Onde as farmacêuticas e universidades estão na corrida contra a COVID-19?

Por Fidel Forato | 24 de Julho de 2020 às 18h40
Reprodução: Pixabay

O evento organizado pelo Hospital Israelita Albert Einstein chamado Inovação no enfrentamento da COVID convidou especialistas da área de saúde e tecnologia para discutirem projetos no enfrentamento do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Nesta sexta-feira (24), o debate girou em torno da corrida pelas vacinas que, talvez, seja a principal saída contra a pandemia.

Entre as vacinas da COVID-19 em fase de testes com humanos, que se destacam no mundo, estão as seguintes pesquisas: da Universidade de Oxford, no Reino Unido, com participação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo); da farmacêutica norte-americana Pfizer com a empresa de biotecnologia alemã BioNTech; da farmacêutica da Johnson & Johnson, a Janssen; e da empresa chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan. No entanto, a última não contou com representantes no encontro.

Na pandemia da COVID-19, as vacinas deverão ser uma grande aliada para o efetivo controle do coronavírus (Foto: Willfried Wende/Pixabay ) 

Panorama histórico

Embora a comunidade científica (e, de forma bastante generalizada, toda a sociedade) espere por uma vacina eficaz contra o coronavírus, é importante lembrar o quão novas são as técnicas de imunização através de uma vacina. Isso porque a primeira, segundo os registros, foi desenvolvida no final do século XVIII, já quase nos anos 1800, pelo britânico Edward Jenner que buscava uma resposta eficaz contra a varíola.

De lá para cá, em pouco mais de 220 anos, médicos e cientistas aperfeiçoaram seus métodos, principalmente de pesquisa. Nesse sentido, ainda era consenso que vacinas levam, em média, cinco anos para serem desenvolvidas. Nesse intervalo, são investigadas fórmulas potencialmente eficazes in vitro, depois testes são feitos em animais e, por fim, as novas vacinas experimentadas em grandes grupos de humanos. Comprovando a eficácia de todas essas etapas, ela é finalmente liberada.

Diante da emergência da COVID-19, esse tempo deve se reduzir para um ou, no máximo, um ano e meio. "Várias companhias farmacêuticas, como a Janssen, começaram uma pesquisa muito acelerada, muito mais acelerado do que o normal, com investimentos muito altos, para assegurar que os estudos e o desenvolvimento estivessem indo na velocidade do tamanho do problema, do tamanho de uma pandemia mundial", explica Roy Benchimol, Managing Director da Janssen Brasil.

Para aumentar o desafio, os coronavírus são uma família de vírus recentemente descobertos pela humanidade. A vantagem nessa corrida é que a velocidade com que os testes de vacinas para a COVID-19 só são, em parte, possíveis a partir dos avanços descobertos durante a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), em 2003, e da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), em 2012. Ambos casos se tratavam de outros coronavírus.

Como fazer uma vacina?

“O alvo principal da fabricação das vacinas [para a COVID-19] são as proteínas spikes [encontradas na membrana do novo coronavírus] que é por onde o vírus faz aderência e entra na célula. Então, quase todas as plataformas de vacinas são voltadas para fazer anticorpos contra as proteínas spikes”, explica Lily Weckx, professora de infectologia da Unifesp e coordenadora dos testes da vacina da Universidade de Oxford no Brasil.

Diferentes frentes de pesquisa são testas na busca por uma vacina contra a COVID-19 (Captura de tela: Reprodução/ Hospital Albert Einstein)

Mesmo que a maioria das fórmulas foque em um elemento estrutural do coronavírus, diferentes estratégias estão sendo desenvolvidas para se alcançar um imunizante eficaz. "Entre os métodos, há o mais tradicional que é de atenuação, que para o coronavírus é uma situação mais difícil, porque você está atenuando um vírus, ainda não totalmente conhecido", cita Weckx.

Além disso, "nós temos mais vacinas com o vírus inativado, por exemplo, a do Instituto Butantan. Nós temos as plataformas com DNA e RNA mensageiro, como é a da Pfizer. Existem as vacinas subunitárias que, geralmente, precisam do uso de algum ativante. E, agora, as vacinas com vetor, como é o caso da fórmula da Janssen e da vacina de Oxford, que utilizam vetores virais", aponta a professora da Unifesp sobre o atual cenário das pesquisas.

"Espero que várias vacinas deem certo para o final do ano e o começo do ano que vem, porque se você puder contar com várias vacinas que têm diferentes estratégias, se consegue olhar qual população tem maior benefício de cada uma das estratégias [já que as populações diferentes podem reagir de formas variadas] e, ao mesmo tempo, se tem um grande volume de vacinas sendo produzidas", complementa Benchimol sobre a importância das iniciativas e que, hoje, estão estimas em 170 pesquisas.

Case Oxford      

Produzida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca, a vacina a ChAdOx1 nCoV-19 utiliza um adenovírus encontrado em chipanzés. Quanto à escolha do vírus base, a pesquisadora Weckx esclare: "O adenovírus símio [encontrado em chipanzés] não causa doenças no homem e poucas pessoas têm anticorpos contra o adenovírus símio, menos de 5% apresentam anticorpos. Por isso, o adenovírus símio foi pensado como um vetor para a vacina".

Em laboratório, esse vírus é modificado e se torna um adenovírus não replicante (que não consegue se reproduzir). Na sequência, esse vírus é editado e tem incluído em seu material genético a proteína Spike do novo coronavírus. Em outras palavras, o vírus modificado carrega um identificador da COVID-19 e, assim, espera-se que as pessoas que receberam a vacina desenvolvam anticorpos contra a doença.

No Brasil, os testes dessa vacina contra o novo coronavírus já começaram e são liderados Unifesp. Conforme foram anunciados, cinco mil voluntários participarão da testagem, divididos entre os estados de São Paulo, do Rio de Janeiro e da Bahia.

Case Pfizer

Desenvolvidas pela empresa biotecnologia alemã BioNTech e pela farmacêutica norte-americana Pfizer, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo ensaio clínico para investigar duas potenciais vacinas, a BNT162b1 e a BNT162b2 das companhias nessa semana. Serão cerca de 29 mil voluntários no mundo para se avaliar tanto dados de qualidade e eficácia quanto da possível dosagem.

"Esta vacina funciona com a introdução no corpo de uma sequência do RNA mensageiro que diz as células de nosso corpo para construir uma proteína específica do vírus. Uma vez produzida dentro do corpo, o sistema imunológico pode reconhecer ela como um antígeno e criar imunidade contra ela. Ela utiliza o maquinário de nosso corpo para ser capaz de produzir essa proteína, similar do vírus, e estar preparada caso o corpo esteja enfrentando o vírus", detalha Carlos Murilo, Country Manager da Pfizer Brasil.

No país, se espera testar mil participantes com as vacinas que estão em desenvolvimento, entre os estados de SP e BA. Esses estudos locais serão conduzidos pelo CEPIC (Centro Paulista de Investigação Clínica), em São Paulo, e pela Instituição Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador.

Case Janssen

A partir de análises do coronavírus, a potencial vacina da Janssen também trabalha com foco nos spikes desse agente infeccioso. "A vacina usa um adenovírus não replicante, que não consegue desencadear uma doença, e coloca uma porção de material genético dos spikes dentro do adenovírus. Elas são chamadas de vacinas vetorizadas, porque o adenovírus é aquele que leva as informações genéticas para o interior do corpo", comenta Roy Benchimol, Managing Director da Janssen Brasil. Quanto a etapa de testes, dia 22 de julho, nesta semana, foi anunciada a primeira testagem em humanos, na fase 2.

Usando essa mesma plataforma que já demostrou eficácia para outras vacinas, a Janssen trabalha, em paralelo, no desenvolvimento da potencial vacina da COVID-19. A partir desse método, foi possível concluir uma vacina, aprovada na Europa, para Ebola e, por exemplo, estão em desenvolvimento ainda uma vacina contra o HIV e outra para o Zika.

O que esperar?

Mesmo que algumas vacinas tenham demonstrado eficácia em laboratório e outras já sejam testadas em pessoas, ainda há um desafio para as fórmulas, mesmo as que estejam na última etapa de teste clínico. "Falta ainda ver se esses anticorpos eles são, realmente, protetores. Precisamos continuar no estudo de fase 3 e, agora, entender se a vacina vai proteger e vai reduzir a ocorrência de casos da COVID-19. Essa é a nossa grande esperança", explica a pesquisadora Weckx sobre a vacina de Oxford.

No entanto, esse cenário é o mesmo para as outras potenciais vacinas que precisam colocar a prova suas fórmulas e verificar, em grandes grupos de pessoas, a real eficácia da vacina para imunizar contra o coronavírus. Nesse cenário, além de outros países, o Brasil tem sido requisitado e conta com quatro estudos clínicos em andamento, até agora. Sobre isso, Weckx completa: "justamente nos países onde está ocorrendo a intensa circulação do vírus, porque, para estudos de eficácia, você precisa estudar a vacina em um local onde haja a circulação do vírus e, infelizmente, no caso, o Brasil se tornou um local propício".

Fonte: Com informações de Fiocruz  

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