Divulgadores mirins: conheça crianças que falam de ciência nas redes sociais

Divulgadores mirins: conheça crianças que falam de ciência nas redes sociais

Por Danielle Cassita | Editado por Patrícia Gnipper | 13 de Julho de 2021 às 10h20
Rido81/Envato

Em março, Elizabeth Norman, estudante de 7 anos, não pôde mais ir à escola devido às restrições adotadas no Reino Unido, para conter o avanço do novo coronavírus. Assim, ela usou o tempo em casa para aprender e conseguiu construir seu próprio foguete em casa. Da mesma forma como a ciência e o espaço interessaram Elizabeth e a levaram a criar e experimentar em sua própria casa, outras crianças seguem por um caminho parecido, divulgando a ciência para públicos de diversas idades — inclusive no Brasil.

Elizabeth já participou de eventos com cientistas, engenheiros e astronautas da NASA, e os esforços com o foguete que criou lhe renderam o título de membro mais jovem da diretoria da associação Citizen Science Association. Já no Brasil, o interesse e curiosidade das crianças abriu as portas para participarem de cursos, competições nacionais e internacionais, palestras — e, claro, levou-as ao contato com outros pequenos que compartilham a curiosidade pela ciência e a vontade de levá-la a outras pessoas.

O Canaltech descobriu diversos divulgadores científicos mirins que fazem uma ótima divulgação científica aqui no Brasil. Nesta matéria, você descobre alguns deles, bem como iniciativas criadas para que jovens e crianças estudem o assunto.

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Nicolinha & Kids 

O grupo Nicolinha & Kids foi fundado por Nicole Oliveira. Ela tem 8 anos, mas a vontade de saber mais sobre o céu vem desde muito antes. “Comecei a me interessar quando tinha 2 anos e olhava para as estrelas, queria observar o céu”, conta ela ao Canaltech, dizendo também que planeja se tornar engenheira aeroespacial. Aos 4 anos, ela quis se matricular em um curso de astronomia em sua cidade, mas precisou esperar completar 6 anos para participar das aulas.

Foi nesta época que Zilma, mãe de Nicole, criou perfis em redes sociais para divulgar as observações astronômicas da menina e o que ela aprendia. “Como ninguém dava oportunidade para ela se apresentar e falar sobre astronomia, porque as pessoas não tinham tanto interesse em saber e muito menos em ouvir de uma criança, comecei a postar as aulas e as observações dela”, conta Zilma. Conforme Nicole foi produzindo conteúdos sobre assuntos variados em sua conta do Instagram e canal do YouTube, ela e Zilma perceberam que podiam levar a experiência a outras crianças.

Assim, criaram o grupo Nicolinha & Kids, no início de 2021, para realizar atividades direcionadas a crianças, como aulas e experimentos — tudo isso feito sempre com o apoio de professores, pesquisadores e outros profissionais da área. Nicole costuma receber oportunidades de entrevistas, livros, revistas e outros materiais educativos, e faz questão de sempre dividir tudo com os outros participantes. “Não dá para aceitar sozinha, porque sozinha não se chega a lugar nenhum”, diz ela. Para participar do grupo, os pais da criança interessada devem entrar em contato por e-mail e preencher uma ficha de autorização.

InSpace

Lorrane Olivlet já faz divulgação científica há anos, principalmente em suas redes sociais — tanto que ela começou a receber mensagens de pessoas que queriam participar de palestras e cursos, como os que ela participava com o grupo Passaporte da Astronomia, que integrava durante a graduação, mas que não podiam porque não havia nada do tipo na cidade delas. Então, aos poucos, foi tomando forma a ideia de criar um grupo para unir participantes de todo o país e realizar palestras em escolas e universidades, que pegou impulso quando Lorraine visitou o Kennedy Space Center, da NASA, em 2019.

No início, ela pensou que haveria poucos membros, mas a primeira lista de interessados trouxe mais nomes que o número de vagas disponíveis. Por isso, foi preciso criar uma espécie de processo seletivo, e a primeira leva trouxe 20 membros de todas as idades, de crianças a adultos. "Todos eles conseguem acompanhar tudo que a gente faz e cada um contribui da sua forma", explica. Hoje, o InSpace já conta com mais de 50 membros, que vêm de todos os estados do Brasil e até de fora do país — recentemente, o grupo recebeu um integrante de Moçambique.

As atividades vão desde a participação em cursos e palestras até em olimpíadas: as equipes que formaram venceram a Olimpíada Brasileira de Satélites em 1º e 4º lugar, e vão receber dois satélites para lançamentos futuros. As crianças, que compõem grande parte do grupo, fazem treinamentos para apresentarem palestras sobre temas como estrelas, planetas, satélites naturais, entre outros. “Estamos numa época de obscurantismo científico muito grande, e esse tipo de grupo é fundamental para envolver mais pessoas na ciência”, conta Lorraine.

Futuramente, o grupo terá uma subdivisão voltada especialmente para os membros mirins. Para participar, os responsáveis pela criança devem entrar em contato com o grupo e preencher um formulário de autorização e de uso de imagem.

Divulgadores mirins 

Abaixo, você conhece alguns dos membros destes dois grupos, junto de outras crianças e adolescentes que usam as redes sociais para levar ciência a seus seguidores.

Sabrina Cordeiro

Sabrina tem 12 anos e, desde pequena, gostava de observar as estrelas e a Lua junto da família. Foi em 2019 que ela passou a conhecer mais sobre a astronomia, que lhe rendeu participações em seminários e cursos — com direito até à presença em um evento de celebração do Dia das Crianças, com a participação de Marcos Pontes, ex-astronauta e atual ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações. "Foi muito emocionante, ele é uma das minhas maiores inspirações", relatou ao Canaltech.

No evento, Sabrina conheceu várias pessoas — inclusive Nicolinha, fundadora do grupo Nicolinha & Kids. A experiência trouxe a inspiração para criar um perfil no Instagram para divulgar ciência: "comecei a ter seguidores da área, e conheci várias pessoas e amigos que me ajudaram e continuam ajudando muito", comenta. Sabrina integrou o grupo Nicolinha & Kids, onde participou de aulas de física, cosmologia e até de robótica espacial. Ela também faz parte do grupo InSpace, sendo uma das embaixadoras da turma.

Entre os assuntos favoritos de Sabrina, estão os buracos negros. "Acho complexo, mas mesmo assim, fiz uma palestra sobre eles no canal Bate Papo Astronômico", comenta. Ela também esteve no 1º Seminário Internacional de Astronomia e Astronáutica, junto de Sara e Nicole, para dar uma palestra no Painel Kids. Sabrina segue pesquisando e aprendendo sobre áreas variadas, e se interessa pela engenharia de telecomunicações e astrofísica: "acho muito interessante olhar as imagens de satélites e comandar lançamentos".

Sara Gabriele

A inspiração de Sara para saber mais sobre o espaço nasceu com sua própria família, que sempre teve o hábito de observar o céu e as estrelas; contudo, ao pesquisar — sozinha — sobre o Sistema Solar, buracos negros, estrelas e outros objetos que a interessavam, ela percebeu que não encontrava materiais criados para crianças e que fossem de fácil entendimento. Assim, começou a procurar perfis e canais de astronomia voltados para crianças, até que conheceu o perfil de Nicole. "Comecei a participar de eventos com ela e aquilo me motivou muito, porque eu nunca tinha visto nada do tipo", conta.

As atividades no clube Nicolinha & Kids a fizeram perceber a importância da divulgação científica voltada para crianças, tanto que resolveu contribuir. "Decidi abrir um Instagram para ajudar outras crianças, porque eu me colocava no lugar delas e queria que essas informações chegassem de um jeito mais rápido e fácil, como chegou para mim", explica. Hoje, Sara integra o grupo de Nicolinha e o InSpace, adora estudar sobre o Sistema Solar — com foco espacial em Saturno, seu planeta favorito — e já consegue materiais de estudos próprios para crianças.

O trabalho que Sara vem fazendo junto dos dois grupos trouxe oportunidades para ela realizar palestras sobre assuntos variados, como a lua Ariel, de Urano, e até uma aula preparatória para a Olimpíada Brasileira de Astronomia. Para os próximos passos, ela planeja participar de projetos da NASA e de ciência cidadã, para a caça de asteroides — além de, claro, continuar com as publicações. "Quero mostrar para as crianças que não é impossível aprender sobre isso e que pode ser uma coisa legal e divertida", finaliza.

Alice Pimentel

Em 2015, aconteceu um evento sobre astronomia no shopping da cidade em que Alice mora, que trouxe representações dos planetas e outros itens expostos a quem passasse por lá. A exposição despertou o interesse dela, que passou a realizar observações com uma luneta pequena — mas, hoje, Alice já tem um telescópio newtoniano; ao contrário da luneta, este instrumento tem um espelho, que captura a luz. Atualmente, ela participa dos grupos Nicolinha & Kids e InSpace, mas considera entrar em mais grupos no futuro. "Quando aparecer a oportunidade, pretendo participar, porque é bom ter esse contato com outras pessoas que gostam", explica.

A participação no clube de Nicolinha trouxe ótimos frutos: “vi que as meninas eram todas divulgadoras científicas, aí resolvi criar o meu perfil”, relata ela. Assim, ela criou uma conta no Instagram, onde traz temas que sejam diferentes, mas tomando o cuidado de utilizar uma abordagem interessante para o público. O planeta favorito de Alice é Saturno, que considera o mais bonito do Sistema Solar, por seus anéis.

Ela também tem grande interesse por quasares — tanto que já realizou uma palestra sobre estes objetos no canal Bate Papo Astronômico. "Sugeriram que eu fizesse outro tema, porque esse era muito complexo! Mas pesquisei e, mesmo assim, quis falar sobre os quasares", conta. A trajetória dela com a divulgação científica, somada a participações nas edições de 2018 e 2019 das Olimpíadas Brasileiras de Astronomia, chamaram o interesse da escola onde estuda. Com isso, ela foi convidada a dar uma aula sobre a competição para os alunos do 3º e 4º anos.

Letícia Parente

A Páscoa do ano de 2019 foi diferente para Letícia: ela não se interessou por nenhum ovo de chocolate, e perguntou ao pai se podia trocar o doce por um livro. Na livraria, ficou encantada por uma obra que trazia assuntos diversos sobre o universo — e que tinha abordagem voltada especialmente para crianças. "Comecei a ficar interessada e quis conversar sobre astronomia na escola, mas quase ninguém conhecia", conta. Então, como gostava de gravar vídeos e se comunicar, ela decidiu criar um canal no YouTube e um perfil no Instagram.

Leticia tem 12 anos e, naquela época em que começou a estudar e saber mais sobre o universo, conhecia poucas pessoas da idade que tivessem o mesmo gosto e interesse que ela. Além disso, ela também sentia falta de materiais para aprender mais: "foi aí que pensei: por que não levo a astronomia, algo tão interessante, para as pessoas da minha idade?”, diz ela. Assim, a garota criou um perfil para ajudar outras crianças a conhecerem a ciência, ajudando também quem tinha interesse, mas não sabia por onde começar ou como estudar.

Atualmente, Leticia faz parte dos grupos Nicolinha & Kids e InSpace. Desde então, ela já realizou lives com profissionais da área, e também foi convidada a dar uma palestra em uma escola para contar sobre sua trajetória. "Fiquei muito feliz, porque várias crianças entraram em contato comigo, e várias abriram o microfone para falar que querem ser astrônoma ou que também querem ser engenheiras aeroespaciais", disse. No futuro, ela pensa em ser engenheira aeroespacial.

Nathali Silva

"Começou há um ano, e não foi nada proposital", diz Nathali, sobre o começo de seu interesse pela ciência. Ela estava procurando vídeos no YouTube, até que encontrou com uma professora, que ensinava sobre Vênus. Daí em diante, ela não parou mais: após conhecer o trabalho de uma aspirante a astronauta, ela conheceu ao programa Plêiades, voltado para a divulgação científica. Ela logo se juntou ao programa, que lhe rendeu a oportunidade de participar do desafio Space Apps, da NASA.

Eles criaram um purificador de ar com uma uma malha antiviral, capaz de neutralizar o vírus da COVID-19 em poucos minutos. A equipe não foi premiada, mas a experiência a marcou. "Fui a única que era do Ensino Fundamental e não tinha experiência na área, mas consegui participar mesmo assim", relata. Já em outra edição do concurso, Nathali liderou uma equipe no desenvolvimento de um kit com recursos para astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional monitorarem o sono e outros aspectos para o acompanhamento da qualidade de vida deles.

Hoje, Nathali integra o grupo Nicolinha & Kids por convite da própria Nicole, com quem já tinha contato, e pretende continuar com a divulgação científica. "Quero que outras crianças e jovens aprendam e tenham essa oportunidade", disse ao Canaltech. Interessada em ciência planetária, ela já pensa em seguir os estudos em astronomia ou astrofísica: "quero contribuir para a ciência de alguma forma e, para isso, quero continuar na área para tentar ajudar, nem que seja um pouco, a mudar o mundo".

João Pedro (Nerdão Das Galáxias)

João Pedro tinha apenas 3 anos quando descobriu uma coleção de livros de seu avô sobre biologia. O interesse foi tanto que pedia que os pais e avós lessem os materiais para ele. Já aos 7 anos, ele ficou fascinado pelo espaço e pela astronomia, que foi também a deixa para conhecer a física e se aventurar pela astrofísica, física clássica, óptica, eletromagnetismo e outros assuntos. Após uma live com Gabriela Bailas, PhD em física teórica de partículas (que rendeu uma grande amizade), o contato com divulgadores se estendeu para um grupo no aplicativo Discord. Por lá, eles participam de discussões sobre física e matemática junto de outras pessoas.

Com a base de conhecimentos que foi construindo, João Pedro sentiu poder levar o que sabia para outras pessoas. "Como disse Carl Sagan, o mundo está assombrado pelos demônios, então tentei ser uma vela", explica ele. "Tento trazer a ciência de um jeito divertido para as pessoas, não para que se tornem cientistas; se acontecer, fico feliz também, mas é mais para aquelas que não se interessam tanto, queiram aprender um pouco mais", disse.

Autor do perfil no Instagram “Nerdão das Galáxias” e canal de mesmo nome no YouTube, João está sempre aprendendo novos assuntos para postar com abordagens diferentes, mas que sejam de compreensão simples para quem o acompanha. "Meu público é muito diverso, mas as crianças são muito importantes: é a gente que vai cuidar do futuro não só do nosso país, mas do mundo; por isso, acho muito importante tentar trazer o interesse delas para a ciência", conta ele. Futuramente, João Pedro pensa em seguir na física para contribuir com o mundo acadêmico.

Gabriela Santos 

Gabriela sempre gostou de fotografar a Lua, mesmo sem telescópios. O gosto pela astronomia, junto da vontade de saber mais, nasceu durante o 2º ano do Ensino Fundamental, que foi quando começou a pesquisar mais sobre espaço e os planetas. "O Sistema Solar foi um dos primeiros temas que aprendi", diz ela. Junto disso, houve também o incentivo no ambiente escolar, vindo da professora que dava aulas de ciências.

Após ganhar um telescópio de presente dos pais, ela decidiu criar um perfil no Instagram para fazer publicações de divulgação científica e postar também as observações que faz. "Acho muito importante, porque a palavra 'ciência' significa conhecimento", observa ela, que percebeu que poderia levar conhecimento para pessoas diversas — principalmente para quem nunca estudou o assunto e quer começar de algum lugar.

Com o apoio da escola em que estuda, ela já participou de uma edição da Olimpíada Brasileira de Astronomia, e vê os grupos de estudos da área como uma proposta interessante e criativa. "É muito bom, principalmente para as crianças aprenderem sobre essa área, que é linda", disse. Hoje, Gabriela se interessa por áreas diversas, como a arquitetura e a engenharia — mas considera que, se seguir estudos sobre os astros futuramente, espera realizar várias descobertas para continuar contribuindo com o conhecimento.

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