O que é ciência e o que é ficção em Ad Astra - Rumo às Estrelas?

Por Patrícia Gnipper | 25 de Setembro de 2019 às 19h40

Ad Astra - Rumo às Estrelas chegou aos cinemas recentemente e já está dando o que falar. Com Brad Pitt como protagonista, o filme dirigido por James Gray traz várias referências à verdadeira exploração espacial, e o diretor até chegou a declarar que seu filme de ficção científica, na verdade, mostraria "fatos do futuro da ciência". Mas será mesmo?

Ethan Gross, que escreveu o roteiro do longa com Gray, disse ainda que vê o filme "como uma realidade alternativa, um futuro próximo, como se os programas espaciais dos anos sessenta, que desaceleraram ao longo do tempo, não tivessem desacelerado". Ou seja: a ideia do roteirista foi imaginar uma realidade em que a Lua continuaria sendo visitada desde o programa Apollo, então hoje já teríamos bases colonizadoras no satélite natural da Terra e possivelmente já teríamos chegado a Marte. "Provavelmente daqui a 50 ou 100 anos talvez teremos o mundo de Ad Astra", diz Gross.

Bom, se você vai concordar com essa visão dos criadores do filme, só assistindo ao longa para saber. Mas, nesta matéria, vamos destacar o que é ciência de verdade no filme, e o que é apenas ficção científica "da boa".

Aviso: a partir daqui, este texto pode trazer spoilers!

Primeiro, um pouco sobre a trama de Ad Astra

Em Ad Astra, vemos uma realidade em que a exploração do espaço está bem avançada em comparação com nosso momento atual, e o major e engenheiro espacial Roy McBride (Brad Pitt) recebe uma missão importante em sua carreira: ele descobre que seu pai — um lendário astronauta que desapareceu em uma missão para procurar vida inteligente em outros mundos do Sistema Solar — ainda poderia estar vivo mesmo depois de muitos anos de seu sumiço. O astronauta então aceita embarcar nesta missão procurando responder, de uma vez por todas, a pergunta que lhe aflige desde a adolescência: o pai está vivo ainda, ou não?

Contudo, durante a jornada, McBride se depara com um mistério que ameaça a integridade do Sistema Solar, envolvendo raios cósmicos que causam fenômenos bizarros e destruidores, ameaçando até mesmo a vida na Terra. Neste contexto, o filme acaba sendo um verdadeiro drama espacial, pois a personalidade do personagem é explorada ao longo dos acontecimentos da trama, e vemos que o astronauta é uma pessoa emocionalmente ferida, acumulando frustrações pela ausência de seu pai e criando uma "casca" rígida para proteger os próprios sentimentos, além das emoções das pessoas ao seu redor. Gray explora bem essa angústia de McBride com técnicas visuais, transmitindo sua rigidez e angústia com profundidade.

E, ao mesmo tempo em que o drama espacial explora a narrativa pessoal do personagem, Ad Astra também se atém aos princípios básicos da ficção científica: retratar a realidade imaginada da maneira mais realista possível, com fundamentos científicos, e isso fica bem claro ao analisarmos as naves e bases espaciais que aparecem no filme, bastante "frias" e sem um montão de elementos aparentemente inúteis ou com o único objetivo de manter um determinado senso estético — como vemos em filmes de fantasia espacial por aí. Afinal, ficção científica é uma coisa, fantasia é outra.

O que tem de verdadeiro (ou plausível) em Ad Astra

Força Espacial

No filme, até vemos uma cena em que McBride está ao lado de um globo de vidro com um astronauta da NASA pisando no solo lunar (uma referência clara ao programa Apollo), e também vemos um desenho feito em sua infância retratando o foguete Saturn V, usado para levar a humanidade à Lua nos anos 1960. Contudo, não é bem um análogo da NASA que comanda a viagem espacial da trama: o astronauta, na verdade, faz parte do Army Corps, que trabalha para a International Space Antenna, estrutura terrestre que se estende à atmosfera superior. Então, ele é recrutado pelo Comando Espacial dos Estados Unidos (Space Command, ou SpaceCom), que é uma instituição militar focada na força espacial.

Gray e Gross acharam mais plausível retratar uma organização militar dominando o espaço porque, em suas previsões quanto ao nosso futuro, não tiveram certeza se a NASA ainda seria uma entidade com a força que tem hoje. Até porque as aventuras espaciais de McBride nem sempre são tão "do bem" quanto as missões da NASA, e o SpaceCom, por vezes, também não é lá muito bem intencionado, bastante focado em ações militares, e não apenas na exploração científica.

E se a força espacial do filme parece um conceito familiar, é porque o Departamento de Defesa dos EUA já estabeleceu, recentemente, sua própria força espacial real: proposta em 2018 pelo presidente Donald Trump, a ideia foi formalizada em 2019, criando oficialmente o Comando Espacial dos Estados Unidos com o intuito de proteger a soberania do país no espaço.

A nova organização visa a criação de uma agência de desenvolvimento e exploração espacial voltada especificamente para fins militares, e será responsável por selecionar e treinar tropas de operações espaciais para este mesmo fim. Esses soldados/astronautas serão selecionados a partir de esquadrões já existentes, e trabalharão sobre normas específicas para a defesa militar do país no ambiente espacial. E é exatamente isso o que Ad Astra mostra.

Lembranças da exploração espacial

Quando McBride é convocado pelo SpaceCom para receber sua nova missão, vemos referências à história da exploração espacial real. Ele se senta em uma mesa de conferência onde há uma fileira de modelos de foguetes e naves espaciais, com as miniaturas revelando coisas como o foguete Titan II GLV (ou Gemini-Titan), o foguete Saturn V com a plataforma de lançamento, uma nave Mercury e a nave chinesa Shenzhou.

Esses modelos, inclusive, foram emprestados aos cineastas por Robert Yowell, engenheiro veterano que trabalhou com a NASA no passado. Ele também atuou como consultor técnico em Ad Astra, e até mesmo participa do filme — interpretando uma das pessoas que passam pela base lunar.

Depois disso, quando McBride sai da sala de conferências e caminha por um corredor, neste corredor há em suas paredes um "hall da fama" de astronautas, incluindo seu pai, H. Clifford McBride (interpretado por Tommy Lee Jones). Apesar de este ser um personagem totalmente fictício, todos os outros homenageados fazem parte da vida real: podemos ver ali nomes como Buzz Aldrin e Michael Collins (da Apollo 11), Eileen Collins (a primeira mulher a comandar uma missão no ônibus espacial), Mae Jemison (a primeira mulher afro-americana a ir para o espaço), e Bruce McCandless (o primeiro astronauta a fazer uma caminhada espacial sem amarras).

Lockheed Martin e Virgin Galactic

O nome da empresa fabricante de produtos aeroespaciais Lockheed Martin aparece no filme, o que traz ao espectador uma sensação de veracidade ao que está sendo assistido. É que a empresa é justamente uma das parceiras da NASA no desenvolvimento de novas tecnologias para a exploração do espaço, e vem crescendo bastante neste sentido. "Ver o nome da Lockheed Martin [no filme] é importante porque isso dá a sensação de autenticidade e foco nos detalhes que você não teria como reproduzir" de outra maneira, disse Gray.

Ele explica ainda que até tentou inventar uma empresa fictícia, contratando uma agência famosa de design para desenvolver o logotipo, "mas o público sempre sabe que é falso, sempre". "Então, quando você vê 'Lockheed Martin' ao lado de uma espaçonave, isso envia uma mensagem, uma mensagem sobre o progresso e sobre onde queremos estar; tudo isso faz parte do plano do filme", completa.

E, além de usar o nome e logo da empresa, o filme também pega emprestadas propostas da Lockheed para uma base em Marte, e parte do design da nave Cepheus também conta com insights de Guy Chriqui, cientista sênior da Lockheed Martin que atuou como consultor no longa.

Já quanto à Virgin Galactic, outra empresa privada aeroespacial — esta que vem firme e forte em seus planos de iniciar voos turísticos ao redor da Terra —, a empresa aparece de certa forma no filme quando McBride viaja para a Lua justamente em um veículo comercial da Virgin Atlantic, companhia aérea que faz parte do grupo Virgin, fundado por Richard Branson e do qual a Galactic faz parte.

Outras referências que aparecem no filme

Os mais atentos vão perceber ainda outras referências à ciência real que existem em Ad Astra. Uma delas é quando, no caminho para a Lua, vemos um sistema de entretenimento a bordo mostrando curiosidades, e a cena exibe justamente o momento em que aparece ali a informação de que o primeiro voo lunar aconteceu em 1968 — data real da missão Apollo 8, que levou astronautas pela primeira vez à órbita da Lua.

Nas cenas em que os viajantes estão percorrendo o terreno lunar em veículos especiais, vemos que o design desses veículos é como se fosse uma evolução do design do Apollo Lunar Roving Vehicle (LRV), usado nas missões do programa Apollo. Até mesmo o estilo dos assentos e do pára-lamas é bastante similar ao que existiu nos "carrinhos" da NASA na Lua. Ainda, o cockpit da nave Cepheus traz elementos que existiram nos ônibus espaciais da NASA, incluindo os teclados de entrada de dados e os cronômetros digitais que ficavam na parte traseira dos assentos do comandante e do piloto. Já o interior da nave Lima Project pegou elementos reais da Estação Espacial Internacional (ISS), incluindo partes de seu hardware.

A solidão e o estresse psicológico dos astronautas

Mas talvez o que mais chame atenção no filme, além de uma produção quase que impecável no que diz respeito à fidelidade com elementos do mundo real (fazendo deste filme uma ótima obra de ficção científica), é a parte psicológica da trama, que acaba destacando um lado das viagens espaciais que acaba não sendo muito explorado na sétima arte: como voos espaciais podem afetar a saúde mental de uma pessoa, por mais preparada que ela seja.

Hoje, astronautas que vivem na ISS ficam longe de suas famílias e amigos, longe da Terra e longe de tudo o que pode trazer algum conforto. Porém, eles passam por essa experiência em turmas, contando com colegas a seu lado no dia a dia, e não vivem no laboratório espacial por tanto tempo assim, permanecendo lá por alguns meses. Já os futuros astronautas que serão enviados a Marte, por exemplo, passarão muito mais tempo longe do conforto do lar, podendo viver por vários anos em uma realidade totalmente diferente de tudo o que eles já viveram até então.

A ciência ainda está conduzindo diversos estudos para descobrir o impacto real, tanto físico quanto psicológico, que viagens espaciais de longa duração causarão nos futuros astronautas. Já em Ad Astra, como a ideia é que a história se passe em uma realidade que talvez alcancemos dentro de 50 ou 100 anos, a coisa é diferente. Vemos muitas cenas em que McBride está, basicamente, sozinho com seus pensamentos. E em muitas dessas cenas em que ele está sozinho em uma espaçonave, a impressão que nos dá é que ele começa até mesmo a perder o contato com a realidade, bem como consigo mesmo.

No filme, há uma tecnologia de avaliação psicológica disponível, que serve justamente para acompanhar o estado mental dos viajantes e detectar qualquer indício de problema. É um dispositivo que "gruda" no pescoço do astronauta e, com uma voz automatizada, pede que ele fale como está se sentindo. Então o sistema faz sua avaliação para checar o bem estar mental do indivíduo, o que parece ser um procedimento cotidiano para exploradores espaciais na história de Ad Astra. Já no mundo real, ainda não temos algo do tipo, mas o estado de saúde (tanto física quanto mental) de astronautas é acompanhado o tempo todo por outros métodos, e os que vivem na ISS têm equipamentos de exercícios, por exemplo, e também realizam tarefas praticamente o tempo todo, pois manter-se ocupado no espaço é vital para a manutenção da saúde mental.

Essa preocupação em retratar a saúde mental dos personagens de Ad Astra, bem como a retratação de eventuais problemas psicológicos em viagens de longa duração, pode entrar na lista de "coisas reais", pois, apesar de ser uma história fictícia, há embasamento em ciência real neste sentido, também. Garrett Reisman, um ex-astronauta da NASA que também foi consultor técnico da produção, falou ao Space.com que, para que astronautas não "entrem em parafuso", é preciso que estejam sempre ocupados com atividades úteis, não servindo preencher o tempo livre com coisas como assistir a filmes ou jogar videogames. "Manter astronautas ocupados com um tipo de trabalho chato que não é realmente importante, ou apenas entretê-los dando-lhes jogos ou filmes, nada disso realmente vai funcionar", ele garante.

Se as viagens de longa duração a outros mundos do Sistema Solar terão mesmo um impacto negativo na saúde mental dos astronautas, como se imagina que seja possível, só o tempo dirá. Mas filmes como Ad Astra servem como um alerta para essa questão, mesmo sendo uma obra de ficção, pois vislumbram um cenário em que a solidão de astronautas no espaço acaba afetando não apenas sua saúde, como possivelmente todo o andamento de uma missão em si. E não queremos que isso aconteça, certo?

*Com informações de Collect Space e Space.com

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