Análise | Ford Territory: sobra espaço e tecnologia, mas falta desempenho

Análise | Ford Territory: sobra espaço e tecnologia, mas falta desempenho

Por Felipe Ribeiro | Editado por Jones Oliveira | 16 de Agosto de 2020 às 09h35
Felipe Ribeiro/ Canaltech

Mostrado pela primeira vez ao público brasileiro em 2018, o Ford Territory é um SUV médio pensado para o mercado chinês. Desde sua aparição, sabíamos que ele viria para cá, importado do país asiático, e com a dura missão de tentar abocanhar vendas dos rivais de categoria, mais precisamente do Jeep Compass, que domina o segmento desde quando foi lançado e tem um share de mercado de mais de 50%.

Com sua chegada, logo se viu que ele possui predicados que podem ser um atrativo em meio ao já saturado mercado de utilitários esportivos. Com excelente oferta de espaço, pacote tecnológico dos mais completos do segmento, design atraente e um preço até que agressivo, o Ford Territory, com o perdão do trocadilho, pode ter seu destaque em um território bem ocupado por inúmeros modelos.

Mas, ao rodar com ele, percebe-se que o desafio será enorme, gigante. O SUVão chinês tem um motor que, apesar de moderno, não apresenta um desempenho atraente. Pelo contrário: em dados momentos, ele chega a irritar e passa a impressão de ser um veículo manco. A Ford, porém, foi ousada, e pensa, ao menos inicialmente, em tirar vendas das versões intermediárias de seus concorrentes mais próximos, o já citado Compass e o Volkswagen Tiguan Allspace.

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O Canaltech passou um período com o principal lançamento da Ford para o mercado brasileiro em 2020 e contará tudo para vocês.

Cabe todo mundo

Quem busca um SUV sempre acaba pensando no espaço. O público-alvo desse tipo de veículo são sempre pais e mães de família que precisam de deslocamentos de toda ordem, mas que não abrem mão do conforto e do espaço para as crianças e para as compras. E nisso, o Ford Territory dá show, sendo bem superior aos seus rivais mais próximos.

Imagem: Felipe Ribeiro/ Canaltech

São 2,71m de distância entre eixos, o que proporciona, mesmo para pessoas mais altas, bastante espaço para viajar sem maiores problemas. No banco de trás, aliás, o duto central praticamente plano e o assento central sem saliências permitem que três adultos se acomodem perfeitamente. A largura também ajuda nessa sensação, já que são 1,93 (sem contar os espelhos).

Para o conforto, temos ar condicionado digital, mas apenas de uma zona, o que é uma mancada das grandes quando falamos de um carro desse porte e valor. Os ocupantes dos bancos traseiros, no entanto, têm uma saída exclusiva de ar, mas, com força bem limitada. Para compensar, a Ford equipou o Territory com aquecimento e resfriamento dos bancos dianteiros, algo exclusivo na categoria. Eu, sinceramente, trocaria tudo isso por um ar dual-zone. Que mancada, Ford, que mancada...

Imagem: Felipe Ribeiro/ Canaltech

Mas, apesar de todo esse espaço para as pessoas, o porta-malas é decepcionante. São 380 litros de capacidade, o que o coloca bem atrás da concorrência.

Falando sobre o acabamento, os materiais são de grande qualidade, mitigando um pouco o preconceito das pessoas com relação aos carros chineses. Sim, não nos esqueçamos, o Ford Territory é chinês. Na versão Titanium, por exemplo, a cabine tem os bancos e detalhes do painel em material suave ao toque e com duas cores, teto solar panorâmico e luzes de ambiente que podem ser modificadas entre oito diferentes tons.

Perfeitamente equipado

Além do espaço, o Ford Territory é um deleite quando pensamos em seu pacote tecnológico. A lista de equipamentos é extensa. Na versão que testamos para o Canaltech, a Titanium, que é a topo de linha, temos o seguinte:

  • Conjunto óptico em LED
  • Teto Solar Panorâmico
  • Antena tipo barbatana de tubarão
  • Rodas 18 polegadas
  • FordPass Connect
  • Cluster de 10 polegadas
  • Sensor e câmera de ré
  • Estacionamento automático
  • Assistente de saída em rampa
  • Assistente de saída de faixa
  • Seis airbags
  • Multimídia Sync Touch com Apple Car Play sem fio
  • Controles de estabilidade e tração
  • Freios ABS com EBD
  • Frenagem automática de emergência
  • Retrovisor Eletrocrômico
  • Controle de cruzeiro adaptativo com Stop & Go
  • Câmera 360º e visão panorâmica
  • Sensor crepuscular
  • Sensor de estacionamento dianteiro
  • Sensor de chuva
  • Sistema de som com oito alto-falantes

Em nossos testes, o que mais nos chamou a atenção foi o controle de cruzeiro adaptativo com a tecnologia Stop & Go. Ela funciona da seguinte maneira: você programa o Territory para ficar a uma certa distância do carro à frente e com um limitador de velocidade. O diferencial desse sistema, porém, é que se o carro parar por menos de três segundos e já retomar seu rumo, o Territory vai acelerar por você automaticamente e manter a distância já previamente programada.

Imagem: Felipe Ribeiro/ Canaltech

Em situações de trânsito intenso, é uma feature que trás um certo conforto e te deixa dar uma descansadinha nas pernas. Mas, sempre fique atento, pois se a parada demorar mais do que três segundos, o carro não vai andar e o sistema será desligado automaticamente.

Imagem: Felipe Ribeiro/ Canaltech

Além desse programa, o Territory conta com outro dispositivo bem interessante e que é exclusivo na categoria: câmera 360º com visão panorâmica. Até 20km/h e em manobras, o carro ativa uma visão 360 e permite que, por meio do seu software, você veja SUV como se estivesse fora dele. Isso ajuda em situações como balizas e saídas de garagem, evitando pequenos acidentes e atropelamentos.

FordPass Connect é um mimo a mais

Outra bela novidade que chega com o Ford Territory é o FordPass Connect, que transforma o SUV, até o momento, no mais conectado da categoria. Ele permite travar e destravar portas, dar partida acionando o ar condicionado, checar a pressão dos pneus e o nível de combustível e localizar o veículo remotamente, além de receber alertas de funcionamento, de acionamento do alarme e dar acesso ao manual do proprietário digital. Tudo isso, claro, pelo Smartphone, que deve ter instalado o app FordPass.

Imagem: Felipe Ribeiro/ Canaltech

Como em São Paulo tem feito um calor fora de época, resolvemos testar, além da partida remota, a climatização prévia do Territory. Segundo a Ford, o carro só poderá ser conduzido com a chave dentro do carro, ou seja, mesmo que, por um acaso, aconteça de alguém entrar no veículo antes, não será possível levá-lo. Pelo app, conseguimos determinar a temperatura e deixar o carro ligado por dois minutos antes de entrar nele, tudo muito rápido e preciso. Se o carro está na sua garagem e você dispõe de todo o conforto para sair sem problemas, dá para dizer que é uma feature das melhores presentes em um automóvel no mercado nacional.

Todos esses serviços do FordPass Connect serão disponibilizados gratuitamente para os proprietários durante o primeiro ano de uso. O preço para depois desse tempo ainda é um mistério.

Multimídia 

Também chega como novidade no Ford Territory a novíssima central multimídia Sync Touch, que traz importantes diferenciais no segmento. Com 10,1 polegadas, ela é, de longe, a maior presente no segmento. E com um display como esse, uma das soluções que a Ford encontrou para compensar a falta de botões no painel foi deixar seu software subdividido, possibilitando que comandemos todas as funções do automóvel sem maiores dificuldades.

Imagem: Felipe Ribeiro/ Canaltech

Seu sistema sensível ao toque é altamente responsivo e é muito fácil deslizar o cursor central para dividir os diferentes aplicativos presentes no Sync Touch. Para completar os recursos de infotenimento do Territory, o conjunto sonoro é composto por oito alto-falantes de altíssima qualidade e que preenchem bem o enorme interior do SUV.

Falta motor

O Ford Territory é um carro enorme, muitíssimo bem equipado, confortável e com acabamento bem interessante, o que o torna atraente para clientes que querem um SUV médio. Mas nem tudo são flores com o utilitário chinês da Ford e seu Calcanhar de Aquiles é justamente em seu coração, mais precisamente na combinação motor e câmbio.

Estamos falando de um propulsor Ecoboost 1.5 de 150cv e 22,9 kgm/m de torque, que aparecem entre 1500 e 4000 rotações por minuto. O problema talvez esteja no casamento com o câmbio CVT, que, mesmo pensado para o conforto, acabou sendo um tiro que saiu pela culatra.

Falta vigor para o Territory e ele não tem a agilidade que seu motor sugere. Se ele fosse equipado com um câmbio automático convencional de seis velocidades, talvez o SUVão chinês não parecesse tão manco. Essa sensação, aliás, é sentida em alguns momentos bem específicos, como as retomadas em alta velocidade, arrancadas e pequenas retomadas urbanas, que são todas capadas pelo câmbio CVT. O peso do carro, que é de 1.632 kgs, é outro agravante.

Imagem: Felipe Ribeiro/ Canaltech

Algo que também incomoda é o consumo. Segundo a Ford, o Territory faz algo na casa dos 9,3 km/l na cidade e 11,5 km/l, sempre com gasolina, único combustível que ele aceita. Em nossos testes, porém, chegamos em algo perto dos 8,0 km/l em circuito misto. De acordo com a montadora, seu motor foi modificado para ser capaz de receber nossa gasolina, que tem boa quantidade de etanol em sua composição. Isso, claro, afeta um pouco no consumo, mas, de novo, o casamento 1.5 turbo/ CVT é o responsável por esse número.

Na apresentação para a imprensa, na semana passada, a Ford fez questão de ressaltar que o Territory brigaria com as versões intermediárias de seus concorrentes, o Jeep Compass Limited flex e o Volkwagen Tiguan Comfortline. Ainda teremos a oportunidade de testá-los aqui para o Canaltech, mas, é possível dizer que, principalmente contra o rival alemão, o duelo é praticamente perdido, mesmo ambos tendo a mesma potência. Já quando falamos do Jeep, há até mais potência por parte do Compass, mas falta o torque em baixa.

Imagem: Felipe Ribeiro/ Canaltech

Isso porque nem vamos falar sobre a versão turbodiesel do Compass, que é o mesmo propulsor utilizado no Renegade, que despeja 170cv e 35,9 kgf/m de torque a 1500 rpm. Um verdadeiro canhão.

Há a esperança de que a Ford traga o Territory para ser fabricado no Brasil e faça algumas mudanças quando isso ocorrer. Um carro lindo e bem equipado como esse merece um motor bem melhor.

Suspensão estranha

Com um conjunto de suspensão independente do tipo McPherson na dianteira e, na traseira, as avançadas multilink, o Territory parece não ter sido pensado para as nossas ruas combalidas. Embora seja confortável, o SUV transmite muito as irregularidades do solo para a cabine, além de balançar um bocado. Foi possível, também, sentir algumas batidas secas quando passamos por um solo piorado, algo visto em carros americanos, tipicamente molengas.

Veredicto

O Ford Territory é uma grande aposta da montadora americana para o mercado de SUVs no Brasil. O utilitário chinês não nega suas origens e mostra que o foco aqui é no nível de equipamentos tecnológicos voltados à segurança e ao entretenimento. Com bom espaço, design moderno e acabamento interessante ele é uma ótima opção para quem precisa de um carro com espaço e mimos de tecnologia.

Mas, se você busca um SUV que tenha bom desempenho, consumo de combustível rentável e suspensão mais firme, o Territory não é para você.

O SUV médio da Ford já está em pré-venda e poderá ser comprado em duas versões: a Titanium, que sai por R$ 187.900 e a SEL, que sai por R$ 165.900.

O Ford Territory utilizado nesta análise foi gentilmente cedido pela Ford do Brasil ao Canaltech.

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