Crítica Shang-Chi │ Muito carisma e artes marciais para renovar o MCU

Crítica Shang-Chi │ Muito carisma e artes marciais para renovar o MCU

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 02 de Setembro de 2021 às 21h10
Divulgação/Marvel Studios

O confronto de um filho com seu pai é uma temática bastante recorrente não apenas no cinema, mas em todas as histórias. Faz parte do nosso imaginário e representa um conflito bastante simbólico: o velho e o novo se enfrentam para que a nova geração se levante melhor e mais forte que a anterior. E Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis retoma essa metáfora com tudo aquilo que um filme da Marvel tem a oferecer — e um pouco mais.

Esse embate que deixaria Freud orgulhoso é algo que tinha ficado bem claro já nos primeiros trailers do filme, mas que se desenrola de forma bem mais profunda ao longo da trama, pois é costurada com toda a temática de tradições e costumes orientais, que dá um tempero a mais a essa narrativa que a gente conhece tão bem. E é isso que torna a nova aventura do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, na sigla em inglês) tão interessante.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers.

Quer ficar por dentro das melhores notícias de tecnologia do dia? Acesse e se inscreva no nosso novo canal no youtube, o Canaltech News. Todos os dias um resumo das principais notícias do mundo tech para você!

Deixando de lado todo o papo de salvar o mundo de todo filme de super-herói, temos uma relação traumática entre pai e filho que faz com que o choque entre eles seja inevitável — ao mesmo tempo em que percebemos que, apesar de tudo, eles não são tão diferentes assim.

Há uma fala em específico que traduz muito bem toda essa questão: “Você é o resultado de todos que o antecederam”, diz uma das personagens, destacando que o legado inclui tanto as coisas boas quanto as ruins e que cabe às novas gerações refinar essa herança. É disso que a imagem do confronto com o pai trata.

E são os Dez Anéis do título que representam isso ao longo do filme. Primeiro na forma da organização criminosa liderada por Wenwu (Tony Chiu-Wai Leung), o verdadeiro Mandarim, que treina seu filho para que ele herde o ódio e o desejo de vingança pela morte da esposa até encontrar uma forma de trazer a amada de volta.

O novo herói traz um tipo de ação diferente ao MCU (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Depois, como os artefatos místicos que são a fonte de poder do vilão e que também são herdados por Shang-Chi em determinado ponto do roteiro. E a jornada do herói está justamente em entender que é preciso ser melhor do que seu pai, dando um novo sentido àquela arma. É evoluir e superar a geração anterior, mas sem rejeitá-la.

O mais interessante de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é que ele constrói toda essa mensagem sem cair no piegas ou no óbvio. Tudo é embalado no clima de super-heróis que a gente conhece e com uma estética oriental que dá novo gás à pancadaria do MCU e mostra o quanto a Fase 4 ainda tem fôlego para nos surpreender.

Uma porradaria de encher os olhos

Desde o primeiro trailer, uma coisa era certa: Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis ia ser um filme com excelentes cenas de ação. A produção abraçou a temática oriental e trouxe toda a estética dos filmes de kung-fu, mas sem cair nos clichês que a gente viu em Hollywood por tanto tempo — e que inspirou a criação do personagem nas HQs, inclusive.

Fazia muito tempo que o cinema não trazia ação ao estilo oriental em grande estilo (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

As peripécias à la Jackie Chan estão presentes, mas em uma escala muito maior e sem parecer exagerado. Soa mais como uma homenagem do que uma muleta, já que o cerne mesmo está na troca de socos, chutes e na leveza das acrobacias. Todas as cenas de luta são tão bem coreografadas e dinâmicas que não há como não se empolgar em cada uma delas, seja em um bambuzal ao melhor estilo O Tigre e o Dragão — a comparação é inevitável, embora seja algo bastante pontual — ou dentro de um ônibus. É tudo de tirar o fôlego.

Nesse quesito, o ator Simu Liu se destaca e faz por merecer o título de Mestre do Kung-Fu. Além de ser muito carismático, ele convence como um grande lutador e faz parecer com que todas as lutas sejam verossímeis, inclusive aquelas cheias de piruetas e maluquices. Para efeitos de comparação, é algo completamente diferente do que a Netflix havia feito com Punho de Ferro, que possui um nível de habilidade bastante parecido, mas que deixava muito a desejar nas artes marciais.

A cena do ônibus tem tudo para ser tão memorável quanto a do elevador em Capitão América: Soldado Invernal (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

No caso de Shang-Chi, é gostoso demais ver o herói entrando em ação. Tudo é tão rápido, ágil e inesperado que ele realmente parece ter superpoderes. É um estilo de cinema que estava em baixa há algum tempo, principalmente nessa geração pós-Cavaleiro das Trevas, que padronizou essa pancadaria mais seca e sem tantos floreios. Assim, quando vemos todas as peripécias de Simu Liu por aqui, parece coisa de outro mundo — e esse estranhamento é muito bem aproveitado em A Lenda dos Dez Anéis. Pode ter certeza que a cena do ônibus vai se tornar tão memorável quanto a do elevador em Capitão América: Soldado Invernal.

Por outro lado, o filme sofre do mesmo mal de Pantera Negra de deixar de lado toda essa ação bem coreografada e empolgante de lado para fazer com que a luta final seja um show de efeitos digitais sem muita graça. Não chega a ser lamentável como os bonecos de T'Challa e Killmonger, mas o confronto de Shang-Chi e Wenwu perde muito do impacto quando vira um show de luzinhas. A resolução ainda é interessante, com o herói usando as habilidades da mãe para derrotar o pai, mas as porradas acrobáticas fazem falta e tiram parte do impacto do embate que é o cerne da história.

Novas estrelas

Outro ponto que chama muito a atenção em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é como todo o elenco de apoio é sensacional. A começar pelo vilão Wenwu, que é tão bem construído que você compra suas motivações e chega a torcer por ele. Ainda que ele carregue aquela imagem do vilão clássico que passa por cima de todos — inclusive da própria família — para chegar aos seus objetivos, o personagem ganha camadas que fazem você se simpatizar com ele apesar de tudo.

Todo o elenco está muito bom, mas os coadjuvantes roubam a cena (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Já do lado dos mocinhos, o destaque fica com o alívio cômico de Katy (Awkwafina), que brilha desde a sua primeira aparição com ótimos diálogos e representando bem aquele humor típico da Marvel. Até Xialing (Meng'er Zhang), a irmã do protagonista, tem um arco próprio muito bem apresentado e com grande potencial para ser mais explorado no futuro.

Em relação a essas coadjuvantes, elas são tão carismáticas e magnéticas que acabam virando um problema para o próprio Shang-Chi. Simu Liu faz um ótimo trabalho como o novo herói da Marvel, mas é constantemente ofuscado pelo restante do elenco, que é sempre ótimo, e às vezes acaba passando despercebido em momentos que deveria brilhar, principalmente na segunda metade do filme.

Bem-vindo ao circo

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é a prova de que a Marvel ainda sabe contar boas histórias e, acima de tudo, se reinventar. Depois de um fraco Viúva Negra, o estúdio traz uma aventura simples, mas cheia de significados e que não se parece em nada com aquilo que vimos ao longo da última década — o que é ótimo. Toda a temática oriental é muito bem explorada sem cair nos clichês de Hollywood do gênero e usada para trazer um novo frescor aos filmes de super-heróis.

Shang-Chi é mais um herói desconhecido a surpreender no MCU (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

E é aqui que a imagem do pai que enfrenta o filho se faz presente mais uma vez — ainda que, no caso, representada na forma dessa transição de fases do MCU. “Você é o resultado de todos que o antecederam” resume muito bem o que A Lenda dos Dez Anéis é, para o bem e para o mal. Ao mesmo tempo em que ele se aproveita de todos os acertos do Marvel Studios na hora de contar histórias, ele não rejeita os maneirismos, exageros e mesmo os clichês associados à representação oriental no cinema, ressignificando tudo isso e vestindo-os com orgulho para criar algo novo e melhor.

Por isso, as comparações com Pantera Negra acabam sendo inevitáveis, ainda que injustas. Havia uma expectativa de que Shang-Chi fosse tão representativo quanto a história do rei de Wakanda e, embora seja muito interessante ver um elenco composto majoritariamente por atores orientais, a essência dos dois filmes são bem diferentes. Enquanto Pantera Negra discutia orgulho e pertencimento de suas raízes, Shang-Chi fala sobre outros temas, sobretudo a questão de herança e legado. A relação com as origens está presente, mas não com a mesma força e voltada para outras questões.

Bem-vindo ao circo, Shang-Chi (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Mas isso está longe de fazer de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis um filme menor. O resultado é muito positivo e é uma pena que um filme como esse saia em um momento em que as bilheterias ainda sofrem com a pandemia da COVID-19, já que essa é uma aventura que deveria ser vista por mais gente.

Embora a gente não saiba quando Shang-Chi vai retornar ao MCU, o próprio filme dá indícios de que veremos o personagem mais uma vez. E seria realmente um crime a Marvel deixar de lado personagens tão carismáticos e interessantes quanto esses e que adicionam algo realmente novo à ação. Se depender do clima que A Lenda dos Dez Anéis apresentou, a Fase 4 da Marvel promete muito.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.