O que sabemos sobre a misteriosa missão chinesa que levará um rover a Marte

Por Patrícia Gnipper | 16 de Julho de 2020 às 17h15
CNSA

Entre os dias 20 e 25 de julho, a China lançará uma nave rumo a Marte na missão Tianwen-1. Tal missão ainda é um tanto quanto misteriosa, pois, apesar de a agência espacial chinesa CNSA ter revelado alguns de seus objetivos, muitos outros permanecem obscuros. De qualquer maneira, caso o país asiático se mostre bem sucedido nesse pouso, ele entrará pro seleto clube de nações que já enviaram uma espaçonave ao Planeta Vermelho.

Após o lançamento, a Tianwen-1 levará cerca de sete meses para chegar a seu destino; ou seja, isso deve acontecer em fevereiro de 2021. Mais ou menos na mesma época também devem chegar por lá o rover Perseverance com o helicóptero Ingenuity (na missão Mars 2020, da NASA, em busca de bioassinaturas) e a sonda Hope Mars, dos Emirados Árabes Unidos (que estudará a atmosfera e o clima marcianos).

Conceito da missão Tianwen-1, contando com um orbitador, um módulo estacionário e um rover (Imagem: Nature Astronomy)

Tianwen-1 significa algo bomo "busca pela verdade celestial" e a missão envolve levar ao Planeta Vermelho uma sonda orbital junto a um módulo de aterrissagem, módulo este composto por uma plataforma de pouso estacionária guardando um rover, que percorrerá a superfície para fazer estudos adicionais. Assim que a espaçonave com todos esses elementos chegar à órbita marciana, ela ficará estudando o planeta do alto por alguns meses (até abril do ano que vem), registrando imagens da superfície de Marte para estudar o melhor local de pouso do módulo de aterrissagem. E aqui entra um dos mistérios desta missão: a superfície marciana já é amplamente mapeada por orbitadores de outras agências espaciais, cujas imagens têm acesso público mundial, inclusive por parte dos chineses. Por que eles preferem eles mesmos fazerem esse mapeamento? E por que decidir o local de pouso somente quando as naves já estiverm em órbita, como se a superfície de Marte fosse desconhecida?

De qualquer maneira, informações recentes fornecidas pelo ex-engenheiro chefe da missão, Wan Weixing, davam conta de que a CNSA mirava na Utopia Planitia como candidata a local de pouso (mesma região onde pousou a Viking 2, da NASA, em 1976). Na época, ele disse que, por nenhuma outra missão planetária ter sido planejada desta maneira (ou seja, escolhendo o local de pouso depois de ter chegado à órbita do planeta de destino), se a missão Tianwen-1 for bem-sucedida, "significará um grande avanço técnico", em suas palavras.

Assim que o orbitador estiver em seu ponto mais próximo possível da superfície, o módulo de aterrissagem acionará seus propulsores para iniciar a descida, liberando as "pernas" de aterrissagem quando estiver próximo da superfície. A China não revelou exatamente em que dia e horário isso deve acontecer, mas essa descida normalmente leva cerca de sete minutos para acontecer. São os chamados "sete minutos de terror", a partir do momento em que o módulo de pouso se destaca do orbitador e inicia o procedimento de redução da velocidade para uma aterrissagem suave. Só que como os chineses já têm um histórico bem-sucedido de pousos na Lua com as missões Chang'e, imagina-se que tenham uma vantagem ao pensar em fazer o mesmo em Marte. Os indianos, por exemplo, falharam exatamente nesses "sete minutos de terror" com a missão Chandrayaan-2, cujo pouso lunar falhou e a nave se despedaçou na superfície da Lua, ainda que seu orbitador permaneça funcionando ao redor do nosso satélite natural.

Considerando que o pouso aconteça dentro do esperado, a plataforma de aterrissagem, assim que estiver segura na superfície, abrirá então seus painéis solares para produzir energia suficiente a ponto de conseguir estender uma rampa sobre a superfície, rampa esta que servirá para que o rover de dois metros de diâmetro seja liberado. Esse veículo robótico deve funcionar por 90 dias na superfície marciana, enquanto a sonda orbital tem previsão de operar por um ano. Contudo, esse tempo de missão pode ser estendido caso as máquinas mostrem que podem continuar em funcionamento depois disso.

(Imagem: Reprodução)

Agora, quanto a exatamente o que o rover explorará na superfície, aqui entra outro mistério. O veículo conta com seis instrumentos e duas câmeras e, entre seus objetivos científicos já revelados, estão coisas como procurar gelo de água abaixo da superfície marciana e estudar a composição de rochas. Enquanto isso, o orbitador também será usado para direcionar o rover, e a plataforma de pouso pode levar consigo mais instrumentos científicos, ainda que isso não tenha sido confirmado.

Apesar de obviamente a missão Tianwen-1 ter um objetivo científico, ela também acaba sendo uma declaração da China quanto a suas ambições e seu poder na exploração espacial. O país se tornará o segundo, ao lado dos Estados Unidos, a pousar e operar com sucesso uma máquina na superfície marciana, ficando também ao lado dos russos, dos europeus e dos indianos quando se pensa em orbitadores ao redor do planeta.

Caso a missão se mostre um sucesso, é possível que a China envie novas espaçonaves para lá no futuro próximo. O país já chegou a revelar ambições envolvendo uma missão de coleta e retorno de amostras marcianas em 2028 — coisa que a NASA e a ESA também planejam, por sinal. Ou seja: a Tianwen-1 é um primeiro passo essencial para que a China mostre ser capaz de explorar mais um mundo no Sistema Solar, além da Lua, onde já é bem sucedida e concorre à altura com nações mais experientes quando o assunto é explorar o Sistema Solar. É esperar para ver.

Fonte: Forbes

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