Internet amplia meios de manifestações

Por Colaborador externo | 31.10.2013 às 15:58

Por Anchises Moraes*

Nos últimos anos, a Internet tornou-se rapidamente a principal plataforma de protestos para a maioria da população em todo o mundo. Sites, comunicadores instantâneos, redes sociais e serviços de microblogging expandiram a nossa capacidade de interação e troca de informações no campo pessoal e de negócios, mas também aprendemos a utilizar estas mesmas tecnologias para manifestar e para compartilhar opiniões sociais, políticas e ideológicas.

A Internet é um grande palco de protestos. Diariamente, vemos mensagens com críticas políticas ou ideológicas, denúncias, além de pedidos de abaixo-assinado que são organizados online. O próprio governo americano, no site da Casa Branca (www.whitehouse.org) mantém uma página específica para permitir que cidadãos americanos criem petições direcionadas ao governo. No entanto, engana-se quem pensa que os protestos online estão desconectados do mundo real. Os protestos no mundo real acontecem em conjunto com o mundo virtual. Qualquer manifestação nas ruas é organizada, acompanhada e apoiada por milhares, ou milhões de pessoas, por meio da Internet.

O uso da Internet como meio de protesto é popular desde o final de 2010, quando o grupo Anonymous ganhou grande destaque na imprensa mundial após realizar ataques de negação de serviço (conhecidos como Distributed Deny of Service, ou DDoS) a grandes sites como Visa, Mastercard, Paypal e Amazon para apoiar o site Wikileaks e seu fundador, Julian Assange. Pouco tempo depois tivemos a primavera árabe, aonde violentos protestos nas ruas foram organizados e divulgados amplamente pela Internet. Desde então o grupo Anonymous ganhou apoiadores ao redor do mundo, que foram responsáveis por diversos protestos online em vários países. Então, o termo hacktivismo se popularizou, representando o uso e a manipulação das tecnologias online como forma de protesto político, ideológico ou religioso - seja através de ataques ou do uso de ferramentas tecnológicas.

Há diversas formas em que o mundo online pode ser usado para apoiar protestos no mundo real, a começar pelo chamado "Cyber Ativismo" puro, caracterizado pelo uso da Internet para organizar, promover e divulgar mensagens de cunho ideológico. Seja criando um site ou uma página nas redes sociais para divulgar uma mensagem ou organizar um protesto, os cyber ativistas também utilizam a Internet para divulgar notícias sobre os protestos, e assim fugir do controle de informação, distorção ou censura eventualmente realizada por governos ou pela própria mídia tradicional.

Há também o "Hacktivismo danoso", que utiliza técnicas de cyber ataques para causar danos a pessoas ou organizações que sejam alvo do protesto, incluindo empresas e governos. Esta é a forma mais conhecida atualmente de protesto online, e inclui o uso de ataques de negação de serviço (DDoS) para tirar o site do ar, pichação de páginas web (defacement) para publicar online a mensagem de protesto, ou o roubo e vazamento de informações da entidade ou das pessoas envolvidas. Estes ataques visam, normalmente, expor, humilhar e até mesmo causar algum tipo de dano ao alvo dos protestos. Devido ao seu caráter danoso, um dia podemos passar a chamar isso de "Cracktivismo".

O Hacktivismo também pode ser benéfico e construtivo, quando usa a tecnologia para beneficiar um grupo que seja vítima de algum tipo de opressão. É o caso do desenvolvimento de ferramentas para garantir a privacidade das pessoas contra governos que não respeitem as garantias individuais e a liberdade de expressão (o software de criptografia de e-mails PGP e a rede Tor são bons exemplos). Durante a Primavera Árabe, vários países tentaram restringir o acesso a Internet para que os protestos não fossem divulgados e para evitar que as pessoas se organizassem online. Entretanto, diversos ativistas contribuíram com recursos para criar meios para que as pessoas que estavam no protesto pudessem acessar a Internet, apesar da tentativa de censura dos governos.

Por último, também existe o "Hacktivismo Vingativo", que ocorre como uma forma de reação a ações consideradas desproporcionais, violentas ou falsas por conta das entidades ou pessoas que são alvo do protesto - ou contra a reação das autoridades policiais. Neste caso, é comum ver hacktivistas denunciando, reagindo e protestando online contra excessos por parte das autoridades durante manifestações pacíficas. Um caso que ficou famoso foi o "Pepper Spray Cop", um meme que surgiu na Internet como forma de protestar contra policiais americanos que jogaram spray de pimenta em participantes do "Occupy Wall Street", em especial durante a ocupação na Universidade da Califórnia, em Novembro de 2011.

No Brasil a situação não é diferente. Os protestos que estamos vivenciando desde julho de 2013, que surgiram em parte por causa do aumento da passagem de ônibus e das suspeitas de gastos excessivos durante a Copa das Confederações. Estes protestos têm sido organizado em redes sociais e utilizado a Internet para divulgar seu andamento, independente da cobertura da mídia tradicional. As reações violentas das forças policiais não fugiram das câmeras e celulares dos manifestantes e ganharam milhares de visualizações na Internet, amplificando a mensagem dos manifestantes e angariando apoio junto a população. Quanto maior a divulgação nas redes sociais, mais os protestos cresceram e se espalharam por todo o país. Passados alguns meses, a força dos protestos de rua parece ter diminuído com relação aos primeiros dias, mas definitivamente a Internet expandiu a capacidade comunicação e de mobilização dos brasileiros.

*Anchises Moraes é analista em Inteligência de Ameaças da RSA para América Latina