10 aspectos que mudaram radicalmente os X-Men na atual fase de Jonathan Hickman

Por Claudio Yuge | 09 de Março de 2020 às 08h45
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Os X-Men estão de volta às manchetes dos jornais e na boca dos fãs de quadrinhos. Depois de muito sucesso (e superexposição) crescente entre os anos 70 e 90, a equipe passou os anos 2000 inteiro em fases pouco relevantes e sem graça. Seja por pobreza das tramas ou pelas imposições do presidente da Marvel Entertainment, Ike Perlmutter (veja essa treta toda aqui), fato é que os mutantes ainda penaram os anos 2010 quase completos para serem tratados novamente da maneira como merecem.

Jonathan Hickman começou uma verdadeira revolução, em julho de 2019, quando assumiu toda a linha dos X-Men, a partir de duas minisséries de abertura, House of X e Powers of X (leia-se o “x” como “ten” e não “ex”, em inglês), na iniciativa chamada de Dawn of X. Ele colocou, basicamente, tudo “de ponta cabeça”, corrigindo problemas de cronologia e acrescentando sua própria visão sobre os Filhos do Átomo: os mutantes se tornaram realmente mais “estranhos”, intrigantes, sexy e divertidos.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Como em tudo o que faz, Hickman impôs sua proposta de narrativa, que envolve um tratamento editorial diferenciado. As tramas são apresentadas com fontes diferentes nos balões, há uma identidade visual própria para todas as revistas e grafismos que destacam elementos de ficção científica — a exemplo da nova língua que só os mutantes sabem falar e das explicações sobre avanços científicos.

Em julho, a linha mutante do escritor terá seu primeiro grande crossover em 15 partes. X of Swords (leia-se “ten” novamente, em vez de “ex”). Na história, dez X-Men estarão armados com dez espadas lendárias do Universo Marvel para proteger sua nova base de operações, a ilha viva Krakoa. E, para celebrar esse evento, o Canaltech mostra o que mudou desde que os Filhos do Átomo foram reformulados em julho do ano passado até aqui.

1. Professor Xavier

Embora seja polêmica, há uma grande mudança de comportamento no líder dos X-Men. Em vez daquele sonhador que evocava Martin Luther King e pregava pela convivência pacífica entre humanos e mutantes, esse novo Charles Xavier soa mais jovial e impulsivo e agora luta para criar uma sociedade somente de Homo Superior.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Ele passou a aceitar seus rivais e até inimigos, como Magneto, Senhor Sinistro e Apocalipse, e promoveu grupos com diferentes funções, agindo como órgãos reguladores dessa nova sociedade. Xavier também ampliou suas habilidades como estrategista e diplomata, atuando de forma mais política diante do resto do mundo.

2. Imortalidade

A multiplicação insana de títulos com um “X” na capa durante os anos 90 foi, de certa forma, inconsequente, pois não somente ofuscou as outras propriedades da Marvel Comics na época como também gerou inúmeras incongruências na cronologia mutante. Era um período em que as páginas de ação aumentaram bastante em detrimento de tramas melhores construídas, e autores usavam muitas mortes e outros eventos chocantes para chamar a atenção do público.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Hickman vem consertando essa trajetória problemática com dois elementos, que envolvem um olhar diferente sobre a mortalidade. O primeiro é o fato de Moira MacTaggert ser revelada uma mutante, que tem como poder presenciar diferentes versões de cada uma de suas dez vidas — ela estaria em sua última. Isso dá ao roteirista a possibilidade de posicionar melhor os conceitos apresentados na linha ao longo das décadas e partir de um novo ponto de vista.

Além disso, a criação de um grupo, chamado The Five, dá aos mutantes a vida eterna. Isso porque, com a ajuda de cinco heróis, Xavier pode controlar um processo capaz de transferir as mentes de quem morreu para novos corpos clonados e já desenvolvidos — réplicas autênticas de seus “avatares” anteriores. Ou seja, assim Hickman traz de volta todos os Filhos do Átomo que morreram desde os anos 60.

3. Nação mutante

Hickman usou a famosa ilha que causou a reunião dos Novos X-Men no início da era comandada por Chris Claremont. Krakoa, que é um “terreno vivo”, tem poderes que dão aos mutantes substâncias que não podem ser encontradas em nenhum outro lugar da Terra. Além disso, o local se tornou um hub de acesso com teleporte.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Para conseguir a aceitação de sua soberania perante o mundo, Xavier trocou remédios que podem prolongar a vida humana e curar doenças mentais e um superantibiótico. Com os elementos extraídos de Krakoa, ele pode produzir medicamentos nunca antes vistos.

Além disso, foi criado um sistema de governo que promove mutantes muito poderosos, como Tempestade e Jean Grey, ao nível mais alto, Ômega, e um conselho formado pelos líderes de grupos e outros personagens experientes, a exemplo de Wolverine.

4. Chega de “No more mutants”

Depois da saga Dinastia M, a comunidade mutante diminuiu drasticamente, quando Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate, mudou a realidade com as palavras “no more mutants”. Na trama, mais de 1 milhão de pessoas perderam o gene X, que altera o corpo e é responsável pelos poderes, e o nascimento de novos Homo Superior passou a ser limitadíssimo.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Com Hickman, a população mutante voltou a crescer, seja naturalmente ou com as “ressurreições”. Há até mesmo um processo de sacrifício, em que os personagens que perderam os poderes podem optar por morrer e retornar com seus poderes. Isso tem gerado reflexões existenciais entre os personagens, a exemplo do que aconteceu recentemente com Noturno, que retornou de mais uma morte.

5. O "trisal" Wolverine, Jean e Ciclope

Apesar de estar sempre de cara fechada, Logan sempre teve um lado divertido e fanfarrão, que foi esquecido ao longo das últimas décadas. Ele voltou a sorrir e estar atrelado às crianças — o herói sempre foi especialmente protetor com os pequenos, vide o fato de ter sidekicks como Kitty Pride e Jubileu.

Mas a maior mudança no status quo dele foi sua sexualidade — e a de Ciclope e Jean Grey. O triângulo amoroso foi para outro nível, com a revelação, ainda que discreta, que eles passaram a aceitar um relacionamento aberto. E, mais recentemente, uma conversa entre Scott e Logan mostra que eles não somente compartilham do mesmo amor por Jean como entre si.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Liberaram geral, o que é algo muito coerente com as próprias raízes dos X-Men, que sempre lutaram pela diversidade e pela liberdade comportamental. Além disso, vale destacar que, assim, Hickman projeta uma perspectiva um pouco distinta da sociedade, pois, se existissem, os mutantes realmente poderiam enxergar sexo e relacionamentos de uma maneira semelhante, mas não exatamente igual ao que vemos no mundo.

E essa “revolução sexual” está implícita em todas as histórias, com mais nudez (sem exibição de genitálias) e insinuações sexuais nas tramas. Tem até um boato de que Wolverine teria dois pênis. Sério.

6. Ficção científica pesada

Hickman é muito fã de sci-fi e sempre usou conceitos bastante criativos e inovadores em seus arcos nos títulos do Quarteto Fantástico e Vingadores e nas sagas Infinito e Guerras Secretas. Ele se apoia em fatos científicos e mistura com fantasia para criar elementos bastante interessantes. Na sua fase dos X-Men, acontece o mesmo.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Ele inventou os remédios e serviços da nova sociedade mutante, assim como tem explicado melhor a concepção em torno da genética dos Homo Superior. Aqui, a maior luta dos X-Men não é mais serem aceitos pela sociedade e conviverem com mutantes, e sim se preparar para o combate final contra as máquinas e inteligências artificiais — que se tornaram os maiores vilões da franquia.

7. Grupos se tornaram mais proativos

Com a reunião de heróis e personagens antes considerados vilões, como Senhor Sinistro e Apocalipse, Hickman precisou encontrar uma maneira de criar linhas narrativas que não dependam da tradicional briga entre mutantes. Assim, ele promoveu títulos que possam comportar os milhares de personagens, de forma equilibrada.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Um dos problemas nos X-Men era encontrar um balanço entre as propriedades, sem que um integrante das equipes ofusque o outro — afinal, há muitos personagens favoritos dos fãs, que costumam reclamar suas ausências ou falta de relevância. Assim, temos grupos que agem como agências em Krakoa.

No título Carrascos, vemos mais detalhes das relações políticas em Krakoa, como o envolvimento de Kitty Pride com o novo Clube do Inferno e as descobertas científicas do geneticista Senhor Sinistro. Já a X-Force, que antes era um grupo militar de ataque a terroristas, tornou-se uma espécie de “CIA dos X-Men”, investigando e punindo quem estiver fora da linha na ilha.

8. Isolamento editorial

É claro que também há alguns pontos negativos na fase de Hickman. Um deles é a volta do “cantinho dos X-Men”. Ao longo das décadas, os mutantes pouco se envolveram muito com as questões mundanas. Por isso, raramente vimos algum crossover unindo os Filhos do Átomo com os Vingadores ou o Quarteto Fantástico — pelo contrário, vimos muito mais eles brigando entre si.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Esse isolamento editorial volta a acontecer, especialmente com o grande evento Marvel do ano, Empyre, reunindo os Vingadores e o Quarteto Fantástico em uma guerra contra a improvável aliança Kree-Skrull na ofensiva contra a Terra — aparentemente sem a participação dos X-Men.

Embora seja compreensível, isso causa uma sensação de falta de integração com o resto do Universo Marvel e, de certa forma, vai contra o que Brian Michael Bendis fazia desde meados de 2000. O roteirista, que atualmente está na DC Comics, tinha “puxado” os X-Men de seu cantinho para interagir mais com os personagens humanos nos anos 2010, até mesmo com equipes mistas entre mutantes e os heróis dos Vingadores.

9. Títulos demais

Depois da iniciativa Dawn of X, com apenas dois títulos semanais, House of X e Powers of X, acompanhar tudo o que acontece no universo mutante ficou bastante complicado — e oneroso. Além da série principal X-Men, temos Excalibur, X-Force, Novos Mutantes, Fallen Angels, Cable, Wolverine, Hellions, Marauders, X-Factor, Children of the Atom, e edições especiais, como Giant Size X-Men e X-Men/Fantastic Four.

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Comprar e ler tudo dessa nova trajetória, ainda mais se tratando de histórias com novos conceitos de tecnologia e sociedade, é atualmente um exercício de adoração aos X-Men. A ficção científica de Hickman é bastante rica e igualmente densa. Então, embora o próprio roteirista diga que “você não precisa comprar todas as revistas”, conferir todo o material dessa linha se tornou uma tarefa difícil.

10. Uma nova era para os Filhos do Átomo

Bem, gostem ou não das mudanças, todos que vêm acompanhando essa nova fase concordam que ela é tão relevante quanto as maiores revoluções que aconteceram nos títulos mutantes, como quando Chris Claremont assumiu, nos anos 70, ou na versão noventista de sucesso do lendário roteirista ao lado o jovem Jim Lee (que atualmente é editor-chefe na DC Comics).

Imagem: Reprodução/Marvel Comics

Os X-Men de Hickman são realmente diferentes de tudo o que já vimos com esses personagens e a consistência de projeto, que possui muito estofo em todas os temas e subtextos, marcam uma nova era para essas propriedades. E, mesmo sendo um pouco complicado acompanhar tudo, não há dúvidas de que cada escolha de leitura desses novos arcos pode trazer de volta, manter e até gerar novos fãs dos mutantes da Marvel — e, de quebra, pode ser uma fonte de ideias para o reboot das franquias no cinema.

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