Crítica Shang-Chi │ Muito carisma e artes marciais para renovar o MCU

Crítica Shang-Chi │ Muito carisma e artes marciais para renovar o MCU

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 02 de Setembro de 2021 às 21h10
Divulgação/Marvel Studios

O confronto de um filho com seu pai é uma temática bastante recorrente não apenas no cinema, mas em todas as histórias. Faz parte do nosso imaginário e representa um conflito bastante simbólico: o velho e o novo se enfrentam para que a nova geração se levante melhor e mais forte que a anterior. E Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis retoma essa metáfora com tudo aquilo que um filme da Marvel tem a oferecer — e um pouco mais.

Esse embate que deixaria Freud orgulhoso é algo que tinha ficado bem claro já nos primeiros trailers do filme, mas que se desenrola de forma bem mais profunda ao longo da trama, pois é costurada com toda a temática de tradições e costumes orientais, que dá um tempero a mais a essa narrativa que a gente conhece tão bem. E é isso que torna a nova aventura do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, na sigla em inglês) tão interessante.

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers.

Deixando de lado todo o papo de salvar o mundo de todo filme de super-herói, temos uma relação traumática entre pai e filho que faz com que o choque entre eles seja inevitável — ao mesmo tempo em que percebemos que, apesar de tudo, eles não são tão diferentes assim.

Há uma fala em específico que traduz muito bem toda essa questão: “Você é o resultado de todos que o antecederam”, diz uma das personagens, destacando que o legado inclui tanto as coisas boas quanto as ruins e que cabe às novas gerações refinar essa herança. É disso que a imagem do confronto com o pai trata.

E são os Dez Anéis do título que representam isso ao longo do filme. Primeiro na forma da organização criminosa liderada por Wenwu (Tony Chiu-Wai Leung), o verdadeiro Mandarim, que treina seu filho para que ele herde o ódio e o desejo de vingança pela morte da esposa até encontrar uma forma de trazer a amada de volta.

O novo herói traz um tipo de ação diferente ao MCU (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Depois, como os artefatos místicos que são a fonte de poder do vilão e que também são herdados por Shang-Chi em determinado ponto do roteiro. E a jornada do herói está justamente em entender que é preciso ser melhor do que seu pai, dando um novo sentido àquela arma. É evoluir e superar a geração anterior, mas sem rejeitá-la.

O mais interessante de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é que ele constrói toda essa mensagem sem cair no piegas ou no óbvio. Tudo é embalado no clima de super-heróis que a gente conhece e com uma estética oriental que dá novo gás à pancadaria do MCU e mostra o quanto a Fase 4 ainda tem fôlego para nos surpreender.

Uma porradaria de encher os olhos

Desde o primeiro trailer, uma coisa era certa: Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis ia ser um filme com excelentes cenas de ação. A produção abraçou a temática oriental e trouxe toda a estética dos filmes de kung-fu, mas sem cair nos clichês que a gente viu em Hollywood por tanto tempo — e que inspirou a criação do personagem nas HQs, inclusive.

Fazia muito tempo que o cinema não trazia ação ao estilo oriental em grande estilo (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

As peripécias à la Jackie Chan estão presentes, mas em uma escala muito maior e sem parecer exagerado. Soa mais como uma homenagem do que uma muleta, já que o cerne mesmo está na troca de socos, chutes e na leveza das acrobacias. Todas as cenas de luta são tão bem coreografadas e dinâmicas que não há como não se empolgar em cada uma delas, seja em um bambuzal ao melhor estilo O Tigre e o Dragão — a comparação é inevitável, embora seja algo bastante pontual — ou dentro de um ônibus. É tudo de tirar o fôlego.

Nesse quesito, o ator Simu Liu se destaca e faz por merecer o título de Mestre do Kung-Fu. Além de ser muito carismático, ele convence como um grande lutador e faz parecer com que todas as lutas sejam verossímeis, inclusive aquelas cheias de piruetas e maluquices. Para efeitos de comparação, é algo completamente diferente do que a Netflix havia feito com Punho de Ferro, que possui um nível de habilidade bastante parecido, mas que deixava muito a desejar nas artes marciais.

A cena do ônibus tem tudo para ser tão memorável quanto a do elevador em Capitão América: Soldado Invernal (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

No caso de Shang-Chi, é gostoso demais ver o herói entrando em ação. Tudo é tão rápido, ágil e inesperado que ele realmente parece ter superpoderes. É um estilo de cinema que estava em baixa há algum tempo, principalmente nessa geração pós-Cavaleiro das Trevas, que padronizou essa pancadaria mais seca e sem tantos floreios. Assim, quando vemos todas as peripécias de Simu Liu por aqui, parece coisa de outro mundo — e esse estranhamento é muito bem aproveitado em A Lenda dos Dez Anéis. Pode ter certeza que a cena do ônibus vai se tornar tão memorável quanto a do elevador em Capitão América: Soldado Invernal.

Por outro lado, o filme sofre do mesmo mal de Pantera Negra de deixar de lado toda essa ação bem coreografada e empolgante de lado para fazer com que a luta final seja um show de efeitos digitais sem muita graça. Não chega a ser lamentável como os bonecos de T'Challa e Killmonger, mas o confronto de Shang-Chi e Wenwu perde muito do impacto quando vira um show de luzinhas. A resolução ainda é interessante, com o herói usando as habilidades da mãe para derrotar o pai, mas as porradas acrobáticas fazem falta e tiram parte do impacto do embate que é o cerne da história.

Novas estrelas

Outro ponto que chama muito a atenção em Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é como todo o elenco de apoio é sensacional. A começar pelo vilão Wenwu, que é tão bem construído que você compra suas motivações e chega a torcer por ele. Ainda que ele carregue aquela imagem do vilão clássico que passa por cima de todos — inclusive da própria família — para chegar aos seus objetivos, o personagem ganha camadas que fazem você se simpatizar com ele apesar de tudo.

Todo o elenco está muito bom, mas os coadjuvantes roubam a cena (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Já do lado dos mocinhos, o destaque fica com o alívio cômico de Katy (Awkwafina), que brilha desde a sua primeira aparição com ótimos diálogos e representando bem aquele humor típico da Marvel. Até Xialing (Meng'er Zhang), a irmã do protagonista, tem um arco próprio muito bem apresentado e com grande potencial para ser mais explorado no futuro.

Em relação a essas coadjuvantes, elas são tão carismáticas e magnéticas que acabam virando um problema para o próprio Shang-Chi. Simu Liu faz um ótimo trabalho como o novo herói da Marvel, mas é constantemente ofuscado pelo restante do elenco, que é sempre ótimo, e às vezes acaba passando despercebido em momentos que deveria brilhar, principalmente na segunda metade do filme.

Bem-vindo ao circo

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é a prova de que a Marvel ainda sabe contar boas histórias e, acima de tudo, se reinventar. Depois de um fraco Viúva Negra, o estúdio traz uma aventura simples, mas cheia de significados e que não se parece em nada com aquilo que vimos ao longo da última década — o que é ótimo. Toda a temática oriental é muito bem explorada sem cair nos clichês de Hollywood do gênero e usada para trazer um novo frescor aos filmes de super-heróis.

Shang-Chi é mais um herói desconhecido a surpreender no MCU (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

E é aqui que a imagem do pai que enfrenta o filho se faz presente mais uma vez — ainda que, no caso, representada na forma dessa transição de fases do MCU. “Você é o resultado de todos que o antecederam” resume muito bem o que A Lenda dos Dez Anéis é, para o bem e para o mal. Ao mesmo tempo em que ele se aproveita de todos os acertos do Marvel Studios na hora de contar histórias, ele não rejeita os maneirismos, exageros e mesmo os clichês associados à representação oriental no cinema, ressignificando tudo isso e vestindo-os com orgulho para criar algo novo e melhor.

Por isso, as comparações com Pantera Negra acabam sendo inevitáveis, ainda que injustas. Havia uma expectativa de que Shang-Chi fosse tão representativo quanto a história do rei de Wakanda e, embora seja muito interessante ver um elenco composto majoritariamente por atores orientais, a essência dos dois filmes são bem diferentes. Enquanto Pantera Negra discutia orgulho e pertencimento de suas raízes, Shang-Chi fala sobre outros temas, sobretudo a questão de herança e legado. A relação com as origens está presente, mas não com a mesma força e voltada para outras questões.

Bem-vindo ao circo, Shang-Chi (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

Mas isso está longe de fazer de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis um filme menor. O resultado é muito positivo e é uma pena que um filme como esse saia em um momento em que as bilheterias ainda sofrem com a pandemia da COVID-19, já que essa é uma aventura que deveria ser vista por mais gente.

Embora a gente não saiba quando Shang-Chi vai retornar ao MCU, o próprio filme dá indícios de que veremos o personagem mais uma vez. E seria realmente um crime a Marvel deixar de lado personagens tão carismáticos e interessantes quanto esses e que adicionam algo realmente novo à ação. Se depender do clima que A Lenda dos Dez Anéis apresentou, a Fase 4 da Marvel promete muito.

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