Conheça os bastidores que explicam os altos e baixos dos X-Men no cinema

Por Claudio Yuge | 22 de Novembro de 2020 às 11h00
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“Mas é sério que não existe um filme bom dos X-Men?” Essa foi uma pergunta que recebi na semana passada. Como sabemos, é lógico que há bons filmes dos X-Men. Mas a maioria foi bem abaixo da média e alguns foram realmente bem ruins — outros até “envelheceram mal”. Embora você possa acreditar que seja apenas uma questão de gosto, os bastidores das produções explicam bastante do sucesso e do fracasso de cada longa — e até das séries relacionadas.

Para responder à pergunta que abre este texto, decidi revisitar toda a franquia para explicar a “história secreta” por trás de cada um dos filmes — e você vai notar como fica mais fácil compreender por que as coisas deram certo e errado. Essa trajetória remonta também como o mercado mudou e a maneira que os super-heróis se tornaram tão populares no cinema. E mais: destaca alguns elementos que podem fazer bem aos próximos projetos dos Filhos do Átomo.

Então, vamos à história dessa franquia, desde o começo, lembrando que o texto terá spoilers sobre o que aconteceu nesses filmes.

O início de uma nova era com X-Men

Os anos 1990 foram de grande baixa no mercado de quadrinhos de super-heróis. Todas as principais tentativas de adaptação para o cinema e para a TV foram risíveis no período — O Corvo (1994) ou O Máskara (1994), que foram bem, por exemplo, não se encaixam aqui. E, mesmo com a vontade dos estúdios em apostar em uma boa conversão para outra mídia, o próprio setor original de superseres com colantes coloridos estava em queda, com tramas bem aquém de outras épocas.

Não à toa, a Marvel Comics abriu processo de falência no final daquela década. Isso a obrigou a vender algumas de suas propriedades mais populares, com obscenos contratos vitalícios. Até hoje não há detalhes precisos ou oficiais sobre essa documentação, mas sabe-se que muitos dos acordos envolvem o retorno dos direitos caso os compradores não utilizem esses personagens em determinado período de tempo.

X-Men (2000) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

Com uma proposta assim, a Fox, que já possuía um diálogo com a Marvel Entertainment devido à animação X-Men Animated e outros desenhos que produzia em parceria com a Casa das Ideias, foi uma das interessadas em explorar algumas das propriedades da editora nas telonas. Como os X-Men eram os que mais vendiam gibis nos anos 1990, não era difícil de escolher qual seria o “carro-chefe” desses projetos. Assim, em 1994, a Fox Films obteve os direitos sobre os mutantes; e levou junto o Quarteto Fantástico, o Demolidor e o Motoqueiro Fantasma — como sabemos, a Sony ficou com o Homem-Aranha, e a Universal pegou o Hulk; mas isso é história para outro dia.

A vontade de levar os X-Men para os cinemas, na verdade, já existia na Marvel Entertainment, desde o final de 1989, quando James Cameron estava atrelado ao projeto. Vale destacar que a trama do primeiro Exterminador do Futuro (1984) tem muita influência dos quadrinhos de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (1981), história sobre como Kitty Pride voltava ao passado para evitar um futuro distópico dominado pelos Sentinelas.

A escolha de Bryan Singer

Com a oferta da Marvel, a Fox, que havia adquirido os direitos em 1994, começou a “marinar” suas ideias para uma adaptação com nomes que transitavam com facilidade entre os corredores das editoras de quadrinhos e os bastidores de Hollywood, a exemplo dos roteiristas Joss Whedon e Michael Chabon. Paralelamente, os executivos buscavam algum cineasta jovem que conseguisse dialogar com a audiência, combinando o “drama sci-fi” com ação e irreverência. Eis que eles chegaram a Bryan Singer, que ganhou bastante destaque por conta do ótimo Os Suspeitos (1995).

É preciso deixar claro que, nessa época, o cinema de super-heróis não era um gênero próprio como vemos hoje. Era um subgênero que ainda estava nascendo e precisava estar atrelado às outras fórmulas bem-sucedidas. Assim, para convencer os executivos como contaria a história dos X-Men, Singer atrelou sua trama à ficção científica, frente que havia sido revigorada por filmes como Matrix (1999).

A partir daí, ele construiu a história de X-Men sobre o mais popular personagem da franquia, Wolverine. E, para que desse certo, era preciso que Logan fosse o mais fiel possível à sua contraparte de papel — afinal os fracassos anteriores estavam bastante associados à desaprovação dos fãs diante de muitas mudanças em relação ao material original. Como a virada do século trazia avanços em efeitos especiais, o momento também contribuiu para que os mutantes ganhassem vida com mais fidelidade.

X-Men (2000) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

O passo seguinte de Singer e dos roteiristas foi convencer os executivos que Logan, “aquela máquina mutante de matar gente com seis facas afiadas saindo de seus braços”, poderia trazer uma boa história para um filme “família”. Vale destacar que Wolverine passava um bom tempo protegendo uma adolescente durante a história e não havia a possibilidade de fazer um longa com faixa etária proibitiva, pois, para a Fox, isso significava perder dinheiro — quanto menos crianças vendo, menor a bilheteria; essa sempre foi a lógica de Hollywood, especialmente com produtos infanto-juvenis.

No final das contas, tudo deu certo, na medida do possível, muito graças à habilidade da produtora Lauren Shuler Donner de ter conseguido combinar um elenco de nomes consagrados, a exemplo de Patrick Stewart, Ian McKellen e Halle Berry; com jovens talentosos promissores, a exemplo de Hugh Jackman, Famke Janssen e Anna Paquin. Singer entregou um filme que, pela primeira vez, trazia os personagens com visual, poderes e comportamento muito semelhantes às suas contrapartes de papel — e até mesmo aos desenhos da própria Fox Animation.

X-Men (2000) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

Entre as curiosidades desse primeiro filme está a discussão sobre o uso de uniformes coloridos. Como Matrix era um hit na época, Donner decidiu propor algo nessa linha. Isso fazia sentido, pois na história os X-Men eram estudantes e agiam como vigilantes na surdina, então, trajes menos chamativos eram uma escolha natural. Isso também foi reproduzido nos quadrinhos, na fase de Grant Morrison, para “espelhar” o cinema nas revistas, aumentando assim a venda dos gibis e a popularidade com uma propriedade em outra mídia de massa.

Outros dois fatos curiosos é que o roteirista do primeiro X-Men foi David Hayter, conhecido por ter dublado Solid Snake na franquia Metal Gear para PlayStation. E Kevin Feige, que viria a ser o criador do Universo Cinematográfico Marvel (MCU, na sigla em inglês), na época era um dos assistentes de produção de Donner.

O sucesso com X2 e o fracasso com X-Men 3

X-Men custou US$ 75 milhões, valor relativamente baixo para o patamar de orçamento de blockbusters de super-heróis, que atualmente chega a US$ 300 milhões. A bilheteria global foi de cerca de US$ 297 milhões, o que animou os executivos, especialmente por conta do barulho que o filme fez junto aos fãs. Os mutantes estavam novamente em uma crescente e a receita da Fox inspirou a Sony a apostar no Homem-Aranha. Assim, estava dada a largada para o início de uma nova era de super-heróis no cinema. Com X-Men 2 (2003), Singer consolidou a invasão dos Filhos do Átomo e uma onda crescente de adaptações de quadrinhos.

X-Men 2 aproveitou a ótima encarnação de Hugh Jackman no papel de Wolverine e foi inspirado por uma das mais bem vendidas edições da Marvel uma década antes. Quando a origem da Arma X foi publicada pela Casa das Ideias em 1991, as revelações caíram como uma bomba na comunidade nerd pré-internet. Então, trazer essa história era puro fan service no meio de uma boa história sci-fi de ação com ainda mais personagens que o filme anterior. A sequência foi maior e empolgou os fãs, aumentando o boom de adaptações de quadrinhos de super-heróis — para muitos, é o melhor título da franquia.

X-Men 2 (2003) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

Mas, a partir daí, o mercado começou a sentir um pouco a falta de consistência nesse movimento de adaptações, especialmente causado pela vontade de explorar as propriedades apenas para multiplicar os milhões de dólares. A Fox, por exemplo, começou a listar vários projetos para aproveitar o timing. Obviamente que não deu para a produção se dedicar com o mesmo carinho para tanta coisa em tão pouco tempo.

Então, quando X-Men 3: O Confronto Final (2006) estava em desenvolvimento, a Fox substituia Singer às pressas, pois o diretor estava de olho em outros projetos e suas exigências, tanto em termos de trama quanto de tempo para conclusão, já não conversavam com a produção. O escolhido foi Bratt Ratner, que conseguiu bons resultados com A Hora do Rush 1 (1998) e 2 (2002) e Dragão Vermelho (2003). O diretor não teve muito tempo de trabalhar seu roteiro e os personagens, justamente em um continuação que vinha para fechar uma trilogia no mais popular arco dos X-Men nos quadrinhos.

O resultado desperdiçou o potencial de vários personagens, a exemplo do Fanático e de Madrox; e encerrou a trinca de longas sem se dedicar o suficiente para o drama criado por Singer na dinâmica da equipe em seus anos anteriores — além de ter alterado drasticamente a chegada da Fênix Negra, em comparação com as HQs.

Com o tempo, o roteirista e produtor Simon Kinberg virou praticamente um “faz-tudo” de Donner, transformando ideias grosseiras de adaptação em projetos de curta execução e menor orçamento possível. Vale destacar que escolhas ruins e a ausência de uma conexão maior com os prórios criadores da Marvel Comics trouxeram outras adaptações medíocres. Coloque nesta conta Quarteto Fantástico 1 (2005) e 2 (2007), Demolidor (2003) e Motoqueiro Fantasma (2007) — e Homem-Aranha 3 (2007), da Sony.

X-Men 2 (2003) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

Em todos esses fracassos, haviam elementos comuns que atendiam à tradicional fórmula hollywoodiana em filmes de gênero. Isso já não era mais suficiente para uma nova geração de leitores e fãs de quadrinhos, assim como para um público infanto-juvenil que passou a dividir a atenção do cinema e dos livros com a internet e a multiplicação massiva dos dispositivos móveis. O momento era de disrupção no mercado de entretenimento, pois o setor sofria um impacto sem precedentes da tecnologia no consumo de conteúdo.

Batman e Homem de Ferro ajudaram a criar o melhor filme dos X-Men

Em 2005, enquanto a Fox tentava encontrar uma maneira mais decente de explorar os X-Men, e pensava em derivados para Wolverine, Magneto, Tempestade e Gambit; Christopher Nolan percebeu que a jovem audiência tinha mudado. Para mostrar um Batman para essa geração, ele tinha que “explicá-lo”: como um ser humano “comum” poderia ser um super-herói? Os novos cinéfilos dessa seara já não eram facilmente “enganados” por motivações ou explicações sem o mínimo de verossimilhança com a realidade da época.

Enquanto isso, a Sony, que conseguiu bons resultados com Homem-Aranha 1 (2001) e 2 (2004), passou a ser engolida pela fórmula ultrapassada — algo que o próprio Nolan estava revigorando, sem nem mesmo chamar de “filme de super-herói”. Em outra ponta, Kevin Feige começava a entender melhor como os personagens dos quadrinhos funcionariam no cinema.

Para Feige, os filmes deveriam conseguir condensar vários gêneros em um completamente novo — que foi o que aconteceu com a literatura e as artes gráficas, assim como outras linguagens, na formação dos quadrinhos como Nona Arte. Assim, para a produção de Homem de Ferro, ele quis unir comédia de ação sci-fi com uma história que pudesse ser contada com outros personagens de destaque no mesmo universo.

Dessa forma nascia Homem de Ferro e o Marvel Studios, em 2008, no mesmo ano em que Batman: O Cavaleiro das Trevas se tornava um sucesso de bilheteria e estabelecia um novo nível nas adaptações de quadrinhos. Para a Fox, era o momento certo de trazer os X-Men de volta. Embora a produção de um derivado de Wolverine já estivesse em andamento, muitos executivos e os próprios fãs tinham baixa expectativa com relação a esse lançamento.

X-Men Origens: Wolverine (2009) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

Isso porque X-Men Origens: Wolverine (2009) ainda estava preso ao modelo anterior que não vinha dando certo — e não tem como esquecer da participação pífia de um Deadpool completamente diferente das revistas, o que até hoje causa divertidas risadas entre Hugh Jackman e Ryan Reynolds, os intérpretes de Logan e Wade Wilson. A oportunidade era de aprender com o sucesso do Batman de Christopher Nolan e com os filmes do Marvel Studios para revigorar a franquia dos mutantes no cinema. E, assim, o melhor longa da série na Fox Films, na minha opinião, nasceu, em 2011.

Matthew Vaughn, fã declarado de quadrinhos, tinha realizado um bom trabalho na conversão de Stardust — O Mistério da Estrela (2007) e Kick-Ass: Quebrando Tudo (2010), duas obras que eram relativamente pouco conhecidas fora da Nona Arte e que tiveram uma boa aceitação na Sétima Arte. Para que seus X-Men dessem certo, ele decidiu por um soft reboot, considerando os eventos passados, mas reformulando a equipe inteira.

X-Men: Primeira Classe (2011) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

Mesmo com Singer e Kinberg envolvidos na produção, os X-Men de Vaughn em Primeira Classe (2011) se distanciavam da ficção científica e estavam mais próximos de um filme de espionagem, com uma narrativa ágil e conectada com o cinema de ação. Seus personagens eram mais ousados, falíveis e sexy. Xavier deixou de ser o professor intocável e perfeito; e Magneto ficou mais próximo do público, com uma história que mostrava mais pontos de identificação com a audiência.

A escolha do elenco, com o talento ascendente de Michael Fassbender, James McAvoy e Jennifer Lawrence; associado ao veterano Kevin Bacon, e um bom trabalho de design de produção, fez de X-Men: Primeira Classe um sucesso. O filme trocou a ficção científica pela espionagem e encontrou uma "voz" própria. Os X-Men ficaram mais descolados, sexy e intrigantes; e voltaram a abordar a equipe disfuncional que precisa aprender a ser uma escola e, acima de tudo, uma família — assim como nos quadrinhos.

Mas… o sucesso subiu mais uma vez à cabeça do pessoal da Fox Films.

A derrocada da Primeira Classe e a chegada de Logan e Deadpool

Após o sucesso de X-Men: Primeira Classe, Donner esteve diante de decisões difíceis. Isso porque parte da Fox Films ainda queria apostar em elementos que deram certo no passado, lá com os dois primeiros X-Men; enquanto outra pensava no novo momento, que começava a ser dominado pelo Marvel Studios. Então, a fatia “conservadora”, ficou responsável pela franquia principal, enquanto os mais “modernos” buscavam uma maneira de tornar um filme do Wolverine e do Gambit um sucesso — e, entre as conversas, estava uma “ideia maluca” sobre um longa do Deadpool, a partir de uma ideia de Ryan Reynolds.

A estratégia de Donner se provou quase que totalmente equivocada. Isso porque, ao trazer Simon Kinberg e Bryan Singer de volta ao comando, a Fox Films praticamente descontinuava o que Matthew Vaughn tinha feito de melhor. Embora X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014) tenha resquícios de história de época que Vaughn trouxe em X-Men: Primeira Classe, Singer basicamente transformou o gênero que X-Men estava criando em uma ficção científica nos moldes tradicionais novamente. Ele interrompeu linhas de narrativas do soft reboot e reaproveitou ideias de sua passagem anterior.

Isso não foi ruim no começo, e aqui estão dois exemplos. Quando os X-Men voltaram a ser uma escola em X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, com Ciclope e outros personagens aprendendo seus poderes nos anos 1980, as interações ficaram muito mais interessantes e divertidas — algo que veio diretamente da pegada de Vaughn. E a excelente introdução de Mercúrio, uma das melhores sequências de toda a franquia, foi ideia de Singer.

Deadpool (2016) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

Mas os méritos de Singer pararam por aí, porque enquadrar os X-Men na visão que ele tinha em 2000 não fez bem para a franquia. E o pior: mesmo com críticas e inúmeros furos de roteiro e cronologia, com direito a diálogos preguiçosos, a dupla Singer e Kinberg insistiu em manter esse padrão para uma nova trilogia.

X-Men: Apocalipse (2016) chegou já sem o charme da pegada introduzida por Vaughn e mais alinhado à visão retrógrada de Singer — foi um fracasso. O desenvolvimento ruim do próprio antagonista que dá o nome ao filme e a valorização forçada sobre Mística destruíram o que poderia ser algo muito melhor. Vale destacar que Jennifer Lawrence havia abocanhado um Oscar e seu “passe” estava supervalorizado. Embora a própria Lawrence reclamasse de passar horas para se pintar e entrar no personagem, ela era obrigada a liderar uma história rasa por força contratual.

Enquanto isso, a fatia “menos conservadora” da Fox Films alinhava no mesmo ano o lançamento de um “projeto maluco”, muito menor: Deadpool (2016). Eis que este, que quebrava regras na empresa ao ignorar a audiência menor de idade ao ser lançado para maiores de 18 anos, abocanhou quase US$ 800 milhões de bilheteria, com um orçamento de “apenas” US$ 58 milhões. Para termos de comparação, X-Men: Apocalipse faturou menos de US$ 545 milhões e consumiu US$ 178 milhões.

Logan (2017) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

Essa foi a deixa para que Fox Films passasse a considerar mais mudanças na franquia X-Men e seus derivados. E foi o timing exato para que James Mangold pudesse brilhar, algo que ele não conseguiu com Wolverine — Imortal (2013). Com Logan (2017) liberado para ser produzido com faixa etária acima de 18 anos, Mangold, que construiu sua fama com o faroeste Os Indomáveis, pôde fazer o que faz de melhor, assim como um certo mutante canadense.

Logan destaca o melhor do personagem, seu código de honra e seu lado cacador e sobrevivente, dois componentes básicos de uma boa história do Velho Oeste. A obra agradou público e crítica; e foi mais um indício de que os filmes dos X-Men tinham que mudar.

O fundo do poço com Fênix Negra e a treta com Novos Mutantes

A Fox viu que seus “projetos experimentais” estavam dando certo e aproveitou a “visão de quadrinhista” de Jeph Loeb para levar dois interessantes projetos para a TV: The Gifted (2017) e Legion (2017), que acontecem no mundo dos X-Men e tiveram relativo sucesso. Enquanto isso, ela já se preparava para mais quatro projetos envolvendo os mutantes no cinema: uma trama com a Fênix Negra, outra com os Novos Mutantes; mais uma com Gambit e uma sequência para Deadpool.

E, nisso, começaram as conversas entre a Disney e a Fox, sobre uma possível aquisição. Vale destacar que, nessa época a Marvel Entertainment, então liderada pelo executivo Ike Perlmutter, proibia a Marvel Comics de criar personagens ou destacar heróis ligados aos X-Men e ao Quarteto Fantástico. Era uma estratégia infame nos corredores da Casa das Ideias e foi usada por Ike para tentar minar as propriedades que não estavam com a Marvel — e evitar a criação de novos ativos para a Fox explorar. Aliás, vou poupar os leitores de detalhes sobre outro desastre na Fox, chamado de "reboot do Quarteto Fantástico" (2015), porque muita gente pode estar comendo ao ler a matéria.

Quando a compra foi anunciada, no final de 2017, os filmes que já estavam em desenvolvimento mantiveram o calendário, mesmo diante das incertezas. Gambit, que seria interpretado por Channing Tatum e ainda patinava nos estágios iniciais, foi interrompido por tempo indeterminado. Já Deadpool 2, que estava com as gravações avançadas, seguiu para seu lançamento em 2018.

X-Men: Fênix Negra (2019) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

Mas aí veio o golpe de misericórdia nos X-Men da Fox. A própria escolha de contar, novamente, a história da Fênix Negra, já era algo que desagradava os fãs. Além disso, Singer deixou o projeto para se dedicar à cinebiografia de Freddie Mercury — e as coisas ficaram ainda mais complicadas quando o diretor passou a ser associado a relatos de abuso sexual. Então, sobrou para Kinberg assumir, pela primeira vez, a cadeira de direção, justamente em um filme tão incerto e conturbado.

Veja bem, a trama da Fênix Negra funcionaria bem como uma ópera espacial ou algo na linha dos Guardiões da Galáxia — é praticamente o “Star Wars” dos X-Men. Mas Kinberg optou por levar a história para o subúrbio, quase como uma repetição das cenas que vimos no medíocre X-Men 3.

Além disso, Jennifer Lawrence deixava ainda mais claro sua vontade de abandonar a franquia — e ela morre nos momentos iniciais do longa, já sem maquiagem, justamente porque não aguentava mais passar por horas de “montagem” para viver Mística. Para completar houveram várias refilmagens, inclusive mudança na conclusão, pois Kinberg achou que o final tinha ficado parecido com outros títulos do Marvel Studios.

Os Novos Mutantes (2019) (Imagem: Reprodução/Fox Films)

O resultado foi a pior bilheteria de um filme dos X-Men, com arrecadação de quase US$ 253 milhões — péssimo para um projeto que custou US$ 200 milhões. Foi uma despedida tão melancólica que muitos fãs sequer quiseram assistir. 

Para completar, Os Novos Mutantes (2020), que, aí sim, tinha uma boa premissa para explorar uma vertente do novo gênero de super-heróis, com terror atrelado à narrativa, teve seu orçamento podado e o lançamento ficou suspenso por conta da conclusão das negociações da Disney com a Fox. No final das contas, após diversos atrasos, o filme foi lançado recentemente, com um resultado, digamos, razoável, dadas às circunstâncias que envolveram seu desenvolvimento.

O futuro no MCU

Eis que chegamos ao momento atual, em que o MCU pode dar nova vida e roupagem aos mutantes que tanto adoramos. A ideia é de que eles sejam espalhados pelas histórias, sem que notemos, algo que já vem acontecendo. A própria história de Os Eternos, que será lançada no final do próximo ano, pode explicar a existência de genes diferentes.

Os outros filmes de 2021 também devem abordar a chegada dos Filhos do Átomo. Há indícios de que Viúva Negra deva apresentar algo relacionado aos mutantes; e muitos vazamentos dão conta da presença de lutadores mutantes em Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings em uma competição de artes marciais — entre eles estaria Omega Red, famoso rival de Wolverine. E a própria franquia da Fox deve ser citada em alguma das Terras de Doctor Strange in the Multiverse of Madness — isso sem contar com o que vem aí nas séries do Disney+, WandaVision, Loki e Falcão e o Soldado Invernal.

Filme de Shang-Chi deve ter mutantes e chega em 2021 (Imagem: Reprodução/Marvel Comics)

Kevin Feige já adiantou que os mutantes devem aparecer antes do que muita gente espera, e vale destacar que Ryan Reynolds também vem conversando com o Marvel Studios há meses sobre a presença de Deadpool no MCU. Para completar, a ideia é que os integrantes dos X-Men apareçam antes de se tornarem uma equipe, de maneira semelhante ao que aconteceu com os Vingadores.

Então, após essa longa trajetória de altos e baixos, a expectativa é de que, agora, os Filhos do Átomo tenham novamente um filme que possa deixar seus ardorosos fãs satisfeitos. Vida longa aos X-Men!

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