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Afinal, existiam pessoas não-binárias na pré-história?

Por| Editado por Luciana Zaramela | 26 de Maio de 2023 às 18h03

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Gary Todd/Neolithic Diorama/Domínio Público
Gary Todd/Neolithic Diorama/Domínio Público

Novas pesquisas apontam para uma diversidade inesperada nos papéis de gênero na pré-história. Há milhares de anos, pessoas não-binárias podem ter sido parte das sociedades da Idade da Pedra até a Idade do Bronze. Essa conclusão chega a partir de achados em mais de 1.200 túmulos de 7 sítios arqueológicos diferentes na Europa Central.

Discussões acerca de gênero na pré-história têm inflamado debates na academia nas últimas décadas, girando, no geral, em torno de uma mesma pergunta: nossos ancestrais partiam de um modelo binário — ou seja, “homem” e “mulher” e nada mais — ou não? Qual a abrangência desses conceitos, caso já existissem?

Para saber mais, pesquisadores analisaram correlações entre o gênero e o sexo biológico de 1.252 pessoas enterradas entre o início do Neolítico e o final da Idade do Bronze, entre 5500 e 1200 a.C.

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Como definir gênero e sexo na pré-história?

Para definir o sexo dos humanos estudados, foram utilizadas análises osteológicas (ou seja, dos ossos), e, para o gênero, foram estudados os tipos de objeto presentes nos túmulos, sinais culturais dos papéis de gênero há mais de 5 mil anos.

Em 6 a cada 7 sítios de sepultamento, uma minoria persistente de indivíduos enterrados mostra não coincidir o sexo biológico com o gênero representado pelos artefatos presentes no túmulo. Um caso é um indivíduo biologicamente masculino, enterrado na Alemanha, com um adorno de cabeça feito de conchas de caracol e outros itens associados ao gênero feminino.

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Em outro sítio arqueológico, um esqueleto biologicamente feminino foi encontrado em um túmulo com bens associados ao gênero masculino, como um machado de pedra, um anzol de pesca, presas de javali e lâminas de sílex. Em um comunicado dos pesquisadores via Universidade de Göttingen, é comentado que normalmente se simplificam os achados em túmulos em uma dualidade simples: armas para os homens, joias e adornos para as mulheres.

Isso, como pesquisas anteriores já mostravam, dá margem para muitos erros. Como interpretar, então, os achados curiosos dos cientistas? Bem, partindo das ideias tradicionais sobre gênero, muitas pessoas automaticamente pensam que os dois sexos biológicos “padrão” (pensamento que desconsidera pessoas intersexo) querem dizer que há apenas dois gêneros.

Caso seja considerado, no entanto, que sexo e gênero sejam aspectos separados da identidade de cada pessoa, podemos chegar a pelo menos 4 combinações possíveis — ou seja, modelos não-binários de gênero.

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Na pesquisa, que incluiu indivíduos de túmulos na Alemanha, Áustria e Itália, foi possível identificar que cerca de 10% dos sujeitos não se encaixava na norma binária, mas os dados também mostram que apenas 26,5% da população estudada pôde ter gênero e sexo estritamente determinados — em 2,9% dos casos, o resultado foi ambíguo.

Os autores chegaram à hipótese de que algum grau de variedade de gênero era formalmente aceito em enterros da Europa Central pré-histórica. Eleonore Page, arqueogeneticista e uma das responsáveis pelo estudo, comenta:

O que os números nos dizem é que, historicamente, não podemos mais encaixar pessoas não-binárias como “exceções” à regra, mas sim como “minoriais”, que podem ter sido formalmente consideradas, protegidas e até mesmo reverenciadas.

Nicola Ialongo, arqueólogo da pré-história e co-autor da pesquisa, vê essa interpretação como apenas uma de várias possíveis. Segundo ele, ainda não podemos avaliar o impacto real de descobertas como essa, não apenas por conta das margens de erro de métodos analíticos como a osteologia, mas também pelos vieses de confirmação, ou seja, o fato de que tendemos a encontrar o que queremos encontrar.

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Análises biomoleculares futuras, envolvendo DNA antigo e proteômica, por exemplo, podem nos revelar mais sobre essas questões.

Gênero e sexo através da história

Embora possamos tirar algumas conclusões com base em achados arqueológicos, a verdade é que não há como saber como os seres humanos da época tratavam questões de gênero. Embora pareça óbvio dividir sexo e gênero da mesma forma, podemos mesmo esperar que indivíduos pré-históricos pensassem assim?

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Não sabemos quando noções de gênero começaram a ser construídas na sociedade, e nem se eram restritas ao biológico — o achado de diversos túmulos divergentes já demonstram uma flexibilidade maior do que esperávamos, pelo menos a partir da perspectiva moderna.

Essa dúvida não é exclusiva nos humanos de milhares de anos atrás — algumas sepulturas medievais também mostram variâncias. Em 1968, um túmulo finlandês “viking” trouxe uma pessoa enterrada com vestes e broches femininos, mas também armas, gerando confusão nos arqueólogos que dividiam o gênero apenas com base em itens.

Seria uma tumba feminina diferente? Anos depois, o DNA revelou que se tratava de um homem com síndrome de Klinefelter, condição que confere genes XXY e características como seios e quadril avantajados, maior altura e testículos menores, por exemplo.

O que isso quer dizer? De um ponto de vista sociológico ou antropológico, é possível que a sociedade escandinava aceitasse uma flexibilidade dos papéis de gênero, respeitando e enterrando dignamente um indivíduo que não parecia se encaixar na norma binária. As sagas (Eddas) dos vikings incluem histórias de pessoas que trocavam de gênero, como uma herdeira do trono que assume nome e pronomes masculinos ao virar rei e tem essa mudança respeitada até pelo cronista no relato.

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Entender como as pessoas do passado enxergavam questões de gênero é sempre desafiador, e tendemos a utilizar as mesmas caixinhas contemporâneas para abarcá-las — há algumas décadas, acadêmicos se prendiam apenas aos objetos encontrados em túmulos para definir o sexo do falecido.

Embora seja positivo flexibilizarmos essas noções, nos abrindo à possibilidade de que o passado era mais plural do que imaginávamos, convém sempre evitar vieses e evitar exportar nossas noções para as pessoas de outrora.

Fonte: Universidade de Göttingen, Cambridge Archeological Journal, History Compass, European Journal of Archeology