Uma pessoa pode ser congelada para acordar no futuro como o Capitão América?

Uma pessoa pode ser congelada para acordar no futuro como o Capitão América?

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 14 de Setembro de 2021 às 14h35
Reprodução/Marvel

Um dos principais charmes da Marvel sempre foi fazer com que seus heróis, ao contrário dos personagens quase divinos da DC, fossem filhos da ciência. Por mais absurdos que sejam os poderes, eles são fruto de um acidente em laboratório, algum efeito de radiação ou mesmo uma mutação genética. É sempre uma extrapolação de uma ideia que tem um pé na realidade, o que faz com a gente fique se perguntando: “Será possível?”

É essa pseudociência que, para muitos fãs, torna os personagens da editora mais interessantes. Veja o caso do Capitão América, que além de trazer o soro do supersoldado em suas veias, ainda tem o fato de ter sido congelado durante a Segunda Guerra Mundial e acordado décadas depois. É uma ideia que já vimos tantas vezes não só nas HQs como também na literatura, no cinema e em outras histórias que faz muita gente levantar as sobrancelhas e perguntar: será?

A imagem do Capitão América sendo tirado do gelo já faz parte do imaginário sobre o personagem (Imagem: Reprodução/Marvel Studios)

Bem, é claro que existe muito exagero em torno da noção de congelar alguém para reviver depois. Basta ver a velha lenda urbana de que Walt Disney segue em animação suspensa à espera do momento para ser reanimado. Ao mesmo tempo, esse conceito já foi aplicado tantas vezes em diferentes meios que é fácil ficar em dúvida se ele é realidade ou apenas ficção. Assim, seria o velho Disney o Steve Rogers do nosso mundo? É possível alguém congelado assim ser reanimado anos depois? E a resposta é: mais ou menos.

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De olho nos quadrinhos

Antes de a gente entrar no mérito científico da coisa, é preciso destacar que essa história de o Capitão América ter sido congelado na Segunda Guerra e acordado décadas depois não é um conceito que nasceu com o personagem quando ele foi criado. Diferente do que a versão do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, na sigla em inglês) apresentou, a primeira origem do herói se limitou apenas ao soro do supersoldado.

Isso porque o Sentinela da Liberdade foi criado em 1941, antes mesmo da entrada dos Estados Unidos na guerra, e seguiu sendo publicado após o término do conflito, quando passou a enfrentar comunistas. A história de que ele foi congelado só apareceu em Vingadores #4, de 1964, quando Steve Rogers passou a integrar a equipe.

O descongelamento do Capitão América apareceu pela primeira vez em 1964, quase 25 anos depois da criação do personagem (Imagem: Reprodução/Marvel Comics)

Assim, o que Stan Lee e Jack Kirby fizeram foi um retcon, ou seja, mudaram histórias já publicadas para dizer que o Capitão América que os leitores acompanharam depois de 1945 não era Steve Rogers, mas um impostor, uma vez que o verdadeiro tinha se sacrificado na guerra. E essa explicação funcionou tanto que passou a fazer parte do cânone do herói e um elemento fundamental de sua mitologia.

Mas será possível? 

E é a partir daí que surge a dúvida: o Capitão América realmente poderia ter sido congelado durante todo esse tempo e reanimado como se nada tivesse acontecido? De forma simples e direta: não. Levando em conta a própria explicação dos filmes, em que o personagem caiu de um avião no meio do Mar Ártico, é bem provável que ele teria morrido e não ficado em animação suspensa. No caso, o grande herói americano teria sido derrotado pela hipotermia.

A grande questão é que, na natureza, não há um único lugar sequer em que a temperatura chegue a níveis negativos tão absurdos a ponto de garantir o congelamento total do corpo. No caso do Ártico, por exemplo, a água alcança os -50º C, um frio que danifica severamente o organismo, mas sem pará-lo por completo.

Se isso acontecesse com uma pessoa de verdade, os heróis estariam encontrando um cadáver (Imagem: Reprodução/Marvel Entertainment)

E aí, o que acontece: algumas partes do corpo de Steve Rogers realmente iriam congelar — principalmente os membros —, mas o interior do corpo seguiria em pleno funcionamento, com o cérebro e coração mantendo suas funções básicas. O problema é que esse congelamento de extremidades compromete a circulação e teríamos, literalmente, uma necrose dessas partes. Basta ver o que acontece com escaladores de montanhas que se descuidam com equipamentos. Então, para começo de conversa, esqueça o escudo do Capitão — para dizer o mínimo.

Em uma situação mais extrema, teríamos problemas ainda mais severos de circulação. Com temperaturas mais negativas, parte do sangue poderia congelar e formar pequenos cristais que simplesmente destruíram os vasos sanguíneos. Isso sem falar da dificuldade de chegar aos órgãos, o que iria afetar seu funcionamento e destruir suas células. Novamente, morreria no processo.

O Capitão América não seria a única vítima de morte por congelamento (Imagem: Reprodução/Toei Animation)

Assim, muito mais do que pensar em como reanimar alguém congelado, é preciso entender que um aspirante a Steve Rogers iria morrer no processo sem qualquer glamour heróico.

A mágica da ciência

Então quer dizer que congelar uma pessoa é totalmente impossível? De forma natural, sim. Mas há quem acredite que existem maneiras assistidas de fazer isso — e é aí que entra a ideia da criogenia.

Enquanto essa explicação nunca tenha sido oficialmente dada para o Capitão América, outro personagem dos quadrinhos já usou essa saída científica em suas histórias. Toda a essência do vilão Senhor Frio passa por essa justificativa. O inimigo do Batman é um cientista que congelou a própria esposa para ter tempo de desenvolver a cura para uma doença que iria matá-la. Assim, ele a mantém em animação suspensa até que encontre o que procura.

Apesar desse romantismo mórbido, as coisas na realidade ainda estão alguns passos atrás. Isso porque a criogenia de verdade ainda não chegou ao ponto de conseguir colocar a pessoa no estado de criopreservação para, tempos depois, trazê-la de volta à vida. Atualmente, a técnica serve sobretudo para células-tronco e células reprodutivas.

No caso do Senhor Frio, o congelamento de uma pessoa passa pela criogenia (Imagem: Reprodução/Warner Bros)

Por outro lado, há os entusiatas que acreditam que o futuro deve trazer uma solução para esse problema e encontrar uma forma de reanimar um corpo congelado criogenicamente — tanto que já há empresas que oferecem esses serviços atualmente. No caso da estadunidense Cryonics Institute, ela trabalha com pessoas que já foram declaradas mortas e, a partir disso, preservam os corpos em câmaras especiais na expectativa de que a ciência desenvolva uma forma de reanimar esses indivíduos no futuro.

Para isso, eles colocam esses corpos na água congelada e mantêm o tecido oxigenado com máscaras e equipamentos de reanimação cardiorrespiratória. Basicamente, é uma enorme máquina que cumpre o papel tanto do pulmão quanto do coração, mantendo o sangue circulando naquele corpo e com os órgãos recebendo oxigênio.

Além disso, é inserida uma solução no organismo da pessoa para impedir o congelamento do sangue. Em seguida, é usado nitrogênio líquido para diminuir a temperatura para -196º C, que é frio o suficiente para parar o metabolismo de uma célula ou tecido, cujo limite é de -133ºC. É nesse ponto que o corpo é colocado em um tanque e fica lá por tempo indeterminado.

Já existem centros de criogenia, inclusive no Brasil, mas a maior parte voltada para a preservação de células e tecidos (Imagem: Divulgação/Centro de Criogenia Brasil)

O ponto é que não há qualquer garantia que isso trará a pessoa amada depois de três dias — ou décadas, como no caso do Capitão América. Isso porque não há formas científicas de fazer com que esse corpo, mesmo com todo esse esforço, volte a funcionar. É basicamente um salto de fé.

Segundo os entusiastas da criogenia, a ciência médica já provou ser possível trazer de volta alguém que havia sido considerado morto. Basta ver os equipamentos de ressuscitação que, a partir de descargas elétricas controladas, conseguem fazer um coração parado voltar a funcionar. Essa era uma ideia que, no passado, soava inconcebível ou digna de ficção-científica — vide Frankenstein — e que hoje faz parte da rotina de hospitais e ambulâncias. Assim, segundo eles, não há nada de errado em acreditar que algo semelhante vai acontecer coma criogenia.

Voltando ao Capitão

Dessa forma, é certo dizer que é impossível vermos surgir um Capitão América aos moldes do que os quadrinhos e o cinema apresentaram. No máximo, encontraríamos um cadáver muito bem preservado — como já aconteceu algumas vezes em áreas da Sibéria ou mesmo do Himalaia. Levando em conta apenas os fatores naturais, alguém que caísse em águas tão geladas como as do Ártico, nem isso iria restar. Seria apenas morte por hipotermia mesmo. Assim, esse pobre coitado estaria muito mais para Leonardo DiCaprio em Titanic do que para Steve Rogers.

E mesmo numa extrapolada do conceito e puxando para a criogenia — ou seja, na seara do Senhor Frio —, podemos dizer que teríamos o Vingador mais inútil da equipe, já que ele não seria muita coisa além de um corpo dormindo indefinidamente na geladeira até que a ciência arranjasse uma forma de reanimá-lo. E se nem Walt Disney conseguiu isso até hoje (como diz a lenda urbana, é claro), dificilmente o garoto do Brooklyn teria mais sorte.

É aí que entra a ficção. Afinal, basta dizer que o soro do supersoldado foi responsável por manter o corpo de Steve resistente ao frio durante todo esse tempo ou que a SHIELD tinha alguma tecnologia ultra-avançada que permitiu essa reaniamação. No roteiro de gibi cabe tudo, até mesmo pseudociência — e essa é a graça da coisa toda.

Com informações de Discover Magazine

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