Feige x Ike: Entenda como essa "Guerra Civil interna" afeta tudo na Marvel

Por Claudio Yuge | 27 de Setembro de 2019 às 13h33
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Nesta semana tivemos a notícia do cancelamento da série do Piloto Fantasma Robbie Reyes no Hulu. De acordo com fontes próximas da produção, Kevin Feige teria selecionado o personagem para um dos próximos filmes do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU, na sigla em inglês), mas isso pode ser mais um capítulo da “Guerra Civil interna” que o CEO do Marvel Studios está travando com o presidente da Marvel Entertainment, Isaac Perlmutter.

Ike está na Marvel desde 1993, quando fazia parte da mesa executiva da Marvel Comics. Habilidoso em negociações de ativos, usou bem propriedades de brinquedos da ToyBiz durante o processo de falência do Marvel Group e esteve envolvido com as vendas dos direitos dos personagens à Fox Films, Universal e Columbia/Sony Pictures. Em 2001, tornou-se vice-presidente da Marvel Entertainment.

Ike Perlmutter (Imagem: Reprodução/Forbes)

O executivo tem um histórico de não saber lidar bem com críticas e costuma ter uma postura agressiva com quem não concorda com seus conceitos — ele é até chamado de “o Trump da Marvel” por conta disso.

As polêmicas de Ike

Bem, até 2015 a Marvel Entertainment englobava a Marvel Comics, a Marvel TV e o Marvel Studios, além do merchandising geral e o setor de games. Desde que Ike assumiu a presidência, há muitos relatos de atritos com criadores e produtores. Dois grandes exemplos disso foram vistos na maneira como ele lidou com artistas da editora e com a publicidade dos personagens que estavam nas mãos da Fox Films.

A Fox sempre foi irredutível com relação aos direitos que comprou em um contrato com cláusulas vitalícias — aliás, o maior erro da Marvel foi criar essas condições. Isso passou a irritar Ike, pois algumas propriedades começaram a retornar devido ao tempo em que ficaram “paradas”, e a Sony e a Universal passaram a ter um diálogo maior com o grupo, especialmente após o sucesso de Homem de Ferro e a criação do Marvel Studios, em 2008.

A última vez que os X-Men apareceram em um jogo foi em 2011, com
Marvel vs Capcom 3: Fate of Two World (Imagem: Reprodução/Capcom)

No começo dos anos 2010, Ike rasgou: como a Fox parecia não ceder nenhum pouco com relação ao Quarteto Fantástico e os X-Men, ele simplesmente mandou que tudo ligado a esses grupos “sumisse” da Marvel Entertainment enquanto estivessem com a concorrência. Isso pegou muito mal nos corredores da empresa.

Nos quadrinhos, autores se manifestaram contra e o editor-chefe Joe Quesada segurou a bronca, mantendo o Quarteto e os mutantes em segundo plano. A família de heróis até mesmo ganhou destaque na segunda Guerras Secretas para poder sumir por uns tempos. Ike exigiu que ninguém mais criasse novos personagens das duas franquias, pois isso alimentaria mais propriedades intelectuais para a Fox Films.

O pôster promocional à esquerda saiu no começo dos anos 2010 e o da direita mais recentemente (Imagem: Divulgação/Marvel Comics)

Os X-Men simplesmente desaparecem dos games da Capcom, que sempre teve uma paixão pelos Filhos do Átomo; e no próprio material de publicidade das novas temporadas da Marvel Comics as duas equipes foram retiradas do pôster comemorativo e de todo o resto do merchandising.

A treta com Kevin Feige

Feige, que começou como assistente de produção em X-Men, em 2000, e passou pelas principais adaptações de quadrinhos até assumir o Marvel Studios com Homem de Ferro, em 2008, era considerado uma jovem estrela em ascensão. Contudo, algumas de suas ideias já iam contra os conceitos de Ike — especialmente quando falamos sobre diversidade.

O atrito entre ambos teve maior destaque quando Ike substituiu Terrence Howard por Don Cheadle como James Rhodes em Homem de Ferro 2. A negociação foi péssima, com Howard soltando o verbo contra o Marvel Studios, e pessoas comentando que o executivo teria dito que ninguém notaria a troca, porque “negros sempre parecem os mesmos”.

Ike também impôs um filme dos Inumanos no MCU, o que desagradou bastante Feige. Os personagens seriam uma alternativa aos X-Men e a Marvel Comics chegou a investir nisso por conta das novas diretrizes, entretanto os fãs sabem que os Inumanos não podem simplesmente ocupar o lugar dos X-Men.

Ike queria que os Inumanos fossem os "Novos X-Men" (Imagem: Divulgação/Marvel Entertainment)

Mas aí vem o plot twist: Feige sempre teve moral com a Disney, desde que ela comprou a Marvel Entertainment, em 2009. Então, ele fez com que o Marvel Studios ficasse sob responsabilidade direta da Casa do Mickey. Isso o libertou das mãos de Ike, não tendo mais que responder para ele.

A Guerra Civil interna entre Ike e Feige

A primeira coisa que Feige fez ao sair da aba da Marvel Entertainment foi tirar os Inumanos do calendário de filmes. Para não ficar feio, ele enviou o “problema” para a Marvel TV, comandada por Jeph Loeb. Como Feige e Loeb têm bom relacionamento, provavelmente ambos foram relapsos, digamos, propositalmente, com a produção — e isso explica o maior desastre da Marvel até agora, tanto é que a série nem é considerada parte do MCU.

A contenda entre Ike e Feige também explica um pouco a distância das séries de TV com o MCU. Mesmo que Feige e Loeb sejam próximos, a Marvel TV ainda responde à Marvel Entertainment. E “emprestar” o sucesso dos cinemas para Ike não é o que o CEO do Marvel Studios quer. Já no Disney+, quem manda é Feige, então não há problemas de sincronizar o MCU nas telinhas.

Demolidor poderia ter mais conexões com o MCU, não fosse o atrito entre Ike e Feige (Imagem: Divulgação/Netflix)

Por mais que a Marvel tenha apostado mesmo em diversidade de personagens desde 2001, com Jessica Jones e Luke Cage, Feige faz questão de dizer que a Fase 4 será “a mais diversa” até agora — claramente uma cutucada em Ike. Aliás, Perlmutter disse nesta semana que não gostaria de ver sequências de Pantera Negra nem Capitã Marvel — e recebeu uma “dura” da própria Disney.

O chefão Bob Iger chegou a dizer: "Estou no ramo há tempo suficiente para ouvir todos os argumentos do antigo livro e aprendi que os argumentos antigos são exatamente isso: antigos, e fora de sintonia com o mundo e onde deveria estar”.

“Liguei para Ike e disse-lhe para dizer à sua equipe para parar de colocar obstáculos e ordenei que colocássemos Pantera Negra e Capitã Marvel em desenvolvimento. Maravilhe-se com a produção”, complementou.

E chegamos então ao episódio do Motoqueiro Fantasma. Embora o personagem esteja em alta, por conta de sua versão futurista na pele de Frank Castle (sim, o Justiceiro, falamos sobre isso outra hora) e da volta de Danny Ketch, não dá para ignorar o fato que o anti-herói também acaba no meio dessa briga. Afinal, a série estava quase começando a produção, que foi interrompida do nada, simplesmente porque Feige o quer no MCU — alguém aí tem dúvidas de que se trata também de mais uma “porrada” em Ike?

Para completar, Feige também deu pistas de que os Inumanos devem voltar, mas agora “do jeito certo”, por meio da série da Ms. Marvel no Disney+. Bem, enquanto Ike estiver na Marvel Entertainment, pode apostar que Feige vai continuar respondendo à altura as investidas. E ficamos aqui comendo pipoca enquanto acompanhamos a briga.

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