A evolução das redes sociais e seu impacto na sociedade – Parte 2

Por Patrícia Gnipper | 13 de Fevereiro de 2018 às 14h54
Depositphotos

Na primeira parte deste especial, abordamos o histórico das redes sociais rudimentares. Agora, vamos explorar o surgimento das primeiras redes sociais propriamente ditas e a rápida transformação da internet depois do surgimento delas.

1997: o ano em que as redes sociais nasceram

Na gringa, a primeira rede social propriamente dita se chamava SixDegrees, durando de 1997 a 2001. Ali, os usuários podiam criar uma página de perfil e adicionar amigos. Durante os anos em que o SixDegrees se manteve ativo, foram registrados 3,5 milhões de usuários em seu auge.

Página de login do SixDregrees e seus ares noventistas (Imagem: Reprodução)

Ainda que essa plataforma não tenha marcado presença aqui no Brasil, ela ficou registrada na história como a primeira rede social de verdade, e seu sucesso lá fora abriu as portas para o surgimento do Friendster em 2002, que, de certa forma, pavimentou a estrada para o nascimento do Facebook (história que vamos abordar na terceira parte deste especial). Depois, começaram a surgir as redes sociais temáticas e, em 2004, nasceu o aclamado Orkut, que foi a primeira rede social a explodir de verdade no Brasil.

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Friendster, um misto de Facebook com Twitter before it was cool (Imagem: Reprodução)

Mas os mensageiros ainda dominavam a internet

Mas, naquela época, os blogs e mensageiros ainda dominavam o universo da internet. No ano do surgimento do SixDegrees, houve o sucesso estrondoso do AIM (AOL Instant Messenger), lançado em outubro de 1997. O mensageiro mais popular nos Estados Unidos durou até dezembro de 2017, sobrevivendo à era das redes sociais, ainda que sua popularidade tenha caído muitos anos antes de seu encerramento.

Um ano antes, o ICQ foi criado, atingindo o primeiro milhão de usuários em 1997 e sendo o principal rival do AIM. Naquele ano, foram registrados picos de mais de 200 mil usuários conectados simultaneamente em seus servidores, encerrando o1997 com 4 milhões de usuários globais. Em 2001, o serviço já acumulava 100 milhões de usuários, e, em 2003, o ICQ se tornava uma das empresas mais bem-sucedidas da internet.

À esquerda, a janela do ICQ com seus contatos online e offline, além das opções de status. Ao lado, a janelinha para criar uma nova mensagem (Imagem: Reprodução)

Na onda dos mensageiros se tornando indispensáveis para a comunicação entre as pessoas de todo o mundo, surgiu o MSN Messenger em 1999. No Brasil, esse mensageiro se tornou o líder do segmento, superando o ICQ graças à popularidade do Hotmail, além de ser um programa nativo do Windows XP, lançado em 2001.

Além disso, o MSN Messenger atraiu muito o público mais jovem graças a recursos engraçadinhos como a possibilidade de exibir ao lado do username qual música estava tocando naquele momento (o que se tornou um palco para indiretas de todos os tipos). O serviço foi incorporado à Microsoft, se tornando Windows Live Messenger nos anos seguintes, até que foi substituído pelo Skype em 2013.

Sua lista de contatos no MSN/Windows Live Messenger devia ser mais ou menos como essa (Imagem: Reprodução)

Blogs sociais

Na transição entre os anos 1990 e 2000, os blogs pessoais explodiram na internet, fazendo as vezes de redes sociais, ainda que timidamente. É que muitas pessoas criavam layouts com menus laterais recomendando blogs de amigos ou blogs com conteúdos legais, no melhor estilo "testado e aprovado". E quando algum blogueiro indicava o seu nesta área, era de bom tom indicá-lo de volta (mais ou menos como o "follow back" dos dias de hoje).

Print de como meu blog era em 2002, com link para o LiveJournal e indicação de blogs de amigos no menu lateral

Esses blogs podiam ser hospedados em vários serviços diferentes, com o Blogger e Weblogger sendo os mais populares aqui no Brasil. Lá fora, o LiveJournal teve mais destaque, surgindo em 1999 e explodindo nos primeiros anos da primeira década do século XXI. Em 2003, o serviço já tinha 1 milhão de usuários, número que subiu para 2 milhões no ano seguinte, e para 5 milhões em 2005.

Além de postar adoidado em seus blogs pessoais, os usuários do LiveJournal também faziam parte de uma comunidade internacional, podendo entrar em journals coletivos, algo que podemos comparar aos grupos do Facebook nos dias de hoje. Ali, surgiram journals em grupo com as mais variadas temáticas, incluindo grupos de apoio a pessoas marginalizadas pela sociedade, como os LGBTs, por exemplo, que encontraram na internet um espaço para conhecer pessoas que passavam pelos mesmos perrengues que eles, servindo como uma rede de apoio global.

O início das redes sociais temáticas

Enxergando um novo filão, começaram a surgir as redes sociais temáticas para reunir pessoas com um interesse em comum. Em 1999, surgiu o Xanga, plataforma de blogging destinada a amantes da leitura e do cinema. Mais de 27 milhões de usuários estavam por ali em 2006, mas a plataforma sentiu o peso do sucesso do Facebook logo depois.

Ainda no ano do "bug do milênio", uma rede social diferentona apareceu na internet: o Second Life. O ambiente virtual tridimensional simulava aspectos da vida real das pessoas, servindo tanto como uma espécie de jogo quanto como rede social, além de permitir que os usuários ganhassem um dinheirinho se quisessem vender itens especialmente desenvolvidos para serem usados na plataforma.

O universo paralelo do Second Life. Cada bonequinho é o avatar de um usuário diferente, interagindo uns com os outros (Imagem: Reprodução)

E a "vida paralela" dos usuários foi ficando cada vez mais popular com o decorrer dos anos 2000, registrando 1 milhão de usuários em 2006. Ali, seus personagens criados com inspiração em suas personas verdadeiras podiam interagir à vontade, mas a brincadeira acabou perdendo a graça com a chegada das grandes redes sociais, como Facebook e Twitter, com um grande número de usuários deixando o Second Life às moscas.

No ano 2000, cerca de 100 milhões de pessoas já acessavam a internet diariamente, e, além de fazer pesquisas e baixar músicas, a atividade preferida de muita gente era justamente as plataformas sociais. E foi exatamente nessa época que surgiu outra rede temática que bombou internacionalmente: o MySpace.

Exemplo de perfil no antigo MySpace (Imagem: Reprodução)

Na verdade, o MySpace surgiu como uma rede social genérica, mas a possibilidade de se publicar músicas nos perfis dos usuários acabou transformando a plataforma em uma rede social musical, onde artistas tanto desconhecidos como famosos podiam divulgar prévias de seus lançamentos, além de faixas exclusivas para a web e, até mesmo, álbuns completos. E os usuários não-artistas abraçaram o MySpace em todo o mundo, graças também à possibilidade de entrar em contato direto com seus ídolos (algo que foi forte especialmente em cenas underground).

E foi enxergando a segmentação como uma grande oportunidade que o LinkedIn surgiu em 2003, sendo esta uma rede social voltada para contatos profissionais até os dias de hoje. Ali, os contatos são firmados com interesses relacionados ao mercado de trabalho, e profissionais das mais diversas áreas usam o LinkedIn não somente como um currículo virtual, mas também como um meio de divulgar conteúdos de autoria própria para gerar credibilidade em sua área de atuação, além de manterem um network ativo, gerando oportunidades de trabalho.

Em 2007, a rede já tinha mais de 16 milhões de usuários, número que subiu para 238 milhões em 2013, crescendo para 500 milhões em 2017 — a evolução foi impulsionada especialmente após a aquisição da rede social pela Microsoft, em 2016. Na época, a gigante de Redmond pagou US$ 26,2 bilhões pelo negócio, que foi a maior aquisição já feita pela Microsoft até então.

Já no ano seguinte à criação do LinkedIn, surgiu o Flickr, plataforma para publicar fotos e vídeos e se conectar com outros autores visuais. Apesar de o Flickr não ser exatamente uma rede social, ele acabou fazendo parte desta definição por permitir que os usuários se sigam mutuamente, participem de grupos e troquem mensagens privadas. Em 2005, o Flickr foi comprado pelo Yahoo, sendo incorporado ao portal e sobrevivendo com sucesso até os dias atuais.

A primeira rede social que tentou embarcar oficialmente no Brasil

Poucas pessoas se lembram do Tantofaz.net, mas foi ela a primeira rede social propriamente dita que tentou embarcar oficialmente no Brasil. De origem norte-americana e operando também na Espanha, a plataforma voltada para o público jovem e "antenado" lançou sua versão em português no ano 2000, investindo pesado em publicidade para atrair a "moçada" com uma comunicação informal e divertida.

Os anúncios na televisão e também em revistas de moda e música deram certo. O Tantofaz.net despertou o interesse do público brasileiro, que ainda não estava familiarizado com o conceito de rede social, mas que saiu correndo para o site para criar seus perfis com uma autodescrição e selfies e adicionar pessoas à sua rede, fazer novas amizades, nutrir novos crushes e se inspirar no estilo "modernoso" da galera.

Contudo, em agosto daquele mesmo ano, a companhia por trás da plataforma decidiu encerrar as atividades da rede social no Brasil. O motivo foram as tentativas malsucedidas de reduzir seus gastos por aqui, já que o site não exibia publicidade para obter receita. A empresa demitiu 21 de seus 25 funcionários brazucas, mantendo o portal no ar por algum tempo depois disso, mas morrendo definitivamente ao final de 2000.

O Tantofaz.net tinha 370 mil usuários e 18 milhões de pageviews por mês quando decidiu desistir do Brasil, que acabou abraçando o Fotolog como sua rede social do coração logo em seguida, em um caminho sem volta para que as redes sociais impactassem profundamente nas nossas relações interpessoais.

Fotolog e as primeiras web celebridades brasileiras

Apesar de o Tantofaz.net ter sido a primeira rede social a "pegar" no Brasil, foi o Fotolog que conquistou o amor da grande massa de jovens internautas brasileiros. A plataforma foi lançada em 2002 nos Estados Unidos, explodindo em nosso país no ano seguinte.

Quem estava lá desde o início deve se lembrar que, na época de seu surgimento, era possível publicar diversas fotos por dia e receber comentários ilimitados. Porém, seus criadores não imaginavam que o Fotolog explodiria tão rapidamente não somente em número de usuários como também na quantidade de conteúdos publicados, e o site passou por muitos problemas técnicos em seus primeiros anos.

Isso fez com que fosse necessário restringir a quantidade de novos membros diariamente, que, então, só poderiam postar 1 foto por dia, com limite de 20 comentários por publicação. Para quem ansiava por mais, o serviço lançou a "Gold Camera", assinatura paga que permitia publicar até 6 fotos ao dia e receber uma maior quantidade de comentários (200). Com isso, estava lançada a cultura da web celebridade, com muitos fotologgers "famosinhos" até mesmo ganhando assinaturas pagas por fãs, que simplesmente não se conformavam quando queriam comentar em uma foto e encontravam o guestbook lotado em menos de 1 minuto após a postagem. Sabe o "first" que muita gente comenta em vídeos do YouTube, celebrando que o seu foi o primeiro comentário da publicação? Isso era moda já no Fotolog!

No lugar de um printscreen, eu gostava de pegar minha Cyber Shot e tirar uma foto de meu Fotolog (e depois postar a foto da foto)

Em 2005, o Fotolog conseguia aceitar somente mil novos membros por dia em cada país onde atuava, e então os usuários do Fotolog acabaram fazendo parte de uma "elite" da internet. Para burlar essa limitação, muita gente fazia truques para alterar seus endereços de IP, como se fossem de países onde o serviço não era popular, conseguindo, portanto, criar seu cadastro. Mas quem não conseguia essa proeza rebolando com o "jeitinho brasileiro" acabava criando fotologs alternativos como o Flogão, que abrigava todo o restante das pessoas que não queriam estar de fora da tendência, mas não faziam parte da comunidade do Fotolog original.

Então, em 2006, a limitação de novos usuários diários foi, enfim, removida, abrindo as portas para os "renegados" do Flogão fazerem parte do universo do Fotolog, que viu nascer as primeiras web celebridades brasileiras como Mari Moon, por exemplo. A fotologger e blogueira foi uma das usuárias mais famosas no Brasil e se deu bem neste universo, usando sua notoriedade para se tornar apresentadora da MTV e atuando como influenciadora digital até os dias de hoje. Outro fotologger famoso foi Sérgio Franceschini, mais conhecido como "Sr. Orgastic", que, anos depois, acabou participando de um Big Brother Brasil.

Fotolog da Mari Moon (Imagem: Reprodução)

Em 2007, o Fotolog tinha um valor de mercado de US$ 90 milhões, mas acabou sentindo o impacto da popularização do Orkut em nosso país, caindo gradativamente depois de seu lançamento, em 2004. Ainda que uma parcela de usuários seguisse utilizando a plataforma na segunda metade dos anos 2000, o Fotolog acabou sendo abandonado pelos desenvolvedores, sem lançar atualizações de recursos e design, ficando estacionado no tempo.

Em 2016, o Fotolog saiu do ar repentinamente, deixando muita gente desesperada porque não tinha feito backup de suas postagens para guardar em alguma espécie de álbum de recordações virtual. Mas, pouco tempo depois, os servidores do site foram religados, mantendo a plataforma no ar e permitindo novos cadastros além dos mais de 32 milhões de usuários ainda registrados (contudo, é seguro dizer que a maioria deles não acessa mais o Fotolog há muito tempo).

E você acha que a cultura dos grupos em redes sociais surgiu com as comunidades do Orkut? Pois o Fotolog já oferecia grupos temáticos administrados por usuários, permitindo que seus membros publicassem até 50 fotos por dia. Ali, existiam fãs-clubes de artistas, com os fãs alimentando os seguidores do grupo com informações a todo instante.

Mas o Orkut chegou e definiu o que era uma rede social de verdade

Criado por Orkut Büyükkökten em janeiro de 2004, o Orkut foi a primeira grande rede social a fazer um sucesso estrondoso no Brasil. Por aqui, a rede social chegou a ter mais de 80 milhões de usuários, perdendo terreno para o Facebook quando a rede de Mark Zuckerberg começou a dominar o nosso país alguns anos depois.

Para se ter uma ideia da importância dos brasileiros para o Orkut, em 2008 a empresa anunciou que a rede social deixaria de ser operada da Califórnia, fixando-se em território brasileiro, onde foi operada pela Google Brasil. Estima-se que os brasileiros trocaram mais de 1 bilhão de mensagens por lá, em 120 milhões de tópicos de discussão que fizeram parte de pelo menos 51 milhões de comunidades.

Uma das comunidades mais populares do Orkut era essa, para quem odiava acordar cedo (Imagem: Reprodução)

Além do perfil de usuário, que permitia publicar álbuns de fotos e informações pessoais, era possível fazer parte das comunidades temáticas e adicionar amigos. Eram tantos pedidos de amizade que chegavam para o pessoal mais popular que ali nasceu a cultura do "só add com scrap", que, traduzindo para quem não viveu as redes sociais nos anos 2000, significava: deixe um recado para eu saber quem é você e o que você quer comigo, e só depois disso eu decido se aceito seu pedido de amizade. Mas isso não necessariamente era originado por antipatia ou egos inflados, sendo necessário selecionar quem você aceitava como amigo, já que o serviço impunha um limite de mil contatos por perfil.

Entre os motivos pelos quais os internautas colocaram o Orkut no lado esquerdo do peito estavam recursos inéditos e engraçadinhos, como informações secundárias que ficavam expostas em seus perfis, incluindo orientação sexual, músicas e filmes preferidos, e a possibilidade de seus amigos votarem em você para definir o quão sexy, legal ou confiável você era. Também era possível definir cada um de seus contatos como conhecido, desconhecido, amigo, bom amigo e melhor amigo. Tudo isso deu ao Orkut ares de uma comunidade de verdade, e não somente um serviço onde postar coisas na internet e conversar com pessoas de vez em quando.

Este usuário do Orkut era mais ou menos legal e confiável, mas muito sexy segundo seus 15 fãs e 51 amigos (Imagem: Reprodução)

E o que falar do recurso "dedo-duro" que informava quem visualizou o seu perfil, deixando os stalkers desesperados? Essa foi somente uma das muitas novidades que surgiam no Orkut a todo momento, como incluir vídeos do YouTube em seu perfil, enviar recados por SMS, criar enquetes, e mais.

Impactada pelo Facebook, em 2009 a rede social teve seu layout totalmente remodelado, incluindo um feed de publicações (nos moldes do "Feice"). Dois anos depois, surgiram os primeiros aplicativos para Android e iOS, porém, naquela época, a rede social já estava descendo a ladeira montada em uma bike sem freios.

Em 2012, o site ainda tinha 34,3 milhões de usuários, mas, no mesmo ano, o Facebook ultrapassou o Orkut, com 36,1 milhões de membros. Um ano depois, a rede social perdeu mais de 95% dos acessos brasileiros, até que, no final de 2014, o Orkut foi definitivamente descontinuado.

Na década de 2000 e nos primeiros anos da década de 2010, esse turbilhão de redes sociais transformou a internet, revolucionando de vez a maneira com que a gente usa a rede mundial de computadores. Hoje em dia, sites de notícias e produtores de conteúdo dificilmente sobrevivem sem estarem presentes ativamente em alguma rede social popular, que servem não apenas para conectar pessoas (o que era seu propósito inicial), mas também divulgar conteúdo (ainda que muitos deles sejam fake news).

Na terceira e última parte deste especial vamos falar das redes sociais do momento, abordando como essas plataformas estão impactando a nossa sociedade, marcando uma nova era cultural e socialmente falando. Sabe esse hábito recente de muita gente que pergunta na rede social "como cozinhar feijão?" em vez de recorrer ao Google? Então!

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