Seven: Os Sete Crimes Capitais é uma obra-prima em apenas seis minutos

Por Sihan Felix | 27 de Julho de 2020 às 09h45
Playarte Pictures

Desde 1995, David Fincher tem sido um diretor do cinema de Hollywood com coragem para abordar temas polêmicos e com habilidade para transformar um filme de história incômoda em um espelho de época. Mas ele não reflete o mundo gratuitamente. O conhecimento de linguagem de cinema de Fincher consegue, sempre, promover uma experiência – por mais que esta seja o incômodo. Se pudéssemos excluir Alien 3 (de 1992, seu primeiro longa-metragem), prejudicado por imposições do estúdio (e que, mesmo assim, não é desprezível), e o burocrático, mas interessante, O Curioso Caso de Benjamim Button (de 2008), restariam apenas Zeitgeists quase explícitos – espíritos de uma época em síntese.

Especialmente até 2010, com aquele que é considerado por muitos uma obra-prima (A Rede Social), Fincher parecia disposto a abraçar esse conjunto intelectual e cultural do mundo em seus filmes. Nesse sentido, Clube da Luta (de 1999) é um aforisma direto à inércia e ao consumismo do final do século passado (que parece caber ainda mais por hoje); O Quarto do Pânico (de 2002) é uma menção, ainda que cautelosa, à insegurança crescente, à sensação de perigo constante e de prisão na sociedade no século que se iniciava; e o citado A Rede Social (de 2010) é um diagnóstico preciso do que são as relações humanas e, ainda mais, do que elas estão se tornando (alicerçado, ainda, por uma história real).

Seven: Os Sete Crimes Capitais (disponível na Netflix), antes, porém, pode ser lido como uma reflexão sobre a desesperança e o pessimismo (e, naturalmente, seus antônimos). De repente, também, sobre a perda de valores da sociedade e, ainda, encaixa-se, com ironia, ao Ano das Nações Unidas para a Tolerância (1995, ano do lançamento exatamente), algo que o roteirista Andrew Kevin Walker (de O Lobisomem – filme de 2010), por meio do detetive David Mills (Brad Pitt), ignorou.

Quatro minutos de abertura

Construído sobre (e sob) o clichê da dupla formada por um policial veterano e por um novato inquieto que se une para uma perseguição, o filme não tarda para demonstrar que o lugar-comum acaba nesse aspecto. Já nas cenas iniciais, Fincher, por meio da direção de arte de Gary Wissner (de Júnior), apresenta seus protagonistas com tanta sutileza e consciência que talvez nem mesmo um tabuleiro de xadrez passe despercebido. Enquanto o detetive Somerset (Morgan Freeman) é apresentado como alguém regrado, racional (vide o tabuleiro), organizado (seus objetos, meticulosamente dispostos, comprovam), centrado (desde o figurino sóbrio – idealizado por Michael Kaplan, de Star Wars: A Ascensão Skywalker) e de poucas expressões faciais (uma construção certeira de Freeman), Mills surge de modo repentino em cena, vindo de baixo (subindo escadas), mascando um chiclete, com uma gravata descolada e sorrindo (quase que ironicamente) ao se apresentar.

Enquanto isso, a fotografia de Darius Khondji (do recente Joias Brutas) traduz a ideia de podridão que os detetives enfrentarão por meio de uma iluminação esverdeada (algo que Martin Scorsese idealizou para o clássico Taxi Driver: Motorista de Táxi), sempre intensificada quando Somerset se põe a pensar, ratificando e antecipando a racionalidade do jogo que ambos estarão participando. Ao mesmo tempo, quando Somerset e Mills estão finalmente juntos, o ângulo baixo da câmera (contra-plongée) os revela com grandeza (apesar das suas diferenças), como heróis.

Tudo isso acontece em, somente, quatro minutos de filme: personagens apresentados, complexos, as funções narrativas de ambos expostas, a opressão do trabalho contra a perversidade de um serial killer já esteticamente fundamentada, toda uma simbologia bem trabalhada pela mise-en-scène de Fincher… Antes mesmo dos créditos iniciais, Seven: Os Sete Crimes Capitais pode já estar intimamente fixado, seja no consciente ou no inconsciente.

Os créditos iniciais

Por sua vez, os créditos iniciais são tão intimamente ligados ao filme que parecem completar – ou resumir – a experiência de assisti-lo. Fincher, aliás, tem uma relação sempre muito próxima dos créditos dos seus filmes, algo que Alfred Hitchcock, especialmente junto ao legendário designer gráfico Saul Bass, fazia. Por essa perspectiva, esses créditos – que podem ser assistidos como os créditos finais do curta-metragem aberto que é a introdução – tem tantos significados ocultos que merecem uma decifragem.

O primeiro ponto (bem difundido) é a não inserção de Kevin Spacey (intérprete do John Doe) a pedido do próprio ator para, com isso, manter oculto o intérprete do assassino. O segundo (bem velado) é um sarcasmo com o lema americano In God, we trust (Em Deus, nós confiamos em tradução livre). Uma ironia com mais de uma interpretação: No final desses créditos, é visto um jornal, de cabeça para baixo, com parte da frase em letras grandes. Uma tesoura, então, recorta a palavra God (Deus), deixando o vazio em seu lugar. Em quem nós confiamos agora?

Caption

O criador dessa abertura, Kyle Cooper (o mesmo designer da abertura das séries The Walking Dead e American Horror Story – sendo, a desta, referência clara ao filme em questão), transforma um segundo e alguns centésimos (marquei por curiosidade) em uma crítica ao conformismo e às analogias de causa e efeito que não se adequam à lógica formal (falando, evidentemente, aos compatriotas do lema). Talvez, não se possa responder por qualquer pessoa, mas, até o final dos 127 minutos do filme completo, pode ficar claro que Mills aprende a não confiar em quem quer que seja. Mas podes existir exceções: seus cães (God pode estar de cabeça para baixo por mais de um motivo).

Seven: Os Sete Crimes Capitais, completando 25 anos de idade, permanece como uma obra-prima, um dos melhores thrillers do cinema e, sem dúvida, o tempo não o excluirá de permanecer na história.

No mais:

"Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua por meio de filosofias e vãs sutilezas segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo e, não, segundo Cristo;
Porque, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade;
E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade;" – Colossenses 2: 8-10

A cabeça.

Pois…

Bons e ruins filmes para nós!

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