Criogenia: é possível congelar corpos humanos e trazê-los de volta à vida?

Por Natalie Rosa | 17 de Setembro de 2020 às 18h34
Diego Sanchez/Unsplash

É possível "enganar" a morte? Neste mês de setembro, a Netflix incluiu em seu catálogo um documentário que aborda essa temática com base nas experiências de uma família da Tailândia que perdeu a filha mais nova, de apenas dois anos, para o câncer no cérebro do tipo mais grave do mundo.

A produção foi bastante reconhecida pela crítica, recebendo no ano passado um prêmio do Festival de Documentários Internacionais Hot Docs, na categoria Melhor Documentário Internacional. A direção ficou por conta de Pailian Wedel, que relata a experiência da história como transformadora.

Em Contornando a Morte, conhecemos brevemente a história dos poucos e únicos anos de vida de Einz, ou Matheryn, que acabou falecendo em 2015 por uma doença chamada ependimoblastoma. O câncer consiste em tumores extremamente malignos e agressivos, que costumam aparecer principalmente em crianças. Então, desde o diagnóstico, a família soube que as chances de cura eram quase inexistentes, uma vez que nenhum paciente sobreviveu à doença.

A pequena Einz passou por 10 cirurgias, 12 sessões de quimioterapia e 20 de radioterapia, mas nada foi o suficiente para que ela apresentasse sinais de melhora. O pai, Nareerat Naovaratpong, e sua esposa, Sahatorn, acabaram decidindo optar pela criogenia na esperança de que a filha voltasse à vida em um futuro distante. Nareerat, cientista, começou a pesquisar a tecnologia ainda no início do diagnóstico, decidindo que seria a melhor opção para tentar "salvar" a criança.

Cena do documentário Contornando a Morte (Imagem: Divulgação/Netflix)

O que é criogenia? 

Ainda antes da morte, os pais recorreram à empresa Alcor para fazer o procedimento de congelamento, com sede em Arizona, nos Estados Unidos. A companhia sem fins lucrativos oferece duas possibilidades de congelamento: o corpo inteiro ou somente o cérebro. O valor do congelamento total, na época, custava US$ 200 mil, enquanto o congelamento do cérebro custava menos da metade, US$ 80 mil. A família escolheu a segunda opção, na expectativa de conseguir tratar o cérebro da garota e, futuramente, transferi-lo para outro corpo, conseguindo, dessa forma, trazer a menina de volta.

Já na fase terminal da doença, o plano era transferir Einz para um hospital especializado na Califórnia, onde ela poderia ser tratada de diferentes maneiras, possivelmente trazendo até uma esperança de salvá-la. Mas, trabalhando com a realidade, a família acreditava que, da Califórnia, o processo de transporte após a morte até o Alcor seria mais rápido. Mas algo inesperado aconteceu: o trato respiratório da criança começou a piorar a cada vez mais. Ela precisou ser entubada para obter respiração artificial, o que a impossibilitava de fazer uma viagem em um voo comercial.

Einz não resistiu. No entanto, a família conseguiu realizar a transferência do cérebro da garota, com sucesso, da Tailândia até os Estados Unidos. O médico especialista, Dr. Kanshepolsy, neurocirurgião, viajou ao país para estar presente no momento da morte de Einz, iniciando o processo de criogenia imediatamente, conseguindo manter o cérebro intacto sem desvincular a cabeça do resto do tronco. A retirada final do órgão aconteceu somente no Arizona.

Para entender melhor esse processo de congelamento, o Canaltech conversou com o médico pediatra Carlos Alexandre Ayoub (CRMSP 19202), fundador do Centro de Criogenia Brasil (CCB), criado depois de anos de estudo sobre células-tronco. O profissional explicou que a criogenia consiste em uma ciência que mantém tecidos e órgãos vivos através do frio, e a técnica começou a ser utilizada em 1982, sendo até hoje responsável pela preservação de, inicialmente, peles e ossos, e hoje, óvulos, espermatozoides, sangue de cordão umbilical, células-tronco, entre outros.

Imagem: Divulgação/Centro de Criogenia Brasil

A tecnologia só veio para somar no mundo da medicina. "A criogenia se presta a guardar células, tecidos e órgãos para serem utilizados posteriormente. Sem a criogenia, não poderíamos guardar células-tronco, órgãos para transplantes, pele para enxerto...", diz o Dr. Ayoub, contando ainda que a tecnologia usa o nitrogênio líquido para o congelamento, que se trata de um gás que está presente em nossas vidas, pois 78% do ar que respiramos é composto de nitrogênio.

"O metabolismo de uma célula ou tecido para a -133°C. O nitrogênio em forma líquida está sempre em -196°, então se nós paramos o metabolismo de uma célula a -133°C, nós temos uma margem de 63°C para segurar esse material por tempo indeterminado", explica. Ayoub conta ainda como funciona o processo da criopreservação, revelando que ela precisa de muitos cuidados.

"Se você congela algo no seu freezer em casa, a -20°C mais ou menos, quando o produto chega a -12°C, entra no ponto de cristalização. A água que está dentro da célula sai para fora dela, a célula murcha, e essa água vai se expandir e formar espículas, que vão perfurar a membrana dessas células", exemplifica o médico. "Portanto, quando você descongela essa carne, por exemplo, você pode utilizá-la, mas não deve congelá-la de novo porque ela estará morta, você vai descongelar uma coisa morta e ela não vai durar muito tempo", completa.

Então, no processo de criopreservação, é preciso trabalhar com alguns produtos, como plasmin e DMSO (Dimetilsulfóxido). Enquanto o plasmin vai entrar nas células e mudar a osmolaridade da água, o DMSO vai fazer uma proteção da célula para evitar que a água saia dela. "Quando chegamos no ponto de cristalização, esta água não vai formar espículas e não vai sair de dentro da célula. Quando nós descongelamos, esta célula volta a se tornar viva, esse tecido volta a se tornar vivo e nós podemos utilizá-lo. Para tudo isso é preciso de muita tecnologia, salas especiais, funcionários altamente treinados", conta Ayoub.

O CCB

O Centro de Criogenia Brasil foi fundado em 2003, coletando apenas células-tronco do sangue de cordão umbilical, conhecidas também como células-tronco hematopoiéticas. Então, em 2013, através de uma intensa pesquisa e o desenvolvimento de uma tecnologia própria, o CCB passou a retirar um segundo tipo de célula-tronco, chamada célula-tronco mesenquimal, que é proveniente do tecido do cordão umbilical e da polpa do dente de leite, que também são congelados no local.

Imagem: Divulgação/Centro de Criogenia Brasil

Mas e o congelamento de corpos inteiros?

A tecnologia de congelamento de corpos inteiros é possível, mas ainda existem muitas limitações, como explica o Dr. Ayoub — e vale reforçar que o procedimento não é feito no Brasil. O médico conta que o trabalho de criopreservação é feito célula por célula, injetando plasmin e DMSO, e após a retirada dessas células de um corpo vivo, é preciso agir rápido, com 48 horas, no máximo, para fazer esse processamento.

Ayoub exemplifica com um caso hipotético: "O indivíduo morreu aqui no Brasil, nós vamos ter que embalsamá-lo, enviar para o refrigerador e enviar para o único banco que faz isso no mundo, que fica nos Estados Unidos. Ele vai chegar lá, as veias já foram totalmente coaguladas, já não tem mais como injetar plasmin nem DMSO, então será feita uma preparação nesse corpo, deixando muito a desejar", conta.

O médico explica que existem em nosso corpo, pelo menos, 70 trilhões de células, e quando uma preservação de cordão umbilical é feita, são congeladas um bilhão de células — portanto, o congelamento do corpo inteiro é um procedimento realmente muito difícil. Então, supondo que exista um procedimento que consiga fazer a preservação nessa situação, existe ainda um outro obstáculo: a memória.

"O que nós somos? Somos a nossa memória. Eu tenho um nome, tenho uma profissão, tenho pai e mãe, moro em um apartamento, sou casado, tenho filhos... A memória se apaga 15 minutos depois que parou a circulação, ela 'zera', ela é um sistema elétrico que fica se movimentando em nosso cérebro e que guarda tudo o que nós temos. Quando essas ondas elétricas param de funcionar, nossa memória desaparece", diz.

Imagem: Divulgação/Centro de Criogenia Brasil

Sendo assim, um paciente que optou pela criogenia após a morte, mas morreu com 80 anos, por exemplo, com a possibilidade de reviver o seu corpo no futuro, acordaria como um bebê: sem saber falar, se movimentar e raciocinar, como se realmente tivesse acabado de sair do útero.

"Não tem como congelar a memória. A memória não é física, ela é elétrica, então você até pode trazer esse indivíduo de volta um dia, o que, na minha opinião, a resposta é não, mas ele vai voltar sem saber o que ele é, não vai ter ideia do que aconteceu na vida dele, não vai nem ter um parente, absolutamente nada", opina o médico, ressaltando que ainda não há muita esperança nesse procedimento. Sobre a história de Einz, Dr. Ayoub diz que se ela for revivida, a situação será melhor do que a de um adulto, porque ela vai voltar a ser criança, nasceria como uma.

Vale deixar claro que o médico conversou com o Canaltech explicando a tecnologia em caráter não-científico, mas sim didático, para que o processo de criopreservação ficasse o mais entendível possível, visto que se tratam de procedimentos complexos e que ainda passarão por muitas evoluções.O congelamento feito no CCB existe para ajudar no tratamento de doenças no sangue, como leucemia, linfomas e anemias malignas. Aqui no Brasil, a aplicação em outras doenças está sendo pesquisada, algumas delas já na fase de testes em humanos, e mundialmente mais de 300 doenças degenerativas também vêm sendo estudadas. As células-tronco do cordão umbilical e da polpa do dente de leite ajudam na regeneração de órgãos e tecidos lesados.

Quando a esperança nunca morre

Voltando ao documentário Contornando a Morte, com a criopreservação do cérebro de Einz, a família criou esperanças para que se um dia o órgão fosse revivido, ela se lembrasse de quem era, quem foram seus pais e resgatasse memórias da breve infância. Então, em uma visita ao Alcor, Matrix, o filho mais velho do casal e aspirante a cientista, conversou com um dos profissionais para entender o futuro. Infelizmente, ele foi alertado que a chance de ela se lembrar do passado era quase inexistente, de cerca de 0,02%. A reação inicial foi um choque, mas ao contar para a família, mesmo assim, eles não perderam a esperança.

O documentário, mais do que mostrar que a tecnologia existe e está sendo desenvolvida, mesmo com vários impedimentos científicos e biológicos, aborda ainda até que ponto a morte não é aceita por muitas famílias. No budismo, religião tradicional da Tailândia, o que foi feito com Einz chega a ser considerado cruel, pois com o seu cérebro "vivo", a sua alma se encontra presa e não consegue se libertar.

Memorial criado pela família de Heinz (Imagem: Divulgação/Netflix)

Ainda assim, a família acredita que, de fato, fez a melhor escolha, e é impossível imaginar o pai, mãe e irmão de Einz não optando pela tecnologia sabendo que ela existe, uma vez que, através cenas reais do desenvolvimento dela — do nascimento até a morte — exibidas no documentário, o afeto que existiu pela criança desde a gravidez foi muito intenso, capaz de explorar o inimaginável para preservar a sua memória de alguma forma.

Fonte: Com informações de Alcor

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