Como o Covid-19 está impactando a indústria de tecnologia

Por Rafael Rodrigues da Silva | 18 de Fevereiro de 2020 às 18h00
BBC News

A epidemia do Covid-19 (também conhecido por aqui como novo coronavírus) é algo que não está preocupando apenas as autoridades de saúde no mundo todo, mas também economistas e acionistas das grandes empresas de tecnologia ao redor do globo.

Isto acontece porque justamente a China — país onde estão concentrados 99% dos casos confirmados de infecção pelo vírus — é uma peça chave para a economia global não apenas pelo seu enorme potencial consumidor, mas também por ser um dos maiores produtores de bens de consumo do mundo, principalmente quando falamos do mercado tech. É no país que estão as maiores empresas montadoras do mundo, como a Foxconn e a Pegatron, onde são produzidos praticamente todos os componentes usados em equipamentos eletrônicos das principais marcas. E, como essas empresas estão situadas justamente na região com o maior número de casos do vírus confirmados, a doença tem afetado diretamente as linhas de produção, pois muitos trabalhadores se encontram de licença por terem contraído o coronavírus. E não há força de trabalho suficiente para manter essas linhas funcionando a pleno vapor.

Em um relatório divulgado pela agência de análise de mercado TrendForce nesta terça-feira (18), é possível ver que a doença já causa um impacto significativo em praticamente todo o setor de tecnologia mundial, com uma queda entre 5% e 16% no faturamento esperado para este primeiro trimestre de 2020 — e isso porque este é um período que, historicamente, já mostra uma discreta queda no consumo de produtos de tecnologia, e por isso, a redução nas linhas produção não deveria ser assim tão problemática.

Na coluna da esquerda, a previsão para o período antes da epidemia do Covid-19; no centro, a previsão revisada; e, à direita, a porcentagem referente a essa mudança. Os números para o setor de smartphones se referem ao número total de unidades produzidas, os de automóveis se referem ao número total de unidades vendidas para o consumidor, e todos os outros números se referem ao total de unidades enviadas pelas fábricas para as lojas (Imagem: TrendForce)

De celulares a videogames: a indústria pede vacina

Os setores que estão sendo mais afetados pela doença são os de smartphones, smartwatches, notebooks e alto-falantes inteligentes, que são os produtos que contam com a menor porcentagem de automação nas linhas de produção, sendo assim diretamente impactados pela baixa no número de trabalhadores nas fábricas.

Apesar de esses setores estarem com a produção limitada — o que irá diminuir a quantidade de produtos enviados para as lojas de todo o mundo —, o fato da doença ter se alastrado apenas no mês de janeiro serviu para “proteger” as compras de fim de ano, e essa queda na produção acontece justamente no período de baixa procura por esses equipamentos. É no segundo trimestre do ano que começam a ser lançadas as novas versões e o mercado volta a aquecer. Então, ainda que a epidemia tenha criado problemas reais para a indústria, o mercado só será afetado de verdade caso os médicos e cientistas não consigam contê-la rapidamente e ela se alastre na mesma velocidade até a metade do ano.

O mesmo caso acontece com a indústria de videogames: as linhas de produção de consoles estão praticamente paradas, mas isso não está causando grandes problemas para as fabricantes em si, já que a procura por consoles Xbox One e PlayStation 4 diminuiu bastante por causa da espera da nova geração de consoles que chegará no final do ano. Mas, se a proliferação da doença não for contida logo, tanto o PlayStation 5 quanto o Xbox One Series X podem sofrer com a falta de estoque nas lojas durante o lançamento, já que as linhas de produção de videogames não são automatizadas e necessitam da presença massiva de milhares de trabalhadores para funcionar.

Outro setor que está sendo bastante afetado pela epidemia do Covid-19 é o de telefonia 5G, pois as maiores fabricantes chinesas dos cabos de fibra óptica e componentes usados na infraestrutura dessas redes ficam justamente em Wuhan, a cidade na qual a doença surgiu. Assim, os países e empresas de telefonia que haviam fechado com a infraestrutura fornecida por empresas chinesas (como a Huawei) poderão sofrer algum atraso na implantação dessas redes dentro do prazo definido. E isso pode ter impactos ainda mais significativos e que ainda não podem ser medidos, pois o fato de a doença ter surgido justamente na cidade onde estão as maiores fabricantes de equipamentos 5G pode funcionar como um motivo para a procura pelo 5G chinês diminuir um pouco mais. Como consequência, gigantes da indústria podem ser levadas a fechar seus contratos com um mais empresas de fora da China, como uma forma de evitar que a doença seja "importada" por equipamentos de telefonia chineses.

Já um setor que pouco tem sofrido com o coronavírus é o de fabricação de componentes eletrônicos (como processadores e placas de memória), pois esses processos já são altamente automatizados e as linhas de produção deles são operadas quase que totalmente por robôs, necessitando em praticamente nada da presença humana. Mas, assim como os outros setores, o de componentes pode também sofrer caso a epidemia se prolongue demais por conta dos estoques de PCB (as placas de circuito impresso). Atualmente, os armazéns dessas fábricas estão cheios, porque elas já haviam comprado uma grande quantidade de peças em janeiro para evitar atrasos na entrega por causa do feriado do Ano Novo Chinês.

Se a epidemia se prolongar muito, esses estoques serão de reposição muito difícil, pois essas placas não possuem uma licença especial do governo chinês para trafegar por áreas infectadas, e uma epidemia grave que dure mais alguns meses pode chegar ao ponto de a indústria de semicondutores ficar carente ou até mesmo sem matéria-prima para fabricar seus produtos.

Em resumo, o cenário hoje está ruim para a indústria tech de modo geral, mas nada que irá causar grandes estragos que não poderão ser revertidos ao longo do ano. Se a epidemia do covid-19 não for rapidamente contida e o vírus continuar a se espalhar na velocidade atual pelos próximos três ou quatro meses, aí sim poderemos ter um colapso em todo o mercado de tecnologia — algo do tipo que ainda não vimos ser provocado por nenhuma outra doença.

Fonte: TrendForce

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.