Crítica | Infiltrado na Klan é um filme histórico

Por Sihan Felix | 26 de Julho de 2019 às 18h20
Universal Pictures

Em 1989, Faça a Coisa Certa recebeu os prêmios maiores das associações de críticos de cinema de Los Angeles e de Chicago, duas das mais importantes do EUA. Ainda esteve perto dos mesmos prêmios por diversas entidades ao redor do seu país e do mundo. Mas, nas premiações, mais populares, como Globo de Ouro, Oscar e Cannes, o filme saiu de mãos abanando. Parece que não era o momento para ele (o filme) e para Spike Lee (seu diretor). Um filme-denúncia forte, no ano em que a Guerra Fria chegaria ao fim, talvez fosse um filme impactante demais com sua realidade irônica. Aquele era um ano mais blasé, para um filme como Conduzindo Miss Daisy.

Faça a Coisa Certa (Imagem: Universal Pictures)
Faça a Coisa Certa (Imagem: Universal Pictures)

Durante a sua carreira, Lee voltaria a tentar outros filmes, sempre com estímulo de denúncia. Passando pelo excelente biográfico Malcom X (1992), pelo drama musical com toques de comédia cruel A Hora do Show (2000) e por diversos outros que não deixaram seu nome cair no esquecimento. Entre curtas, longas, documentários, ficções, segmentos, vídeos institucionais e episódios de séries, são mais de 80 trabalhos dirigidos por ele em 39 anos como diretor.

Cuidado! Daqui em diante a crítica pode conter spoilers!

Antes que seja tarde demais

Em meio ao segundo ato de Infiltrado na Klan (que estará disponível no Telecine Play a partir de 1º de agosto de 2019), Ron Stallworth (John David Washington) – o primeiro oficial negro contratado pelo Departamento de Polícia de Colorado Springs (e um dos primeiros do país) – discute com um superior (o Sargento Trapp, interpretado por Ken Garito) sobre o futuro da Ku Klux Klan. Ele (Ron) havia se infiltrado na KKK e conversado, através de ligações telefônicas, com David Duke (Topher Grace), o diretor da organização. Trapp sugere que Duke está de olho na política através de uma estratégia baseada em polêmicas. Ron ri, porque acredita que os sujeitos, apesar de serem potencialmente perigosos, são ridículos.

– A América nunca elegeria alguém como David Duke como presidente.
– Por que você não acorda?!

Parece estranho, dentro da filmografia de Spike Lee, que o alerta para o perigo do crescimento de uma entidade como a Kun Klux Klan seja feito por um personagem branco. É um diálogo simples, que simbolicamente já havia sido construído ao final de um dos primeiros filmes do diretor, o Revolução Estudantil (1988), mas que recebe a complexidade do quanto os acontecimentos são claros e, muitas vezes, evita-se enxergá-los. Esse alerta partindo de um branco, de posição superior dentro da polícia, soa como um despertador dentro de um pesadelo-mais-do-que-real, do qual é difícil acordar, mas necessário antes que seja tarde demais.

Iniciando com uma das cenas mais emblemáticas do cinema, Infiltrado na Klan mostra Scarlett (Vivien Leigh) em ...E o Vento Levou caminhando por uma praça cheia de mortos e feridos, todos sob uma bandeira de batalha esfarrapada. Logo em seguida, Lee faz um paralelo genial entre a ascensão do cinema enquanto arte e o surgimento do segundo grupo da KKK: Apresentada pelo Dr. Kennebrew Beauregard (o quase sempre irônico Alec Baldwin), a cena revela a exibição de O Nascimento de uma Nação, filme que é peça-chave da sedimentação da linguagem cinematográfica, mas que foi (e é) altamente criticado por retratar os afro-americanos (interpretados por atores brancos com as caras pintadas de negro – através da prática de blackface) como ininteligentes e sexualmente agressivos em relação às mulheres brancas. O filme, coescrito e dirigido por D.W. Griffith, também apresenta a Ku Klux Klan (cuja fundação original é dramatizada) como uma força heroica.

O Nascimento de uma Nação
O Nascimento de uma Nação (Imagem: Reprodução)

A verdade é que o cinema tem um poder que talvez seja percebido por poucos cineastas. Se aquele filme foi lançado em 1915 e dele veio uma parcela considerável do incentivo para que surgisse uma nova horda da KKK, Spike Lee, aqui, promove não somente o seu costumeiro e sempre bem-vindo discurso contra o racismo, mas também uma investida direta, sem arrodeios, sobre alguns dos papéis da arte na contemporaneidade: denúncia, provocação, fazer pensar.

Uma marca difícil de ser descontruída

Como bem relembra Infiltrado na Klan em seu desfecho, em uma transição da reconstituição do passado (o ficcional) para uma realidade que poderia ser distópica se não fosse a realidade em si, Lee revela que os EUA de hoje têm um presidente que o legítimo David Duke gosta bastante. O mais forte, porém, é que o corroteirista e diretor não está muito preocupado em explicar exatamente como o ser humano chegou a esse ponto. Ele está claramente angustiado pelo fato de que, na verdade, pouco se saiu de um ponto inicial. Mas isso, para Lee, não significa que nada mudou, mas que atitudes e ideias racistas acompanham a humanidade como uma marca difícil de ser desconstruída.

Ainda (e voltando a’O Nascimento de uma Nação), Spike Lee utiliza uma das inovações que Griffith deu ao cinema, a edição paralela, para a construção de uma sequência absurda (no melhor sentido dessa palavra): Enquanto um grupo branco come pipoca em algazarra, um grupo de estudantes negros se reúne do outro lado da cidade para ouvir o testemunho de Jerome Turner (Harry Belafonte), que fala do linchamento do seu melhor amigo no Texas, na época em que o filme de 1915 estava nos cinemas.

Infiltrado na Klan (Imagem: Universal Pictures)
Infiltrado na Klan (Imagem: Universal Pictures)

O diretor, por outro lado e naturalmente, demonstra total liberdade com Ron, a personagem de Washington (filho do Denzel). Ele é alguém que parece refletir a própria carreira de Lee. Como lidar com o sistema? Trabalhando dentro dele? Empurrando-o do lado de fora? Ou quebrando ele em pedaços?

A realidade mais clara é a de que, como na batalha de ...E o Vento Levou, sempre alguém irá passear sobre os corpos. Alguém, igualmente, posará de vencedor. Sempre, também, haverá “um general de cinco estrelas com o c* na mão” (citando Renato Russo). Quem sofre são os soldados, aqueles que vão à batalha. E, ao expor uma bandeira norte-americana de cabeça para baixo dentro do seu próprio país, Lee cede três interpretações: vergonha, emergência e protesto. E todas são válidas.

– Por que você não acorda?!

Um filme histórico

Infiltrado na Klan está recheado de toda a polêmica necessária que perfura a carreira do seu diretor. Ele (o diretor) é um provocador que não permite que o seu filme divirta sem restrições. Estar confortável demais assistindo a BlacKkKlansman (no original) é assinar um atestado de indiferença para a luta de uma minoria achincalhada.

Assim, assistir a Infiltrado na Klan é estar diante de um filme sarcasticamente divertido e, ao mesmo tempo, pesadamente atual. Ao final, a direção pode ser a mais incrível de uma carreira; a fotografia pode ter uma crueza com propósitos claros de construir toda uma realidade indigesta (e ao mesmo tempo aceitável demais); as atuações podem estar inteiramente em seus lugares mais apropriados... toda a técnica pode estar em sintonia (e está), mas a grandeza do filme está em sua mensagem, em sua força político-social.

Infiltrado na Klan (Imagem: Universal Pictures)
Infiltrado na Klan (Imagem: Universal Pictures)

Spike Lee é um gigante. Infiltrado na Klan é um filme histórico.

Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e indicado a outras cinco estatuetas, Infiltrado na Klan está disponível no Telecine Play a partir da quinta-feira, 1º de agosto.

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