Quanto tempo pode durar a pandemia da COVID-19?

Por Fidel Forato | 27 de Março de 2020 às 19h30
Guilherme Gandolfi/Fotos Públicas

A pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2) está no começo, no meio ou no fim? A resposta a essa pergunta é algo que todas as autoridades do mundo buscam saber e investem em simulações e apoio de especialistas para prever. Afinal, a COVID-19 já fechou fronteiras, tanto terrestres quando áreas, também paralisou comércios e empresas, colocando praticamente todos os países em estado de quarentena. Até mesmo a população da Índia, que ultrapassa a casa do bilhão, foi posta em isolamento.

Ninguém sabe por quanto tempo essa situação vai se alastrar ou como serão os próximos meses, mas há algumas apostas. Nesse cenário, cientistas e pesquisadores trabalham no contingenciamento da COVID-19, quebrando as linhas de transmissão, ou seja, impedindo novas infecções com o isolamento social. Outras boas soluções são investimentos em massa na saúde pública e no rastreamento das pessoas com o novo coronavírus ativo.

Segundo especialistas, ainda é cedo para se entender de qual tamanho será os estragos da COVID-19 no país (Foto: Reprodução/ iNews)

Segundo o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o pico de casos deve acontecer até o mês de junho. "Nós estamos imaginando que vamos trabalhar com números ascendentes, espirais em abril, maio, junho. Vamos passar, aí, 60 a 90 dias de muito estresse para que, quando chegarmos ao fim de junho, julho, a gente imagina que entra no platô. Agosto, setembro, a gente deve estar voltando, desde que construa a chamada imunidade de mais de 50% das pessoas", afirmou o ministro, em coletiva de imprensa, terça-feira passada (17).

Na outra ponta da América, o presidente norte-americano Donald Trump escreveu uma carta ontem (26), para que a população evitasse sair por conta dos riscos da COVID-19. Entre as recomendações, estavam ficar em casa, não trabalhar doente e evitar reuniões e eventos com mais de 10 pessoas, além de destinar enormes recursos financeiros para ajudar os americanos.

Em outras palavras, a situação deve piorar, de forma considerável, até chegar a uma linha neutra e, daí por diante, melhorar. Além do mais, quando os números de novos casos começarem a cair e, se a população relaxar muito cedo, o coronavírus pode voltar com ainda mais força — essa situação ainda é um risco para a China, por exemplo.

Previsões estatísticas

Entre os países, até agora, a China é o único que conseguiu controlar a situação do novo coronavírus e, inclusive, zerar novos casos locais da infecção. No entanto, o país asiático teve um único foco da doença, a cidade de Wuhan, e todos os desdobramentos vieram desse ponto específico. Isso significa que o governo chinês deveria concentrar o envio de investimentos, de força tarefa e de profissionais de saúde para uma única região, onde mesmo assim foram registrados mais de três mil mortos.

"Se você pegar os Estados Unidos, hoje, eles têm três centros com o surto estabelecido. Eles têm Nova Iorque, o estado de Washington, na costa Oeste, e o estado da Califórnia, que decretou fechamento. Ninguém pode entrar e ninguém pode sair", alerta Átila Iamarino, microbiólogo com pós-doutorado pela USP e pela Yale University.

O que pode significar que, mesmo que essas três regiões americanas parem tudo, como fez a China após quase um mês da epidemia, impondo quarentena obrigatória, três Wuhans poderiam se repetir no território americano. Quanto ao Brasil, "já temos pelos menos São Paulo e o Distrito Federal, com Brasília", explica Iamarino no seu canal. "É provável que tenhamos mais casos acontecendo como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, mas só veremos (em números) quando eles começarem a ser hospitalizados", argumenta o cientista.

De acordo com o microbiólogo e especialista em virologia, "o Brasil promete crescer em uma taxa mais rápida que a Itália. Podemos esperar nos próximos dias, nos próximos meses, um cenário como da Itália ou pior para vários centros… [Sobre o tempo de recuperação do gigante asiático] três meses é uma linha do tempo irreal, porque nós não estamos adotando as medidas que a China adotou agora."

O que conta a favor do país são as medidas já tomadas para o contingenciamento da crise. “Se o Brasil não fizesse nada, se as empresas continuassem funcionando em todos os lugares, se a gente não tivesse decretado estado de emergência, se todo mundo tivesse seguido a vida normal, como alguns estão pregando, seguindo essa projeção, só pela COVID-19, o Brasil teria 1,4 milhão de mortos até o fim de agosto", defende Atila.

"Uma grande parte das pessoas que pega o coronavírus não morre, mas precisa de internação, precisa de hospitalização. Já estamos cientes do que vem pela frente, São Paulo já vai usar estádios para receber pessoas, assim como a Itália está sendo obrigada a usar hotéis para poder fazer unidades hospitalares", conclui o cientista sobre o que deve ser esperado da COVID-19 no Brasil.

Do pronto-socorro

"Pelo conhecimento prévio da epidemia e pelo que estamos vendo na prática [no estado de São Paulo], não é possível encerrar isso agora. Os casos estão aumentando, vivemos uma curva de ascensão. Os dados que chegam da Secretária é de que se trata de uma ascensão importante, mas menor do que a que se esperaria", afirma Renato Grinbaum, gerente de práticas médicas no Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, e doutor em doenças infecciosas e parasitárias pela Unifesp.

Segundo Grinbaum, só será possível definir parâmetros sobre a pandemia da COVID-19 a partir da próxima semana, quando se completam os 15 dias de quarentena impostas para o estado de São Paulo. O infectologista comenta: "Teremos um aumento mais agudo de casos, mas na próxima semana será um dos momentos mais importantes para entendermos a COVID-19. E o comportamento da semana que vem é que nos dirá quanto tempo isso irá durar".

Mesmo que ninguém queira o prejuízo econômico dessa imprecisão, a Itália já demonstrou que a pandemia, por si só, sem a quarenta, é responsável por quebrar a economia. Afinal, no país ao sul da Europa, muitas autoridades evitaram ao máximo impor restrições aos deslocamentos no país, até que alcançaram uma situação de caos na saúde pública e de quarentena compulsória.

"Nesse momento, é muito visível o aumento de casos, os hospitais estão cheios de pessoas com COVID-19 e existem casos graves... O que está de calmo nas ruas, dentro dos hospitais está ao contrário", explica o gerente de práticas médicas. O bom sinal, se é que se pode afirmar isso, é que a maioria das pessoas sairá bem dessa pandemia, mas não será uma tarefa fácil para médicos, enfermeiros e farmacêuticos envolvidos.

Próxima semana será decisiva para entender o tamanho da crise brasileira (Foto: David McNew/Getty Images)

"Todos os hospitais estão ampliando a sua capacidade, ou seja, suspenderam consultórios, internações eletivas e conseguiram aumentar as áreas de UTI. Estão ampliando tudo o que podem e reorganizando as esquipes médicas para a COVID-19", explica o infectologista sobre o momento, pelo menos da cidade de São Paulo. Inclusive, ele esclarece que "até o presente momento, todos estão sendo atendidos com a mesma qualidade dos períodos normais".

Mesmo que, por ora, a infraestrutura da saúde não esteja saturada, Grinbaum alerta: "O problema é o que vai acontecer depois. Estamos falando de uma cidade como São Paulo, que tem um bom número de hospitais e condições financeiras. Nós não sabemos como [a doença] se comportará nas periferias, nas cidades do interior. O Brasil é um país muito heterogêneo e as respostas da epidemia serão muito diferentes nas regiões do Brasil".

Nesse cenário, nem os mais jovens podem acreditar que estarão imunes a essa pandemia. Isso porque "a probabilidade de terem uma doença mais grave é menor, mas temos visto que eles também apresentam sintomas graves. A diferença para aquelas pessoas que têm comorbidades ou são idosos é que os mais jovens conseguirão passar melhor esse período crítico e sobreviver bem", esclarece o especialista.

A questão dessa recuperação dos mais jovens é que eles também "disputarão" leitos em hospitais e que eles não tenham sérias sequelas, como a fibrose pulmonar grave. Segundo Grinbaum, "esperamos que não seja tão frequente aqui, mas é um processo de cicatrização. Fibrose é cicatrização. Se o pulmão ficou muito 'ferido', devido a uma pneumonia grave, o processo de cicatrização não permite que aquele pulmão funcione normalmente depois".

Agora, a principal discussão para o infectologista é entender quanto tempo devem durar essas precauções mais severas de quarentena e quando devemos reduzir essas precauções. No entanto, só os próximos dias do comportamento da COVID-19 poderão mostrar esse caminho.

Diminuição no crescimento de casos em São Paulo

No meio da crise brasileira, que ainda deve ganhar tração, é possível que um bom sinal esteja sendo emitido do estado de São Paulo. A possibilidade vem após um levantamento indicar uma diminuição da taxa de crescimento de casos do novo coronavírus na região, fruto de ações como distanciamento social.

Quem apresenta o estudo é o físico José Fernando Diniz Chubaci, doutor pela USP e professor do Instituto de Física da mesma instituição. A partir de dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o professor comparou três situações da COVID-19: o crescimento de casos no estado de São Paulo, individualmente; do Brasil, na sua totalidade; e do país, desconsiderando São Paulo.

Segundo Chubaci, a partir do 18º dia do primeiro caso da infecção no país, no dia 15 de março, a taxa de crescimento da curva referente ao estado de São Paulo começou a diminuir. Já entre os dias 18 e 19 do mesmo mês, que coincide com as primeiras ações para conter a disseminação do coronavírus, o número de casos confirmados no restante do país se tornou maior do que os do estado paulista.

No entanto, Chubaci alerta que esses dados não refletem uma tendência e são apenas um retrato da situação brasileira desde a confirmação do caso um por aqui. "Isso indica para a gente quais são as políticas a serem seguidas", afirma o pesquisador para a Folha de S. Paulo.

Fonte: Com informações: Popular Science, The New York TimesFolha de S. Paulo, G1

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