Os 10 melhores filmes da década (do circuito mais restrito)

Por Sihan Felix | 07 de Janeiro de 2020 às 18h40
A24

Na lista anterior, sobre os melhores da década do circuito mais comercial, iniciei comentando sobre como lido com esses períodos de 10 anos e sobre a óbvia incapacidade de se assistir a todos os filmes lançados para que a lista fique pessoalmente mais completa. Aqui tudo piora. Se no dito circuito mais comercial, que abrange os filmes lançados na maioria dos cinemas e cidades brasileiros e nas plataformas de streaming mais acessadas, já existe a impossibilidade de se ter assistido a todos os lançamentos do início de 2010 ao final de 2019, assistir a todos os filmes menos populares por aqui é uma barreira praticamente intransponível.

Vale sempre ressaltar que o cinema, como arte que é, é subjetivo e taxar um filme de melhor que outro vai muito além de técnica e conhecimento: são questões pessoais que nos fazem construir alguma relação mais íntima com determinados filmes. E são justamente esses pontos que garantem as posições em uma lista. Acredito que, somente dessa forma – reconhecendo a impossibilidade objetiva –, uma lista pode ser sincera de fato.

Pensando nisso, procurei, ao menos, listar um filme lançado de forma mais abrangente e comercial (lista 1), um que foi visto em um circuito mais reduzido (aqui) e um brasileiro (a próxima) para cada ano (2010 a 2019). Listei outros como menções honrosas, sabendo que poderiam estar na lista principal, nem estar por aqui... e ciente de que faltam outros tantos porque não assisti a todos os filmes do mundo e, claro, porque estou ciente de que a avaliação de uma arte estará sempre ligada à identificação, o que é particular e intransferível acima de tudo.

Autores como Woody Allen, que parecem se equilibrar entre o mais comercial e o circuito restrito, optei por encaixar na lista abaixo. Isso porque, apesar de estar radicado em um capital, Allen, Almodóvar e alguns outros que possamos chamar de, talvez, "mais conhecidos", estreiam por aqui de maneira muito tímida. Inclusive, a única exceção foi A Pele que Habito (de Almodóvar) que estreou em um número bem razoável de salas e está na primeira lista.

Pois vamos lá:

10. Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (Loong Boonmee raleuk chat), 2010

Quando assisti pela primeira vez, no ano de lançamento, confesso que me senti distanciado. A mitologia utilizada pela direção de Apichatpong Weerasethakul, por eu estar em um momento de vida bem conturbado, não me tocou. Eu precisava me entregar ao filme. Foi o que aconteceu recentemente e eu acabei assistindo a outro filme: poético, metafórico, de uma simplicidade que me fez chorar copiosamente. Hoje, eu o colocaria entre os filmes de minha vida. É uma prova pessoal da subjetividade do cinema, do quanto tudo influencia na experiência...

9. A Árvore da Vida (The Tree of Life), 2011

Terrence Malick consegue lidar com uma forma nada convencional de história, passando longe de se encaixar em uma fórmula tradicional, de um jeito único, só dele. A sua visão expressiva sobre o universo torna A Árvore da Vida algo de um valor artístico sem tamanho. O final do filme talvez o resuma de um jeito muito bonito: Jack (Sean Penn) diz para Brien (Brad Pitt) que, por mais que ele tenha sido duro, era a casa dele, então ele podia fazer o que quisesse. Isso, em uma leitura metafórica, vale-se de uma defesa divina, de uma crença, de fé. E a vida, no meio disso tudo, acontece em um piscar de olhos... entre a força do tempo e a percepção de liberdade.

8. Amor (Amour), 2012

Por ter pais idosos, juntos há exatos 50 anos (completados agora em 2020 – 42 à época do lançamento de Amour), eu acabei me envolvendo de uma forma intensa demais com esse filme. Haneke, que sempre esteve entre os diretores que mais me causam algum tipo de identificação, acabou por me dar um xeque-mate. Para mim, Amour foi o auge de sua carreira nesse sentido. Até hoje eu tenho algum receio de assistir novamente porque sei que, por mais que eu tente permanecer imune, irei chorar. E não será pouco.

7. Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive), 2013

Jim Jarmusch nunca quer contar uma história comum. E muito menos de maneira qualquer. Amantes Eternos é uma fantasia cheia de tempero e, acima de tudo, recheada de humor. Não há sangue saltando loucamente aqui, até porque mesmo ele (o sangue) exala uma sensualidade quase palpável. É, talvez, o filme mais atraente da lista (em muitos sentidos) e o único que, visual e até emocionalmente, é capaz de fazer com que surja o desejo de cravar os dentes na tela.

6. Sono de Inverno (Kis Uykusu), 2014

Pessoalmente, se eu tivesse que escolher um só filme de toda a lista para guardar para sempre comigo, ele seria Sono de Inverno. O diretor Nuri Bilge Ceylan sabe utilizar o silêncio como poucos do cinema mundial – hoje, para mim, ele é quem mais consegue efetivar isso dentro do universo que cria. Isso é muito claro tanto na construção da história quanto nas atuações, que são especialmente verdadeiras quando se expressam somente com os olhos. Sono de Inverno é um filme, como todos da carreira de Ceylan, de uma formalidade extrema, tão extrema que acaba por expor, com perfeição, todas as fragilidades necessárias sem que, para isso, precise parecer arrogante. É uma obra-prima absoluta.

5. O Abraço da Serpente (El abrazo de la serpiente), 2015

O Abraço da Serpente é um filme sobre paixão, mas não de uma relação amorosa entre humanos. É uma história que ousa pisar em um território desconhecido e falar, nas entrelinhas, do amor que envolve a natureza. É sofrido também, claro... Por outro lado, o trabalho de Ciro Guerra, tanto como roteirista quanto como diretor, é dos mais sinceros e pulsantes do cinema latino-americano. Cada cena é como um coração a pulsar: dele (do próprio Guerra) ou do mundo que retrata.

4. A Criada (Ah-ga-ssi), 2016

Hoje, o filme alcançou uma popularidade interessante por ter entrado no catálogo da Netflix em algum momento. A verdade (ao menos a minha) é que A Criada é um filme tão intenso que, em muito, lembra a pegada que Chan-wook Park deu ao seu Oldboy em 2003. É um filme sobre confiança e vulnerabilidade, prisão e liberdade... e a tensão que Park cria é tão autêntica que fica nítido que ele está com tudo sob controle e, assim, pode brincar com seus personagens da forma que quiser. A Criada mexe com os sentidos, apela para os sentimentos, convoca todo senso de ética e de moral que possamos ter e, no fim, embaralha tudo e faz magia como se fosse fácil.

3. O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer), 2017

Eu não ia colocar esse filme na lista. Muito menos como o filme de 2017. Mas preciso manter a coerência de acreditar nas questões pessoais de uma análise e fugir das objetividades – visto que elas não existem em uma arte. O Sacrifício do Cervo Sagrado é, assim, necessário por aqui. Ele me incomodou de um jeito que não lembro de ter me incomodado antes. E vai muito além do roteiro que beira o nonsense. Yorgos Lanthimos cria um paralelo com o que há de mais egoísta no ser humano. É um filme difícil de assistir, que cede positivamente a uma trama que se entrega ao choque – mas nunca gratuitamente: a repugnância, a estranheza e todo incômodo só revela mais e mais da natureza humana. Difícil de assistir; incômodo de continuar assistindo; sofrido para chegar ao fim, mas, no final das contas, dos filmes mais interessantes dos últimos anos.

2. Feliz Como Lázaro (Lazzaro felice), 2018

Escrito e dirigido pela jovem italiana de 36 anos de idade Alice Rohrwacher (que já tem na bagagem o Grande Prêmio do Júri em Cannes por As Maravilhas, de 2014), Feliz como Lázaro é genuinamente puro no seu modo de lidar com o mundo contemporâneo e as bizarras relações de trabalho e escravidão moderna. Ao mesmo tempo em que parte desse princípio de pureza – da direção de arte ao comportamento do personagem título –, o filme também é perturbador ao deixar vazar, em suas entrelinhas, o quão desumana pode ser a humanidade, o que é reforçado pelo lirismo de sua mise-en-scène (em uma síntese já bem resumida: tudo aquilo que aparece nas cenas e a forma com a qual cada detalhe é montado e posicionado). A atuação de Adriano Tardiolo (o Lázaro) exala uma bondade, um desconhecimento de qualquer mal, que as adversidades impostas pelo roteiro são desconcertantes. Feliz como Lázaro é daqueles filmes para guardar no coração, na mente e na alma.

1. O Farol (The Lighthouse), 2019

Outro filme que não é fácil de ingerir e digerir, O Farol me deixou alguns dias pensando antes de escrever sobre ele. Uma obra que não tem medo de colocar o dedo nas feridas da humanidade, nem de julgá-la e nem de condená-la. Se a Caixa de Pandora, após ter tantos males liberados, guarda em si somente a esperança, parece que o diretor Robert Eggers não tem uma esperança à vista para a humanidade – na qual ele se insere e sabe bem disso. Fora todo o seu teor divino, bíblico e mitológico, vale ressaltar – além de toda a equipe técnica que parece em profunda harmonia –, as atuações monstruosas de Willem Dafoe e Robert Pattinson.

Menções honrosas:

As menções honrosas também seguem os anos (agora ascendentes) e, dentro deles, estão em ordem alfabética. Como a lista principal, não está em nenhuma ordem de preferência. Lá vão:

2010:

  • Biutiful: O melhor de Iñárritu, antes de ele contaminar-se por Hollywood
  • Cópia Fiel: Kiarostami é vida.
  • Incêndios: Um dos melhores filmes da carreira de um dos diretores mais festejados hoje.
  • Inverno da Alma: Contém a melhor atuação da carreira de Jennifer Lawrence.
  • Poesia: Aprender a escrever poemas? A vida ensina...

2011:

  • O Cavalo de Turim: O último filme dirigido por aquele que é uma inspiração para mim. Irretocável.
  • Drive: Nicolas Winding Refn em sua última tentativa de ser um diretor incrível.
  • O Garoto da Bicicleta: Os irmãos Dardenne em uma espécie de Cinema Paradiso sobre duas rodas.
  • Meia-Noite em Paris: O melhor filme do Woody Allen no século XXI. Tudo bem... Ponto Final: Match Point pode ser melhor, mas é de 2005.
  • O Palhaço: Um filme simples, capaz de fazer chorar e sorrir ao mesmo tempo, com uma atuação gigante de Paulo José.
  • Pânico 4: Para muitos, fraco. Para mim, uma revigorada linda dirigida pelo próprio Wes Craven.
  • Polissia: Um tiro emocional.
  • A Separação: O Oscar de filme estrangeiro não é nada perto da grandeza desse filme.

2012:

  • A Caça: Como professor, uma paulada. Como crítico, outra.
  • Cosmópolis: Cronenberg mostrando o que é um diretor com pegada.
  • Ferrugem e Osso: Quer romance dramático. Esse é um dos melhores do século.
  • Holy Motors: Quer ter alucinações cinéfilas ou, pelo menos, ficar viajando? Eis uma obra-prima para isso.
  • Indomável Sonhadora: Eu quero tatuar.
  • Tabu: Mais um romance dramático, mas, dessa vez, é português. E o cinema português quando é bom, é muito mais que isso.

2013:

  • Blue Jasmine: Para mim, o último filme de uma fase estética de Woody Allen. E com uma das melhores atuações de todos os seus filmes. Obrigado, Cate Blanchett!
  • Nebraska: É atuação? Então Bruce Dern também mosttra como é em um filme de enorma sensibilidade.
  • A Pele de Vênus: Polanski tem talento pra dividir em 10 diretores.
  • O Passado: Do mesmo diretor de A Separação. E tão bom quanto.

2014:

  • Adeus à Linguagem: Godard, o velho e genial Godard, mostrando como descortinar regras e fazer o seu cinema sempre autoral e nunca descartável.
  • Leviatã: Um dos mais bonitos e pesados filmes dos últimos anos.
  • As Maravilhas: Maravilhoso. Da diretora de Feliz como Lázaro.
  • Moomy: O melhor (para mim) do cultuado Xavier Dolan (que também é ator e fez um ponta no início de It: Capítulo 2)
  • Sinfonia da Necrópole: O cinema brasileiro em pela forma e sem dever absolutamente nada a nenhum do planeta.

2015:

  • O Filho de Saul: A guerra de uma forma muito íntima... e dolorosa.
  • O Lagosta: Lanthimos sempre estranho, porém o mais romântico possível.
  • Juventude: Não sou fã do cinema de Paolo Sorrentino, mas esse filme é cativante demais.

2016:

  • O Apartamento: Mais um do diretor de A Separação. Vamos nomeá-lo porque é mais do que justo: Asghar Farhadi. Ele sabe dirigir o cotidiano como ninguém.
  • Aquarius: Seria nosso mais forte concorrente ao Oscar de filme estrangeiro desde Central do Brasil se tivesse sido o escolhido...
  • Docinho da América: Juventude efervescente e tudo o que a vida dá em troca.
  • Eu, Daniel Blake: O peso sem tamanho da burocracia transformado em arte.
  • Julieta: Almodóvar em grande forma e contando uma relação familiar. Só poderia ser muito do que de melhor o cinema oferece.
  • Manchester à Beira-Mar: Dos filmes mais emocionalmente intensos da década.
  • Paterson: Poesia à luz do dia, em qualquer canto... E Adam Driver sendo incrível.

2017:

  • Bom Comportamento: Os irmãos Safdie (dos melhores diretores atuais) dirigindo Robert Pattinson (dos melhores atores de sua geração) em um filme tenso até o fim.
  • Em Pedaços: Diane Kruger gigante!
  • Me Chame pelo Seu Nome: Amor, amor e mais amor.

2018:

  • A Árvore dos Frutos Selvagens: De Ceylan, mesmo diretor de Sono de Inverno. Seria o melhor do ano para mim se eu não tivesse assistido Feliz como Lázaro.
  • Assunto de Família: O cinema japonês sendo incrível... e isso só pode resultar em obra-prima.
  • Cafarnaum: Ai...
  • Imagem e Palavra: Godard desconstruindo tudo outra vez. É um danado.
  • Em Chamas: Se gosta de filme misterioso e pesado ao mesmo tempo, esse aqui vai muito além.
  • Guerra Fria: Das coisas mais lindas.
  • Mandy: Sede de Vingança: Nicolas Cage insano em um filme gore que flerta com o surrealismo e deságua em um romantismo extremo.

2019:

  • Atlantique: Tem os 15 minutos iniciais mais incríveis de 2019.
  • O Paraíso Deve Ser Aqui: Recebi como indicação de uma amiga. Assisti. E já sonhei com esse filme algumas vezes. Lindo é pouco.
  • Parasita: Quebrando as barreiras das legendas e expondo as mazelas sociais.
  • Retrato de uma Jovem em Chamas: Para mim, só não está no lugar de O Farol por questões pessoais.
  • Uma Vida Oculta: Malick em um drama romântico que beija Bergman.


Agora, ficam aí os comentários. Foi difícil fazer uma lista tão subjetiva, mas tenho certeza que vocês podem complementar e enriquecer tudo. Ficaram muitos filmes de fora, então vamos conversando, debatendo... de repente, aumentando a lista.

E, em breve, sairá a lista dos 10 melhores filmes brasileiros da década.

Bons e ruins filmes para nós!

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