OPINIÃO | Coronavírus não é o maior inimigo da humanidade em 2020

Por Rafael Rodrigues da Silva | 30 de Janeiro de 2020 às 18h41
Reuters

Nas últimas semanas, o assunto mais comentado no mundo todo é o caso do coronavírus, uma nova doença que surgiu na China e que vem causando medo no mundo todo, já que existem casos confirmados de que ela já se espalhou para outros países. Mas, como em praticamente qualquer assunto de interesse público, nós vemos diversos casos de pessoas se aproveitando de uma crise mundial para enganar a população — como, por exemplo, o aumento de campanhas de e-mail idealizadas por cibercriminosos que se aproveitam do interesse das pessoas por informações da doença para espalhar vírus e malwares nos computadores.

Mas esse é o tipo de reação negativa já esperada; afinal, hackers são notórios por utilizar esses eventos de interesse geral para espalhar os temidos vírus e malwares. No entanto, existem alguns comportamentos online que não condizem com a gravidade do assunto — e um deles é algo que parte justamente da imprensa.

Esse comportamento em específico é uma aparente preocupação maior com o dinheiro do que com as pessoas. Depois que o coronavírus teve o status de epidemia confirmado na China e o governo passou a colocar cidades inteiras em quarentena numa tentativa de evitar que a doença se espalhe ainda mais, parece que parte da imprensa, durante as reuniões de pauta, pensou: “Oh, não! O que vai acontecer com a venda de iPhones da Apple?!” e resolveu colocar em pauta o quanto essa doença poderia afetar o rendimento de empresas que têm a China como um de seus principais mercados (e, desta crítica, não excluo nem mesmo o Canaltech, já que nós também publicamos matérias do tipo).

Ainda que a preocupação com o aspecto financeiro do mercado seja importante, em momentos como o do surto de Coronavírus, ela só é legítima se você é: 1) o dono ou um dos altos executivos da empresa afetada; e 2) um acionista majoritário que possui um grande investimento em jogo. Mesmo nesses casos, ainda é um tanto insensível colocar as preocupações com dinheiro na frente da preocupação com as pessoas — mas se é o seu dinheiro na reta, ao menos é justificável. Fora isso, é quase inumano em momentos como esse, quando dezenas de pessoas estão morrendo vítimas de um vírus sem cura, ficar se preocupando com o quanto isso vai se traduzir na venda de iPhones. Inumano ou, talvez, até humano demais, já que o egoísmo e a ganância exacerbadas têm sido características marcantes de uma esmagadora parte das interações humanas deste século, em que as pessoas com qualquer status de poder hierárquico parecem cada vez mais confundir “lealdade” com a aceitação em ser explorado.

Outra faceta que o surto desta nova doença está ajudando a destacar é a crescente xenofobia mundial, em que as pessoas parecem sentir prazer em jogar toda a culpa de algo sobre “o outro”, “o forasteiro”, “o estrangeiro”, enquanto se recusam a olhar para os problemas que causaram em seu próprio quintal. O caso dos Estados Unidos é um bom exemplo: desde que foi revelado que o Coronavírus se originou na China, esse fato foi visto como uma espécie de “licença para o preconceito”, e tanto na internet quanto nas ruas as pessoas começaram a apontar como os chineses são "bárbaros sem higiene", chegando até mesmo a apontar culpados sem qualquer critério científico (como a história da sopa de morcego ter sido de onde o vírus surgiu, por exemplo).

Mas, ao mesmo tempo que boa parte da população da terra do Tio Sam está prontinha para culpar os chineses — e somente eles — pela doença, subindo em seus pedestais de perfeição enquanto olham para os “meros mortais” de nariz levantado, há também um enorme esforço dessa mesma população para deixar de lado o fato de que, em 2019, os Estado Unidos passou por um enorme surto sarampo, com mais de 1200 casos registrados ao longo do ano. Claro, esse número é bem baixo perto do coronavírus que tem essa mesma estimativa de infectados em cerca de um mês, mas não podemos esquecer que há um enorme agravante nesta situação: enquanto ninguém sabe de onde surgiu a doença chinesa que ainda não tem cura, o sarampo é uma doença conhecida há décadas, que já possui vacina e, durante muitos anos, foi até mesmo considerada extinta no país.

E o que mudou? O que mudou é que de repente essas pessoas, que são tão higiênicas e civilizadas, começaram a duvidar de médicos e cientistas e aceitar o conselho de YouTubers e blogueiros de teoria da conspiração que, apesar de não terem nenhum diploma em áreas médicas e não fornecerem nenhum argumento científico, têm a certeza de que vacinas causam autismo e que as pessoas não deveriam vacinar a si mesmas e nem seus filhos. E esse foi o resultado: uma doença considerada extinta acabou retornando com a maior quantidade de casos já registrados nas últimas três décadas. Mas, claro, são os chineses que não sabem cuidar da saúde.

Outro movimento bem recente — e bem insensível — é o uso da hashtag #coronavirus por influenciadores do Instagram, que transformaram algo que deveria ser usado para espalhar novidades reais sobre a doença em uma oportunidade de tirar fotos com máscara na cara, tornando uma hashtag de interesse público em apenas mais uma desculpa online para satisfazer o próprio ego.

Todos esses casos mostram que nem mesmo a capacidade de se acessar uma enorme quantidade de informações em tempo real sobre qualquer assunto está ajudando a tornar nossa sociedade um lugar melhor para todos. Pelo contrário: parece que, principalmente neste século mais recente, a enorme quantidade de informações, 24h por dia, tem servido para nos deixar mais gananciosos, mais intolerantes, mais vaidosos e menos empáticos para com as necessidades de outras pessoas.

O caso do coronavírus é apenas algo que está ajudando a destacar esses comportamentos que há tempos já existem e que seguem sendo cultivados na sociedade. Por isso, ainda que o coronavírus seja uma ameaça que merece atenção, não é a doença que veio da China a grande inimiga da humanidade, mas apenas o “assunto novo” usado para desviar a atenção. No fim, o maior inimigo do homem continua sendo o mesmo de sempre: a total incapacidade de compreender qualquer coisa além de seu próprio umbigo. E, infelizmente, por mais que a tecnologia esteja muito avançada, esse é um problema que não conseguiremos resolver com o uso de IAs para a criação de vacinas.

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