoas frustradas com a outra rede migrariam para lá, e isso seria ruim para os negócios. O que você acha dessa afirmação?

Jay Graber: Eu acho que isso é algo enganosamente simples sobre a Bluesky, porque na superfície ele se parece com o Twitter, e isso foi uma escolha intencional de design para torná-lo mais fácil de usar. Porém, a partir do momento que as pessoas começam a usar, elas percebem que há muita coisa diferente: você pode ter um feed que não é criado por uma empresa, por exemplo. 

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Então, eu acho que essas são coisas que nós mostramos que você não necessariamente precisa fazer, mas existem muitas possibilidades aqui além da superfície. Como é um protocolo aberto, você pode usar outro app, mostrar os mesmos dados e chamá-lo de “Greensky” ou qualquer coisa do tipo. Acho que até pessoas como Jack vão falar que parece o Twitter, mas isso foi apenas uma escolha de design na interface, mas tem muitas camadas de profundidade e mostra um ecossistema maior que o próprio aplicativo da Bluesky.

Jack nos ajudou com o financiamento para criar o protocolo inicial, quando ainda era CEO do Twitter. Ele ficou na diretoria numa cadeira reservada à rede, que ficou lá até quando nos separamos [do X], mas ele nunca esteve muito envolvido. Pouca coisa mudou para nós internamente.

Moderação

O possível estopim da saída de Jack Dorsey foi justamente a moderação, já que o empresário defende uma plataforma livre de qualquer recurso de controle de conteúdo. Jay Graber segue um caminho diferente, com mecanismos de segurança para o aplicativo principal.

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Canaltech: existe muita discussão sobre o uso de recursos de moderação nas redes sociais e a liberdade de expressão nas plataformas. Qual seria o melhor equilíbrio nessa situação?

Jay Graber: Tem um ditado que até o Elon [Musk] já disse, mas acho que determinou como fizemos a Bluesky, que é: nós promovemos liberdade de expressão, mas não liberdade de alcance. Na Bluesky, a liberdade de expressão é garantida a nível de protocolo, como se você quisesse publicar um blog na internet para dizer o que deseja — você é livre para publicar, desde que tenha um domínio para hospedá-lo. Se você coloca esse blog e começa a dizer coisas controversas ou odiosas, outros sites não vão seguir com isso, não vão linkar até a página e até o Google pode deixar de exibi-lo nos resultados da busca. Então, está lá, mas não distribuímos. 

A nossa abordagem é essa, se quer criar seu servidor próprio, pode publicar o que quiser. Mas, isso vai para o aplicativo da Bluesky? No app nós temos uma base de diretrizes da comunidade, na qual não exibimos conteúdos como esse, então isso nunca vai aparecer num aplicativo ou numa comunidade que controlamos. Se você quer criar algo fora desse ecossistema, é como a própria rede mundial de computadores, você pode fazer isso em qualquer outro lugar. 

Dentro do app, nós temos camadas de moderação e temos essa base de regras. Além disso, existem outros níveis nos quais as pessoas podem concordar ou discordar sobre classificar algo como rude ou qual ação deve ser tomada sobre um post. Então, nós temos algumas categorias de conteúdos nos quais as pessoas podem usar para trazer uma proteção adicional ao app — elas podem classificar algo como rude, intolerante ou assediador, e esses conteúdos podem ser ocultados ou derrubados pelos usuários.

Bluesky nas eleições

O ano de 2024 é marcado por eleições em diversos países do mundo e, mais uma vez, a existe o alerta sobre os riscos das desinformações nas redes sociais durante um período democrático. Para este ano, a Bluesky contratou Aaron Rodericks para comandar a equipe de Confiança e Segurança do app — o profissional já atuou como o chefe do departamento de Eleições e Integridade no Twitter — e disponibilizou os mecanismos de moderação em código aberto para outras plataformas.

Canaltech: quais medidas a Bluesky tomou para atender às demandas legislativas de cada país?

Jay Graber:Nosso objetivo é respeitar todas as leis locais e fazemos uma moderação híbrida entre um modelo centralizado e outros descentralizados. Internamente, com Aaron [Rodericks], nós avaliamos quais medidas precisamos tomar e certificamos que temos um padrão para isso. A desinformação eleitoral é algo que se mexe muito rápido e tem especificidades em cada região e idioma, então as pessoas podem construir serviços independentes atrelados à plataforma e sinalizar problemas, dessa forma podemos evoluir rapidamente como uma companhia.

Desafios para introduzir uma rede descentralizada

Os recursos descentralizados da Bluesky podem causar estranheza para usuários que não estão acostumados com o cenário: cada nome de perfil conta com um domínio próprio, como “bsky.social”, e a ideia de usar feeds criados pela comunidade não existe em plataformas centralizadas, por exemplo.

Canaltech: como a Bluesky trabalha para educar os novos usuários a essa realidade de uma rede social descentralizada?

Jay Graber: Nós ainda trabalhamos para melhorar isso. Muitas vezes os usuários escrevem os próprios guias e ajudam outras pessoas, isso é super útil e animador, mas dentro do app nós tentamos colocar algumas coisas para mostrar que isso é uma jornada e você pode aprender mais quando você quiser. 

Como existe muita complexidade abaixo da superfície, queremos ser simples no começo. Uma das piores experiências que eu acho que existem é abrir um app e ter que passar por umas 20 configurações diferentes antes de começar a usá-lo. Tem muita escolha e isso é difícil, então nós estabelecemos alguns padrões e nossa filosofia é de “escolha do usuário com alguns padrões sensíveis”. 

A primeira coisa que você ganha é o provedor social da Bluesky, você não sabe o que é, mas vamos dar para você. Isso significa que nós hospedamos seus dados e pode movê-los se quiser depois, mas nós não vamos forçá-lo a escolher agora. O domínio no nome de usuário é similar: você pode usar outro endereço, mas precisa fazer por conta própria e isso é uma segunda etapa — inicialmente, vamos dar um nome de usuário e seguir em frente.

Quando você entra na rede, ainda pode usá-la como o Twitter ou outra rede social, isso foi nossa escolha de design para simplificar o uso na superfície. Você tem um feed padrão, uma moderação padrão, e não necessariamente pode perceber isso, mas existem todas essas opções disponíveis. Assim que estiver insatisfeito ou quiser algo mais, pode procurar por coisas feitas pela comunidade.

Rede de textos na era dos vídeos

Vale notar que a Bluesky surge como uma alternativa de microblogging num momento em que a maioria das redes quer seguir o “efeito TikTok” com vídeos curtos — inclusive o X. No entanto, Jay Graber reforça que os feeds de vídeos criados por um algoritmo são um caminho que a empresa "não quer seguir", enquanto os textos são "uma forma direta" de mostrar o poder de controle dos usuários.

Canaltech: como é manter uma rede de textos em meio a uma época em que as redes sociais focam tanto em vídeos?

Jay Graber: Algumas pessoas gostam de vídeos, outras pedem para não adicionarmos para trazermos uma forma mais calma de usar redes sociais. Eu acho que, nessa época, nós deliberadamente não seguimos tendências: muitos apps estão “TikTokficando”, tentando ser o próximo TikTok, criando algoritmo automático de transmissão de vídeos, mas esse não é o caminho que queremos seguir porque não queremos oferecer apenas um algoritmo fechado. Nós queremos dar controle ao usuário, e começar apenas com textos foi uma forma direta de mostrar aos usuários como isso é possível e como entender esses mecanismos.

Rose Wang: De novo, isso volta para a hipótese das mídias sociais focarem mais nas mídias. Mas nós estamos muito focados nas comunidades, pense no Reddit, por exemplo, é outra plataforma social muito baseada em textos porque é baseada em comunidades. O que me impressiona é que mesmo sem os vídeos nós já chegamos aos 5,6 milhões de usuários e temos uma base de usuários que continua crescendo e voltando para cá por causa das relações formadas na Bluesky. Queremos deixar a internet mais divertida de novo — é menos sobre as pessoas consumirem conteúdo, e mais sobre engajarem com outras pessoas.

A Bluesky

A Rede do Céu Azul começou a operar no ano passado durante uma fase de testes que funcionava apenas via convites, mas abriu a estrutura a público em fevereiro deste ano — de acordo com dados da companhia, já são 5,6 milhões de usuários cadastrados até o mês de maio.

Um dos destaques da plataforma é o aspecto descentralizado, que permite que qualquer pessoa desenvolva um feed personalizado e crie os próprios métodos de moderação, sem a necessidade de depender do algoritmo principal. Jay Graber explica que a companhia precisou "criar uma base" da plataforma e introduzir os recursos de personalização dos feeds antes de ampliar a plataforma para mais pessoas. 

A Bluesky não é o único na concorrência contra o X — você pode conferir um comparativo entre a rede social e o Threads, da Meta.