Brasileiro que foi ao espaço com a Blue Origin conta tudo sobre sua viagem

Brasileiro que foi ao espaço com a Blue Origin conta tudo sobre sua viagem

Por Danielle Cassita | Editado por Rafael Rigues | 09 de Junho de 2022 às 11h45
Blue Origin

Victor Hespanha, engenheiro de Minas Gerais, foi ao espaço suborbital no último sábado (4) durante a missão NS-21, lançada pela Blue Origin. Hespanha e os outros tripulantes viajaram a bordo do veículo New Shepard e puderam curtir alguns minutos na microgravidade enquanto observavam a Terra em contraste contra a escuridão do espaço.

Originalmente, o lançamento estava programado para acontecer no dia 20 de maio; contudo, após identificar que um dos sistemas do New Shepard não estava mostrando o desempenho esperado, a Blue Origin decidiu adiá-lo. Victor conta que a mudança de data foi passada a eles com tranquilidade, por ser uma prática comum nos voos espaciais. “Isso é muito natural, então quando eles comunicaram o adiamento pra gente, não foi nada com pesar”, recordou, em entrevista ao Canaltech.

Claro, o novo cronograma acabou causando uma breve mudança na programação dele e da esposa, que aproveitaram o adiamento para um rápido retorno ao Brasil. Alguns dias depois, a Blue Origin informou que o voo havia sido remarcado para sábado, 4 de junho; era hora de retornar ao Texas para o lançamento.

“Aproveitamos a Vila duas vezes, um dos lugares mais legais que já fui!”, destacou Victor. Ele se referiu à Vila de Astronautas da Blue Origin, um local com trailers, restaurante e outras instalações, onde os turistas espaciais ficam hospedados antes de voar.

Dos preparativos ao grande dia

Já próxima do lançamento, a tripulação passou por um treinamento conduzido durante dois dias, quinta e sexta-feira, antes do voo. “No primeiro dia, a gente focou muito na previsibilidade, como seria toda a trajetória dentro da cápsula”, explicou Hespanha. Eles também praticaram procedimentos como o afivelamento dos cintos de segurança, a interpretação de sinais luminosos e a comunicação com a torre de controle.

“A gente foi em um simulador que tem todos os sons originais, desde antes do foguete sair, como o barulho de pressurização do tanque abaixo da gente, e os que aconteceriam ao longo do trajeto até a cápsula pousar”, disse. Já o segundo dia de treinamento foi focado na segurança. Nesta etapa, a Blue Origin apresentou alguns dos possíveis cenários de emergência que poderiam acontecer.

A empresa já havia realizado várias simulações de emergência em diferentes contextos, que foram apresentados para a tripulação e como eles poderiam agir, caso fosse necessário. De forma geral, ele notou que o treinamento adiantou bem o que esperar do voo. “Foi muito importante, porque a gente conseguiu manter uma previsibilidade de voo, e foi exatamente como a gente treinou.”

A missão NS-21 foi lançada na data prevista às 10h25 (horário de Brasília), levando Victor, Evan Dick, Katya Echazarreta, Hamish Harding, Jaison Robinson e Victor Vescovo a altitude máxima de 107 km — portanto, eles foram acima da Linha de Kárman, uma linha imaginária a 100 km de altitude, que é internacionalmente reconhecida como o limite do espaço.

O espaço e a Terra

Durante os voos com o New Shepard, o propulsor leva a cápsula até determinada altitude e depois desativa seus motores, se separa dela e começa a voltar ao solo; enquanto isso, a cápsula continua subindo até chegar ao ponto mais alto de sua trajetória. Nesta etapa, os tripulantes podem curtir a sensação de ausência de peso e flutuar pela cabine por alguns minutos, enquanto observam a Terra.

“Você sai de um barulho alto, de uma pressão alta, pro silêncio absoluto e sem pressão; você não sente o corpo, parece que saiu dele, é a sensação mais diferente. É difícil de explicar, porque não é parecido com nada”, relatou Victor. A chamada fase “zero G” durou cerca de três minutos, tempo suficiente para uma experiência inesquecível. “Foi muito legal ver a Terra de cima, ver a curvatura foi muito especial”, disse. A gente saiu da linha da atmosfera e via o preto do espaço, como se fosse noite mesmo, e embaixo, a camadinha da atmosfera, fina como a casca de um ovo", relembrou ele.

"É uma coisa muito sutil, é uma casquinha que parece uma membrana protegendo uma coisa grande, que é a Terra”.

O que Victor Hespanha levou ao espaço

Victor conta que levou diferentes itens especiais para o voo, como a bandeira do Brasil e, claro, doce de leite. “Representa Minas Gerais e é muito gostoso; eu queria levar pão de queijo, mas era perecível e não deu”, relembrou.

Ainda, Victor levou também uma camisa do time do coração, fotos da família, cachorro e esposa e até mesmo de Nicolinha, astrônoma amadora que divulga ciência para crianças. Ele trouxe também um cartão da CSA, empresa que o sorteou para o voo após a compra de NFTs. O engenheiro sente que seu voo foi um passo de grande importância para trazer mais atenção a assuntos relacionados ao espaço.

"Hoje, a gente tá falando muito disso no Brasil por causa desse evento, e acho que a ideia é aproveitar um pouco desse assunto e tentar comentar mais, trazer mais discussão, trazer isso pra mais perto das pessoas e despertar também esse sonho e a vontade de conquistar isso, principalmente em crianças", ressaltou E, se surgirem novas oportunidades, ele já adianta: “se tiver como ir duas, três, quatro, cinco, 20 vezes, eu vou, super feliz!”, finalizou.

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