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Crítica Cavaleiros do Zodíaco | Não é a tragédia que esperavam, mas ainda ruim

Por| Editado por Jones Oliveira | 28 de Abril de 2023 às 13h00

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Sony Pictures
Sony Pictures

Todo filme aparentemente ruim traz uma aura inevitável de acidente de trânsito. Aquela curiosidade mórbida que, mesmo sabendo que você vai encontrar algo tenebroso, te faz diminuir a velocidade para conferir a tragédia. Um circo dos horrores que sempre nos atrai, gostemos ou não. E esse espírito está presente em Os Cavaleiros do Zodíaco – Saint Seiya: O Começo desde que ele foi anunciado.

Diante da divulgação quase inexistente e da própria falta de confiança da Sony com o projeto, tudo levava a crer que a adaptação em live-action de um dos animes mais clássicos e icônicos seria um desastre monumental. Algo no nível de um engavetamento com mortes e com cenas lamentáveis na pista. Contudo, contrariando todas as previsões, o longa é apenas um acidente comum, aquele em que o motorista perde o controle do carro e bate no poste, mas não machuca ninguém.

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Não me entenda errado: Saint Seiya – O Começo é um filme bem ruim e uma adaptação pior ainda, mas está longe de ser a catástrofe que todo mundo imaginava. Ainda que cometa muitos deslizes e tenha um roteiro fraquíssimo, ele acerta em alguns pontos que o deixam minimamente simpático e que funcionariam muito bem se os produtores não odiassem Cavaleiros do Zodíaco.

Esqueça o anime

Tenha em mente que a única forma de assistir a Saint Seiya – O Começo é esquecendo que ele é uma adaptação de um anime. Se você tem qualquer apego a Cavaleiros do Zodíaco ou espera ver a história clássica sendo recontada, é melhor economizar o dinheiro do ingresso e rever o desenho. Ainda que ele faça algumas referências aqui e ali ao material original, o longa parece ter vergonha de sua origem e faz questão de se afastar dela sempre que possível.

Isso vai desde elementos visuais a questões conceituais que vão incomodar demais os fãs. A ideia de deixar de tratar o Cosmo como algo metafísico para uma energia física é ofensivo no nível midi-chlorians em Star Wars. É algo que empobrece todo o universo que está trabalhando, além de conduzir a história por um caminho lamentável.

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Só que, há coisas que funcionam em meio a esse lodaçal que é o roteiro — e já vamos voltar a ele em breve — e tornam a tragédia menor do que o esperado. Ainda que não seja o suficiente para dizer que Saint Seiya – O Começo é bom, a decisão de focar a história apenas em Seiya (Mackenyu Arata) ao invés de trazer todo o grupo de protagonistas de uma só vez é mais do que acertada.

Toda a parte envolvendo o herói é o que realmente segura o filme. Nesse ponto, a trama é bem parecida com aquela que os fãs conhecem — embora mais puxada para a animação em 3D do que para o anime em si —, com Seiya viajando o mundo em busca da sua irmã desaparecida. É quando descobre a existência do Cosmo e seu destino como cavaleiro de Pégaso, o protetor de Saori (Madison Iseman), a reencarnação da deusa Athena.

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Todo esse desenvolvimento funciona bem não apenas por estar próximo do material que a gente já conhece, mas pelo roteiro trabalhar um pouco mais esses personagens. Do temperamento e inseguranças do próprio Seiya ao jeito irritante de Saori, você percebe que houve um cuidado para dar o mínimo de camadas para eles a ponto de as coisas ficarem interessantes.

O mesmo acontece quando o herói parte em seu treinamento. Toda sua interação com Marin (Caitlin Hutson) é muito boa e toca naquilo que Cavaleiros do Zodíaco tem de mais interessante. A explicação da Amazona de Prata sobre o Cosmo como essa energia quase metafísica existente em todo o universo é muito legal e é bem apresentada na tela — por mais que seja logo desconsiderada pelo próprio roteiro em seguida.

Outro destaque positivo que Saint Seiya – O Começo traz são as cenas de ação. É evidente que o filme foi feito com um orçamento mínimo, mas a direção e a equipe de coreografias tiram leite de pedra para fazer com que as lutas funcionem apesar da falta de recursos. Ainda que os efeitos meia-boca incomodem em alguns momentos e o arame-fu seja evidente, não dá para negar que há sequências bem legais e muito bem coreografadas.

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A cena inicial, com Seiya lutando no octógono, é um bom exemplo de como a criatividade ainda é a melhor forma de criar bons momentos. Até mesmo o excesso dos efeitos de câmera lenta são releváveis quando você entende que o truque serve tanto para dar peso aos golpes como para maquiar a falta de dinheiro. Em compensação, há enquadramentos e movimentos de câmera muito bons que remetem diretamente à estética anime.

O resto é para embalar e jogar no lixo

O grande problema é que, tirando esse núcleo focado em Seiya, todo o restante é terrivelmente ruim. De soluções equivocadas e que contradizem o que o próprio filme apresentou a atuações medonhas e um roteiro pífio, é fácil ver Saint Seiya — O Começo como esse veículo desgovernado que não sabe para onde quer ir e que acaba se destroçando em algum poste qualquer.

E, mais uma vez, ele não falha apenas por ignorar o que é Cavaleiros do Zodíaco. Ele é ruim mesmo se fosse uma história original e não brincasse com a memória dos fãs. Ele é ruim por seus próprios fracassos e não por causa de uma suposta (e inexistente) expectativa.

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Toda a trama de Guraad (Famke Janssen) é algo que ofende o legado do anime e, dentro do próprio roteiro, não acrescenta nada. A ideia da organização do mal é algo tão ultrapassado que se torna maçante toda vez que é trabalhada na tela. É tão insuportável que não permite que nem mesmo a tentativa de criar uma tensão emocional entre ela, Saori e Alman Kido (Sean Bean) funcione.

Além de ser esse velho clichê do “precisamos capturá-los para extrair essa energia” que não serve para nada, esse argumento contradiz o que o próprio filme apresenta antes. Toda a explicação do Cosmo como essa energia mística que envolve o universo é jogada fora para dar lugar a uma baboseira de pseudociência que não leva a lugar nenhum.

A ideia de transformar Guraad em uma espécie de Lex Luthor até tem seu valor, contrapondo esse olhar mítico com uma perspectiva científica e pessimista para proteger a humanidade, só que o longa não sabe o que fazer com isso e essa história se perde no meio de clichês vazios.

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Por isso mesmo, a comparação com Star Wars: A Ameaça Fantasma é inevitável. Da mesma forma que aconteceu com os midi-chlorians no filme de George Lucas, essa preocupação desnecessária em negar a transcendência do Cosmo serve somente para matar uma das poucas boas que Os Cavaleiros do Zodíaco apresentou neste live-action.

Até porque esse tempo que ele perde com essa bobagem poderia ser usado para desenvolver os personagens que aparecem nesse núcleo. Tanto Cassios (Nick Stahl) quanto Ikki (Diego Tinoco) têm a profundidade de um peso de papel e, por mais que as contrapartes do anime não sejam também um exemplo de escrita, o longa tinha a oportunidade de desenvolvê-los um pouco melhor.

A coisa mais tenebrosa é que a dupla não tem porque existir. Não há nenhuma explicação do porquê Ikki está ajudando Guraad, o que faz com que a tentativa de virada de roteiro soe aleatória e boba. Ela existe porque alguém lembrou que era preciso referenciar o anime e só. Isso sem falar que o ator é ruim em um nível quase amador.

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E esse monte de equívocos faz com que todo aquele bom início de Os Cavaleiros do Zodíaco – Saint Seiya: O Começo se perca e ele seja apenas a tragédia que todo mundo esperava. A essa altura do campeonato, o carro já bateu no poste e tudo o que a gente pode fazer é torcer para que ninguém tenha se machucado.

Aliás, o momento do impacto é justamente a péssima decisão de abrir mão de uma boa luta final. Estamos falando da adaptação de um anime shounen conhecido, veja só você, por suas cenas de luta e alguém teve a brilhante ideia de substituir o último confronto entre os cavaleiros de Pégaso e Fênix por outro clichê inútil: o raio colorido que vem do céu.

E não há boa vontade capaz de lidar com isso. O mínimo que você espera de um filme de Cavaleiros do Zodíaco é uma luta legal com boneco de armadura — ainda mais quando o longa entrega sequências bem interessante de ação em outros momentos — e ele troca isso por um dos recursos mais usados dos últimos anos e que todo mundo já cansou de dizer que não aguenta mais.

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Não dá nem mesmo para culpar a falta de orçamento. Seria mais barato colocar os atores em uma luta bem coreografada do que encher a tela de raios coloridos, como acontece. É simplesmente inacreditável.

Vale a pena assistir a Os Cavaleiros do Zodíaco – Saint Seiya: O Começo?

O grande problema de Saint Seiya – O Começo é que fica evidente o quanto os roteiristas parecem não gostar de Cavaleiros do Zodíaco. Em todas as oportunidades possíveis, o longa se distancia daquilo que fez do anime um sucesso e pelo qual ele é tão querido pelos fãs.

E ele é ruim não somente por ignorar isso, mas porque todo o malabarismo que faz para se afastar do original apenas atrapalha. Não há nada de novo que seja interessante ou compense as mudanças, descaracterizações e negações do próprio conceito. Todos esses elementos são péssimos como Cavaleiros do Zodíaco e também como conteúdo próprio.

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Por mais que o mangá e o anime originais não sejam a coisa mais inspirada do mundo, a história de Seiya funciona por ser simples. É sobre a fé do herói e como isso faz com que ele quebre todas as barreiras possíveis, jamais desistindo. Não é preciso inventar moda com organização do mal ou midi-chlorians. O básico era mais do que suficiente e Saint Seiya – O Começo não é capaz nem mesmo disso.

E, por mais que ele tangencie essas questões em alguns momentos a ponto de você sentir as fagulhas do Cosmo, ele nunca chega lá de verdade. Mesmo com todas as concessões possíveis, ele é um filme muito ruim. No fim das contas, um acidente é sempre um acidente.

Os Cavaleiros do Zodíaco - Saint Seiya: O Começo está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil; você pode comprar seu ingresso na Ingresso.com.