Os desafios enfrentados pelos carros autônomos

Por Joyce Macedo | 16 de Novembro de 2015 às 10h07
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A cada dia que passa estamos mais próximos de um futuro antes conhecido apenas em filmes de ficção científica. Apesar de Marty McFly e Doc Brown terem "voltado para o futuro" em 2015 sem encontrar os esperados carros voadores, podemos dizer que eles encontraram uma boa evolução no que diz respeito a carros que dispensam motoristas.

Ao que tudo indica, 2020 será o ano crucial para os carros andarem sozinhos. Ao menos sete programas de carros autônomos apontam para esta data como o prazo final para o lançamento de veículos que prometem revolucionar o setor automotivo e a vida dos motoristas, que poderão ler um livro ou assistir a um filme enquanto pegam a estrada.

A chamada “era da direção autônoma” já conta com os esforços de gigantes como Mercedes-Benz , General Motors, Hyundai, Google, Nissan, Volvo, Toyota, Honda e Audi. Todos eles estão nesta corrida maluca para ver quem consegue colocar o primeiro veículo deste tipo no mercado.

A Tesla, por exemplo, já se adiantou e lançou recentemente um recurso de piloto automático que permite ao automóvel desempenhar algumas funções sem ajuda do motorista nas estradas. O grande diferencial é que a tecnologia funciona por meio de uma atualização de software, permitindo que carros “antigos” da montadora ganhem algumas funções independentes. De acordo com a companhia, o update não faz o carro ser totalmente autônomo, mas garante ações como mudar de pista e ajustar a velocidade em resposta ao trânsito à sua volta.

Tudo isso mostra que o futuro chegou, mas será que estamos preparados para ele?

Infraestrutura

As cidades não estão se preparando para a chegada dos veículos autônomos na mesma velocidade com que empresas de tecnologia e montadoras desenvolvem seus produtos e serviços. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas 6% das maiores cidades do país estão pensando ou planejando se adaptar à chegada dos veículos autônomos, de acordo com dados da National League of Cities (Liga Nacional das Cidades).

Os Estados Unidos estão “anos luz” a nossa frente no quesito preparação para receber veículos autônomos e ainda assim a situação por lá é complicada. O Brasil parece estar muito longe de incluir os veículos autônomos no planejamento de trânsito de longo prazo, uma vez que o país ainda enfrenta grandes problemas com o controle de tráfego comum.

Antes de tudo, é preciso entender que não basta colocar os carros autônomos nas ruas e esperar que seus sensores, câmeras, chips e outras tecnologias façam todo o trabalho de se adaptar às ruas esburacadas e mal sinalizadas, evitando ainda acidentes e outros problemas.

Algumas condições básicas são exigidas para o bom funcionamento dos "veículos do futuro", entre elas uma conexão estável com a internet e ampla cobertura de redes 3G/4G – algo que ainda é escasso em diversas regiões do Brasil. A situação fica ainda pior se pensarmos nos veículos que dependem das faixas pintadas no asfalto para tomar suas decisões no trânsito e manter-se no sentido correto, pois pouco mais de 10% das rodovias do país são pavimentadas.

A má conservação das estradas também é um grande empecilho, pois trata-se de um perigo potencial para os veículos autônomos, uma vez que a maioria das tecnologias desenvolvidas ainda não é capaz de reconhecer um buraco na estrada nem detectar um bueiro aberto.

A segurança das grandes metrópoles também é algo que deve ser pensado, principalmente se levarmos em consideração os casos de assaltos e até mesmo mortes noticiadas recentemente e causados por erros de GPS, que indicaram caminhos perigosos dentro de cidades turísticas como o Rio de Janeiro.

Um exemplo de quem está pensando no futuro é o governo alemão, que está de olho na movimentação do setor e, desde o início do ano, começou a trabalhar na rodovia A9 Autobahn, na Baviera, sudoeste do país, para receber testes de carros inteligentes. A estrada foi preparada para ter uma infraestrutura que permite aos veículos se comunicarem usando os sensores da pista. A ideia do país é evitar a dependência de empresas estrangeiras, como o Google, e evitar um possível monopólio no segmento.

Sem dúvidas, conectar os carros com a infraestrutura das cidades como elas são hoje é um dos grandes desafios para a integração dos veículos autônomos na sociedade. No entanto, a presença destes automóveis cheios de tecnologias embarcadas pode ser muito útil para um trânsito mais seguro, eficiente e fluído, uma vez que os dados coletados durante os passeios poderão ajudar a saber quais os horários mais difíceis de circular pela cidade, por exemplo. Mas a realidade é que a grande maioria das cidades está estagnada quando o assunto é incorporar estes veículos à sua rotina de maneira oficial.

Para ampliar os testes e conhecer melhor as necessidades de uma cidade para receber os veículos autônomos, a Universidade de Michigan fez uma parceria com o governo norte-americano e instituições privadas para criar sua própria "cidade falsa" dedicada a carros sem motorista É uma espécie de cidade cenográfica que imita situações reais em um ambiente controlado. São cruzamentos, semáforos, ciclovias, calçadas, obras que mudam de lugar, obstáculos na pista, entre outros.

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Mcity, a falsa cidade construída para testar carros autônomos (Imagem: Divulgação)

Legislação

Outro setor que ainda deixa muito a desejar e pode atrasar a chegada deste tipo de veículo às ruas é o legislativo. Nos Estados Unidos, apenas os estados da Califórnia, Michigan, Flórida e Nevada aprovaram leis que permitem o teste de carros que dirigem sozinhos em vias públicas.

Entre os maiores desafios estão a definição das responsabilidades legais sobre os eventos provocados por veículos autônomos e também a realização dos devidos ajustes da legislação de trânsito para tratar este tipo de veículo que dispensa motorista.

O primeiro item diz respeito aos possíveis casos de acidentes. Os automóveis inteligentes possuem sistemas capazes de detectar objetos a diferentes distâncias, seja ela 30 centímetros ou 100 metros, mas o dia a dia no trânsito não é uma matemática simples, do tipo: o carro detectou um objeto à sua frente e então ele opta por frear ou desviar.

Existe sempre a possibilidade de alguém cruzar a pista muito rápido e os freios não conseguirem parar o veículo antes da colisão, por exemplo. Um dos grandes dilemas é: se um carro que está dirigindo sozinho, sem a assistência de um ser humano, atropelar um pedestre, quem será responsabilizado pelo crime? O carro? O motorista que nem estava com as mãos no volante? Além disso, a máquina também terá que tomar decisões difíceis, como atropelar um animal na pista ou bater no carro ao lado para preservá-lo.

Há quem defenda que o tratamento para crimes de trânsito ocasionados por veículos autônomos deve ser feito de forma semelhante à dos aviões comerciais, onde o piloto habilitado é responsabilizado por algo mesmo que o piloto automático esteja ligado e, após a averiguação dos fatos, é determinado se ele agiu de forma dolosa ou culposa.

No Brasil, a chegada deste novo tipo de automóvel implicaria numa reforma do Código de Trânsito para incluir a presença deste "motorista virtual" e também uma mudança na regulação dos órgãos de trânsito para criar regras específicas para o uso de veículos autônomos.

Na Califórnia, uma nova legislação já obrigou o Google a incluir itens básicos (volante, pedais e retrovisores) no seu veículo de testes, que também precisa ter um condutor habilitado a postos para assumir o comando a qualquer momento.

Carro autônomo Volvo

Volvo já está testando seus carros autônomos (Imagem: Divulgação)

Já a segunda questão aborda ajustes de regulamentação mais abrangentes, que envolvem alterações na Convenção de Viena sobre Trânsito Viário, de 1968. Na ocasião, representantes dos países participantes da Convenção de Viena, incluindo o Brasil, subscreveram um acordo internacional que estabelece uma série de regras que devem ser seguidas por todos os condutores de veículos quando trafegam em qualquer um desses países, a fim de facilitar o trânsito viário internacional e aumentar a segurança nas rodovias.

O problema para as montadoras que querem lançar seus veículos autônomos é que a Convenção estipula que todos os veículos têm que estar sob o controle de um motorista. Porém, em abril de 2015, os governos de Itália, França e Alemanha já deram os primeiros passos dentro das Nações Unidas para alterar o tratado, mas a mudança só será possível com a concordância dos 72 signatários. Os Estados Unidos, assim como China e Japão, não assinaram o tratado e por isso conseguiram avançar mais rapidamente nos testes com automóveis que dispensam motoristas.

Fator humano

Há alguns meses, o Google declarou que o problema mais grave de segurança enfrentado no desenvolvimento do seu carro autônomo é a presença de humanos. Para exemplificar o problema, podemos citar um caso ocorrido em meados de agosto, quando um dos veículos sem motorista da empresa estava trafegando e, ao chegar na faixa de pedestres, tomou a atitude correta perante a lei e parou. Nada aconteceu com pedestres ou com o motorista do Google, mas o carro que estava atrás acabou colidindo na traseira do veículo autônomo após a parada.

Os carros inteligentes serão programados para seguir as regras de trânsito e esse é um dos maiores desafios que eles podem enfrentar, pois não é fácil inserir um projeto como este em um mundo no qual as pessoas não estão acostumadas a obedecer a todas as regras impostas.

Isso quer dizer que os condutores comuns podem ficar bem irritados e até mesmo colidir em veículos autônomos que estejam respeitando a velocidade máxima permitida numa via durante toda sua extensão. Afinal, grande parte dos motoristas está acostumada a pisar no acelerador e reduzir a velocidade apenas em áreas onde sabe que existem radares de monitoramento.

A descrição é um tanto bizarra, mas essa é a realidade: quem cumpre todas as regras no trânsito nem sempre se dá bem – e este pode ser o problema dos carros autônomos, o excesso de segurança. Em suma, ainda é preciso refinar o relacionamento entre o software dos veículos e os seres humanos.

Carro autônomo

Carro autônomo do Google interagindo com terceiros (Imagem: Divulgação)

Outro problema é a substituição completa de um ser humano na direção de um veículo. O ato mecânico de dirigir não envolve grandes segredos além de pressionar os pedais e movimentar o volante. No entanto, os ambientes de condução são muito complexos e envolvem vários tipos de decisões a serem tomadas antes de realizar o ato físico da direção.

Vamos imaginar uma situação comum: você está dirigindo por uma via de mão dupla, quando chega num cruzamento e o farol fica amarelo. O correto é reduzir a velocidade para parar no sinal vermelho, mas suponha que o carro que vem na faixa contrária acelere para tentar avançar o sinal, mas antes de ultrapassar o aparelho de sinalização percebe que não vai dar tempo e freia bruscamente.

Você continuará tranquilamente na sua faixa até parar na marca delimitada pelo semáforo, percebendo a intenção do outro motorista. No entanto, um carro programado para frear automaticamente numa ameaça de colisão frontal pode jogar o seu veículo para a direita, na intenção de desviar do objeto que se aproxima na faixa contrária à sua, imaginando que ele pode estar descontrolado, uma vez que não está obedecendo às normas de trânsito.

O cérebro humano tem a sua própria percepção de um espaço físico e também das atitudes tomadas por outros motoristas no trânsito, o que implica em suas decisões na hora de dirigir um veículo. A percepção humana tem diversos graus de complexidade e um dos grandes desafios das montadoras e empresas de tecnologia é tentar emular nosso cérebro para lidar com os ambientes de condução.

Enquanto autoridades, governos, montadoras, empresas de tecnologia e consumidores não chegam a um consenso sobre o futuro dos veículos autônomos, continuamos acompanhando toda a evolução do setor – o que não deixa de ser muito interessante.

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