OPINIÃO | Epidemia de COVID-19 prova que, às vezes, saber demais é um erro

Por Rafael Rodrigues da Silva | 02 de Março de 2020 às 18h00
BBC News

Já são quase dois meses que estamos falando da (ainda não oficialmente classificada pela OMS) pandemia do SARS-CoV-2, mais popularmente conhecido como o “novo coronavírus”. E, talvez pela primeira vez, nós estamos sentindo em primeira mão o que a era da informação instantânea e em qualquer dispositivo pode fazer para um evento de interesse público mundial — e como ela pode ser problemática para se evitar uma epidemia.

Quando tratamos de controle de epidemia, é preciso manter um equilíbrio “saudável” entre medo e tranquilidade: deixar as pessoas com medo demais cria um estado de pânico que acaba atrapalhando o combate à doença, mas também tranquilizá-las demais faz com que ninguém tome as precauções necessárias para evitar o contágio. Assim, teoricamente, ter o acesso rápido a uma enorme gama de informações deveria ser algo que facilitaria a manter esse equilíbrio, deixando as pessoas informadas daquilo que elas realmente precisam saber sobre a doença sem criar um pânico desnecessário.

Infelizmente, não é isso que está acontecendo.

Fake News

Como já sabemos, a capacidade de se conseguir informações de forma instantânea e em vários dispositivos infelizmente não garante que essas informações estejam corretas. E, como em muitos outros temas, as fake news são um grande problema também contra o COVID-19.

Desde que surgiram as primeiras notícias sobre o novo vírus na China, o que não faltam são versões absurdas para explicar a doença que, criadas por sites com pouca ou nenhuma credibilidade, acabam viralizando nas redes sociais e pelas correntes de WhatsApp. Um dessas histórias é a da sopa de morcego, inventada por tabloides sensacionalistas britânicos de que o vírus teria surgido em morcegos da região de Wuhan e sido passado para os seres humanos por conta de uma sopa regional que onde morcegos inteiros são cozidos.

Apesar de o próprio jornal que inventou essa história ter se baseado apenas em postagens do Instagram e não ter consultado nenhum cientista, essa versão foi tomada como verdadeira por muita gente porque possui todos os ingredientes de sucesso de uma fake news: é uma história interessante, fácil de ser explicada e que usa um elemento “exótico” para o cidadão médio ocidental, o que faz com que pareça “lógico” o motivo da doença ter surgido na China e não na Europa ou nos Estados Unidos (afinal, nós no ocidente somos “civilizados” e não fazemos essas coisas de “bárbaros”, como comer morcegos) enquanto ignora (ou escolhe ignorar) completamente o fato de que essa sopa é um prato típico da região há séculos — e não algo que começou a ser servido na semana passada para ser o motivo do surgimento do vírus.

Isso, claro, quando não falamos do tipo de teoria de conspiração tão absurda que é difícil compreender como alguém pode dar trela para elas. Um exemplo disto são as diversas teorias de que o SARS-CoV-2 seria uma espécie de controle populacional inventada por laboratórios chineses, enquanto outras versões da teoria afirmam que se trata de um vírus que é acionado no corpo das pessoas através de sinais 5G. E, apesar de absurdas, ambas conseguem encontrar um público que realmente acredita que sejam verdade.

Outro tipo de conteúdo que acaba surgindo neste período, principalmente no YouTube, são os charlatões, que aproveitam o interesse pelo assunto para publicar receitas de remédios que prometem “curar” ou “garantir a proteção” das pessoas contra o COVID-19. Essas receitas normalmente são chás ou coquetéis alcoólicos que não possuem nenhuma eficácia comprovada no combate a qualquer doença, ainda mais uma que era desconhecida até pouco tempo cujo vírus causador ainda está sendo estudado.

Esse tipo de conteúdo acaba atrapalhando os esforços de combate de várias maneiras: primeiro que, ao espalhar essas informações falsas, acaba-se também criando um certo sentimento de xenofobia, com as pessoas culpando pessoalmente os chineses pela doença, culpando toda uma nação e etnia pelo tipo de coisa que quase nunca é premeditado. E, assim como o medo e a tranquilidade em excesso podem atrapalhar a contenção da epidemia, a invenção de “curas milagrosas” também é bastante danosa neste sentido, pois traz a falsa sensação de proteção e faz as pessoas pararem de tomar precauções básicas, aumentando não só a chance de contrair o vírus, como também de espalhá-lo para um número maior de pessoas.

Imprensa tradicional

Neste cenário, a imprensa tradicional deveria fazer o seu papel de “fiel da balança”, apurando as informações para garantir que, como público, estamos recebendo apenas dados reais, e não sensacionalizando os fatos apenas para chamar a atenção. Mas, ao invés de ajudar a balancear as expectativas da população, parece que o esforço é em apagar fogo com gasolina.

Esses veículos, dos quais deveríamos esperar maior credibilidade, não só muitas vezes ajudam a compartilhar notícias falsas (como a história da sopa de morcego) como há em praticamente todos os locais uma tentativa de sensacionalizar a doença, não prezando pelo equilíbrio do tom das informações, mas sim incitando um medo exagerado na população.

Uma forma propagar este medo reside na própria escolha da forma como as informações são passadas: a todo momento nos é lembrada a quantidade de pessoas que foram mortas pela doença, que ela chegou a um novo país, que já matou mais pessoas do que outras epidemias do passado. Mas parece haver um esforço em esconder o fato de que mais de 80% dos infectados desenvolvem apenas uma versão leve da doença, que se comporta como uma gripe comum e em questão de dias a pessoa se cura sem a necessidade de medicamentos especiais (tomando apenas remédios para controle da febre e da dor no corpo, como em qualquer gripe).

A sensacionalização de qualquer assunto é compreensível no atual momento do jornalismo; afinal, muitos veículos ainda não conseguiram se adequar totalmente à internet, um espaço onde o público quer, ao mesmo tempo, o maior número possível de informações de alta qualidade, mas também que essas informações sejam disponibilizadas de graça. Como o principal método de sustento de qualquer site jornalístico é a veiculação de anúncios — e, quanto mais acessos a página tem, mais vezes um anúncio é visto e, em consequência, maior o retorno financeiro para o site — fazer manchetes exageradas que compilam os internautas a clicarem no link (ou, no caso de jornais televisivos ou no rádio, não trocar de canal) é quase uma questão de sobrevivência, pois é necessário garantir uma certa verba publicitária todos os meses para que o veículo continue a operar.

Mas, ao mesmo tempo, esse tom exagerado que usamos para falar de qualquer assunto pode ser um problema quando estamos falando de uma epidemia — principalmente de uma que chegou ao nosso país e, ao que tudo indica, não será erradicada tão rápido. Isso porque este exagero gera dois sentimentos bem distintos: ou o público “compra” essas informações como são passadas e começa a acreditar que a COVID-19 é uma doença apocalíptica que irá matar todas as pessoas infectadas, ou ele passa a não confiar em nada do que a mídia tradicional fala, dando valor apenas às correntes de WhatsApp (e que em boa parte das vezes são muito mais exageradas e falsas do que qualquer notícia veiculada pela mídia tradicional). Ambos esses sentimentos acabam atrapalhando em muito o combate à epidemia, pois pode levar a exageros que em nada ajudam no combate à doença.

Uma prova disso é o próprio modo como o vírus chegou ao Brasil: enquanto todos estavam preocupados apenas com chineses e pessoas que visitavam a China, foi um homem vindo da Lombárdia, na Itália, que trouxe o vírus para o Brasil, passando pela alfândega sem qualquer interrogatório — mesmo que desde antes do carnaval a OMS já apontava a Itália como um dos principais focos do SARS-CoV-2 fora da China. O segundo caso confirmado neste fim de semana também teve um background parecido, com o paciente também tendo voltado de uma viagem à Itália.

E agora?

Infelizmente, é difícil enxergar uma solução de curto prazo para o problema — pelo menos não a tempo de acertamos o tom da cobertura durante a atual epidemia. O modo como a COVID-19 está sendo coberta — com uma enorme gama de exageros e viralização de teorias falsas sobre a doença — é mais uma prova de que ter o acesso instantâneo a uma enorme quantidade de informações nem sempre é algo positivo, e se não soubermos usar essas ferramentas, as informações corretas sobre o assunto podem ser soterradas por um caminhão de dados falsos, exagerados e/ou preconceituosos.

Para a COVID-19, esta é basicamente uma batalha perdida, e talvez já seja tarde demais para tentar trazer a opinião pública para o discurso equilibrado que um assunto desses necessita. O que resta é torcer para que este tipo de cobertura não se torne a regra para qualquer outra nova epidemia que possa surgir, ou então teremos tempos ainda mais difíceis pela frente.

  • Este é um artigo de opinião e pode não refletir a ideologia do Canaltech

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