Crítica | Era Uma Vez em Hollywood é um ótimo Tarantino, mas exige referências

Por Rui Maciel | 14 de Agosto de 2019 às 10h19
Divulgação / Sony Pictures

Você não precisa ter visto toda a obra de Quentin Tarantino para saber que todos os seus filmes trazem referências cinematográficas aos montes. De Cães de Aluguel a Pulp Fiction, de Kill Bill a Bastardos Inglórios, de Jack Brown a Os Oito Odiados... todos, em maior ou menor escala, trazem homenagens a longas e gêneros que moldaram o diretor e seu modo de filmar.

No entanto, em todos eles, caso o espectador não conseguisse pescar tais referências, isso não prejudicava o entendimento da história. Claro que sacá-las tornava a experiência mais prazerosa, mas, ainda assim, era possível curtir os filmes — tanto que muitos deles se tornaram ícones da cultura pop atual. No entanto, em Era Uma Vez em... Hollywood, a diferença entre gostar do filme ou não dependerá, em grande medida, do conhecimento que você tem da época em que ele acontece.

Explico: o filme se passa no final dos anos 1960 para 1970, quando o cinema e a TV, digamos, mais ingênuos, estavam dando seus últimos suspiros. A sétima arte, principalmente, começa a passar por uma mudança radical, com as megaproduções dos grandes estúdios perdendo espaço para filmes mais autorais — cujo grande divisor de águas foi Sem Destino, lançado em 1969 — e que deu origem a diretores do calibre de Martin Scorcese, Francis Ford Copolla, William Friedkin, Peter Bogdanovich, Steven Spielberg, George Lucas, Roman Polanski, entre outros.

E essa transformação se passa durante o verão de 1969, em Los Angeles, quando o movimento “paz e amor” promovido pelos hippies teria seu fim, com uma série de assassinatos praticados pelo seita da Família Manson — comandada pelo seu guru, Charles Manson.

E é nesse cenário que você acompanha a saga de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio, em uma atuação irretocável e, desde já, candidatíssimo ao Oscar), um ator que foi protagonista de uma série de faroeste de sucesso na TV e que, depois de fracassar ao tentar uma carreira no cinema, precisa se contentar em aparecer em pontas em outras atrações televisivas, sempre como vilão, enquanto tenta cavar outros papéis. Ao seu lado está Cliff Booth (Brad Pitt, também excelente, ainda que a sua atuação tenha um ar de “eu já vi isso antes”), seu dublê, amigo e faz-tudo, que também funciona como uma espécie de voz da consciência do ator, ao mesmo tempo que tenta faturar uns trocados nas produções em que Dalton ganha um papel.

Rick Dalton e seu fiel escudeiro Cliff Booth: bromance na alegria e na tristeza...ou quase isso (Imagem: Sony Pictures)

E paralela a eles, vemos também o dia a dia de Sharon Tate (Margot Robie, também excelente), uma atriz em ascensão, casada com Roman Polanski, então o diretor mais badalado da época, depois do sucesso de O Bebê de Rosemary e que se muda com o marido para uma casa bem ao lado da de Dalton.

Margot Robie enche nossos corações de amor como Sharon Tate (Imagem: Sony Pictures)

E é com esses três protagonistas que o filme vai se desenrolando, lento, sem pressa, com cada personagem se desenvolvendo, com alguns flashbacks aqui e ali para você entender melhor a história de cada um. Tudo em uma Los Angeles da época, muito bem reconstituída, e com uma trilha sonora excelente, uma marca registrada dos filmes de Tarantino.

E, além das ótimas músicas, todos elementos que fazem de Era Uma Vez em... Hollywood um filme de Tarantino, estão lá: diálogos afiados, a aparição de dezenas de ótimos coadjuvantes, as inúmeras referências a diferentes estilos de filmes, boas piadas, situações que beiram o absurdo e as cenas de ultraviolência, ainda que bem dosadas.

Cliff Booth vs. Bruce Lee: essa cena é uma das melhores coisas que você verá em 2019. Sério (Imagem: Sony Pictures)

Dito tudo isso, Era Uma Vez em... Hollywood não segue uma linha narrativa convencional, com a estrutura “começo-meio-fim” bem delimitada. Na verdade, conforme o filme avança, você não sabe muito bem onde ele vai parar e várias das cenas sequer conversam entre si. O seu grande destaque não é o ponto final da jornada, e sim as histórias de cada personagem, no qual Tarantino se debruça e detalha. E é aí que ter conhecimento sobre as referências daquela época faz toda a diferença. Afinal, se você não souber, por exemplo, quem foi a Família Manson e que eles foram os responsáveis pelo brutal assassinato de Sharon Tate (calma, isso não é um spoiler), você não entenderá muito do que acontecerá a partir do terço final do filme, por exemplo. Ou, se você não souber nada sobre o caso Robert Wagner e Natalie Wood, não compreenderá por que Cliff Booth é quem ele é. E se não tiver um conhecimento mínimo sobre as mudanças sofridas no cinema e da TV da época, também ficará mais complicado entender as dores e as inseguranças de Rick Dalton e seus conflitos entre o velho ideal masculino e a sensibilidade de um artista inseguro, que só queria ser aceito por seus pares.

Membros da Família Mason: a era "Paz e Amor" dos hippies acabou de forma trágica (Imagem: Sony Pictures)

Então você me pergunta: “Pôxa, se eu não souber nenhuma dessas referências da época, eu vou achar o filme uma porcaria?” Não necessariamente. Taratino é um cineasta competente demais para fazer com que Era Uma Vez em... Hollywood seja um filme chato e consegue prender até o mais leigo dos espectadores em diversas cenas, principalmente na parte final. Mas encarar esse longa cercado de mais informações daquela época com certeza fará com que você o aprecie muito mais.

E se quiser viver essa experiência de forma completa, leia antes o livro Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock ́n ́Roll salvou Hollywood, do jornalista Peter Biskind. Você vai encarar essa carta de amor ao cinema do diretor de Pulp Fiction com muito mais prazer.

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