Os discos de ouro das sondas Voyager vão durar muito mais que a humanidade

Por Patrícia Gnipper | 24 de Fevereiro de 2021 às 12h20
NASA

Em 1977, a NASA lançou as sondas Voyager 1 e 2 para estudar o Sistema Solar. A bordo delas, a agência espacial incluiu dois discos de 12 polegas, confeccionados em cobre e folheados a ouro, contendo ali informações sobre a humanidade, com direito a fotos, músicas e saudações em diversos idiomas. Tudo isso foi feito com a ajuda de Carl Sagan e sua esposa Ann Druyan, que tiveram a missão de fazer a curadoria desses conteúdos que, se um dia forem encontrados e reproduzidos por alienígenas, representarão uma síntese da nossa civilização — mesmo que nós já não estejamos mais por aqui se (ou quando) isso acontecer.

Batendo recordes mesmo com mais de 40 anos de atividade (e possivelmente tendo sua já longa missão estendida por mais um tempo), é fato que as sondas têm como destino inevitável o momento em que seus instrumentos ainda funcionais deixarão de responder, marcando a "morte" da dupla. Isso deve acontecer dentro de alguns anos. Mas quanto tempo será que suas estruturas físicas ainda resistirão à viagem interestelar? Quanto tempo os discos de ouro são capazes de durar (permanecendo reproduzíveis)?

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Nick Oberg, candidato a doutorado no Instituto Astronômico de Kapteyn, na Holanda, decidiu calcular quais estrelas as Voyager poderiam alcançar em seu trajeto espacial, e aproveitou para fazer algumas previsões sobre o futuro das sondas gêmeas e seus discos de ouro — e, spoiler: eles vão durar muito mais do que a humanidade.

Onde as Voyager estão hoje

As duas Voyager (Imagem: Reprodução/NASA)

As Voyager já estão oficialmente em espaço interestelar, mas isso não significa que elas já saíram do Sistema Solar. Em 2012, a Voyager 1 passou da heliopausa (a borda externa da heliosfera, que é a "bolha" protetora de partículas e campos magnéticos criados pelo Sol), com a Voyager 2 fazendo o mesmo em 2018. No entanto, sair da heliosfera não é sinônimo de sair do Sistema Solar, pois o limite oficial do nosso sistema estelar é considerado além da borda externa da Nuvem de Oort, que abriga uma coleção de pequenos objetos ainda sob influência da gravidade solar.

A nuvem de Oort é gigantesca. Estima-se que levará cerca de 300 anos para que as Voyager alcancem a borda interna da região, e possivelmente de 20 a 30 mil anos para saírem totalmente dela — aí sim, abandonando o Sistema Solar de uma vez por todas.

Mas, de qualquer maneira, desde que as sondas passaram do limite de onde o vento solar atua, elas estão em espaço considerado interestelar, isto é, entre estrelas. A dupla agora percorre um vasto espaço nos verdadeiros confins do Sistema Solar, e continuam enviando dados à Terra. Assim, ficamos sabendo de suas "aventuras" e aproveitamos para descobrir muitas coisas sobre aquela região cósmica.

Arte mostrou onde as Voyager estavam em 2018, quando a Voyager 2 havia acabado de ultrapassar a helipopausa (Imagem: Reprodução/NASA)

Saindo da Nuvem de Oort rumo a outras estrelas

Para estimar as chances de os discos de ouro das Voyager sobreviverem a essa longa e inédita jornada, Oberg se juntou a alguns colegas para rastrear essas trajetórias. Como resultado, concluíram que os discos resistirão não apenas à extinção da humanidade, como também podem seguir intactos quando a Via Láctea colidir com a galáxia de Andrômeda.

"Nosso objetivo original era determinar com uma precisão muito alta quais estrelas as Voyager um dia poderiam encontrar de perto, e usamos o recém-lançado catálogo de estrelas Gaia da época", disse Oberg. Assim, ele começou a analisar a jornada das sondas para projetar suas trajetórias do futuro, prevendo quais estrelas estarão em seu caminho.

Assim que elas saírem da nuvem de Oort (ou seja, não antes de 20 mil anos a partir de agora), as Voyager "começarão a sentir a atração gravitacional de outras estrelas com mais força do que a do nosso Sol", explica Oberg. Levará pelo menos 10 mil anos adicionais para que a dupla chegue perto de outra estrela — provavelmente uma anã vermelha chamada Ross 248, a 10,3 anos-luz de distância de nós.

As linhas alaranjadas representam a órbita de um objeto comum no Cinturão de Kuiper, enquanto a linha amarela mostra a órbita de Plutão. Todos os pontos brancos ao redor de tudo isso são objetos que ficam na imensa Nuvem de Oort (Imagem: Reprodução/NASA)

As projeções de Oberg vão além: em 500 milhões de anos, ele prevê que o Sistema Solar e as Voyager completarão uma órbita através da Via Láctea. Muita coisa acontecerá nesse meio tempo, e é difícil prever com exatidão, mas Oberg projetou que, ao longo dessa órbita galáctica, as Voyager devem oscilar para cima e para baixo — a Voyager 1 o fará de maneira mais dramática, viajando muito acima do disco principal da nossa galáxia.

Oscilação está diretamente ligada à sobrevivência das sondas

Essa oscilação vertical ao longo da jornada pela Via Láctea está diretamente ligada às chances de as sondas sobreviverem ao longo do tempo. Projetados para durar por pelo menos um bilhão de anos, os discos de ouro podem estar em risco à medida que as Voyager mudam sua posição em relação ao disco principal da galáxia.

Entre os fatores que podem danificar as sondas, Oberg apontou, em especial, as nuvens espessas de poeira interestelar. Viajando a vários quilômetros por segundo, as Voyager podem ser seriamente danificadas com poeira entrando em seus equipamentos, ainda que os discos de ouro sejam protegidos por uma camada externa bastante resistente.

É que, justamente nas regiões mais acima e mais abaixo do plano da Via Láctea, ficam as nuvens mais espessas. Ou seja: a Voyager 1 tem mais chances de se danificar dentro de centenas de milhões de anos do que a Voyager 2. O time de Oberg simulou os caminhos das sondas nessas áreas para modelar os danos que os discos de ouro podem sofrer, também considerando que tais nuvens têm tanta massa concentrada, que elas podem alterar a trajetória das sondas quando elas estiverem por perto, lançando-as a novas órbitas.

A equipe concluiu que, de qualquer maneira, os dois discos de ouro têm boas chances de continuarem reproduzíveis mesmo com danos superficiais — ainda que o disco a bordo da Voyager 2 tenha maior probabilidade de permanecer intacto. Oberg calcula que os discos são capazes de sobreviver a um período de mais de cinco bilhões de anos.

E depois disso?

Fica muito difícil prever e modelar o que pode acontecer tanto com as Voyager quanto com seus discos de ouro após cinco bilhões de anos. Mas já é sabido que, dentro desse período, a Via Láctea colidirá com a galáxia de Andrômeda — e muita coisa vai mudar por aqui nesse processo.

Oberg ressalta que, com a colisão, "a forma espiral ordenada da galáxia será severamente deformada e possivelmente destruída inteiramente". Há simulações que imaginam como tudo isso deverá acontecer, mas os detalhes de onde e como estarão as sondas em meio a isso são difíceis de imaginar com tanta antecedência.

Ainda assim, Oberg calcula que, nesses cinco bilhões de anos, as Voyager provavelmente passarão por outras estrelas a uma distância de cerca de 150 vezes a distância entre a Terra e o Sol (ou três vezes a distância entre o Sol e Plutão). Mas, apesar de "nenhuma das Voyager se aproximar particularmente de qualquer estrela antes da colisão das galáxias", nesse período elas passarão por sistemas estelares tão grandes ou até maiores que o nosso — e aí mora a chance de alguma civilização alienígena tecnologicamente evoluída encontrar as sondas e aprender como reproduzir o conteúdo dos discos de ouro, descobrindo, então, que nós existimos na Terra, no Sistema Solar, há muitos, muitos anos.

Fonte: Space.com

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