Nômades digitais: nova moda de profissionais é tornar o mundo seu escritório

Nômades digitais: nova moda de profissionais é tornar o mundo seu escritório

Por Márcio Padrão | Editado por Claudio Yuge | 20 de Julho de 2021 às 19h00
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Quando a holandesa Esther Jacobs tentou renovar seu passaporte na cidade de Amstelveen, ouviu da burocracia local que ela "não morava mais lá". O motivo: ela viajava tanto que não se enquadrava mais na lei que a determinava como cidadã do país: era preciso residir nele pelo menos quatro meses por ano. Ela fez desse limão uma limonada: desde então, Jacobs tornou-se uma empreendedora que roda o mundo como uma nômade digital, fazendo do mundo o seu escritório.

Isso aconteceu em meados de 2006, quando o máximo de computação em nuvem que tínhamos à mão eram emails e upload de fotos e arquivos – o beta do Google Docs, por exemplo, só surgiu três anos depois. Corta para julho de 2021: a Prefeitura do Rio de Janeiro lança o programa Rio Digital Nomads, que dá um selo a hotéis, pousadas e coworkings com infraestrutura e pacotes de longa permanência para turistas que forem à cidade para trabalhar.

Como quase tudo de novo que rolou no último ano e meio, a pandemia de COVID-19 acelerou uma tendência em ascensão: pessoas que tinham todo o seu trabalho ao alcance de um notebook com acesso à internet deixaram de se conformar com os limites do escritório, ou mesmo da sua casa, e foram em busca de experiências novas em outras cidades mais tranquilas e até visitar novos países, sem deixar de respeitar os prazos de entrega de seus chefes.

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Segundo uma estimativa do site Nomad Life, haverá cerca de 1 bilhão de trabalhadores nômades até 2035. Com um pouco de planejamento, a tecnologia atual permite essa liberdade a muitas categorias profissionais, mas ainda não é para todos. O Brasil é um exemplo: em fevereiro, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado ao Ministério da Economia, revelou que em novembro do ano passado a turma do home office – mais apta a aderir ao nomadismo – era só de 7,3 milhões, ou 9,1% do total de trabalhadores brasileiros.

Por que isso importa?

O site oficial da Rio Digital Nomads traz informações sobre a infraestrutura de turismo da cidade voltada a este público. Até agora, já cadastrou 56 hotéis, 14 hostels e 18 espaços de coworking. A intenção é tornar-se uma cidade referência para os nômades, e cita como exemplos Berlim (Alemanha) e Lisboa (Portugal) como exemplos a serem seguidos.

"A relação das pessoas com o trabalho mudou em todo o planeta, permitindo que muitos decidam em qual cidade viver, independentemente de onde funciona a sua empresa. (...) Esses tempos modernos permitem a experiência de se viver onde se deseja. Estamos oferecendo essa cidade incrível que é o Rio a todos que queiram viver como um carioca. Seja por um mês ou por vários”, afirmou a presidente da Riotur, Daniela Maia, no comunicado à imprensa.

Além do turismo, o município espera ganhar mais fôlego como pólo empreendedor. "Esse programa está diretamente ligado com o nosso planejamento, querendo trazer tecnologia e negócios para a cidade (...) juntando bem estar e trabalho no mesmo lugar", disse Rodrigo Stallone, CEO da Invest.Rio, agência de atração de investimentos da prefeitura do Rio. Essa tendência é chamada por aí de "bleisure", a junção das palavras business (negócios) e leisure (lazer).

De fato, a aposta do Rio aparentemente se mostra acertada, já que a tendência pós-pandemia é evidente. Segundo um levantamento da MBO Partners, o número de nômades digitais nos Estados Unidos cresceu de 7,3 milhões em 2019 para 10,9 milhões em 2020 – um aumento de 49%. Países como Costa Rica, Bahamas, México e Alemanha já experimentam leis mais flexíveis e até vistos para nômades digitais.

André Sena, chefe comercial da rede hoteleira Accor na América do Sul, acredita que a estrutura burocrática do país para o recebimento desse público, com vistos especiais e incentivos fiscais, tem peso nesse mercado. "Países ao redor do mundo estão visando uma nova classe de capital humano, de quem quer misturar viagens e trabalho para sempre", diz.

As empresas de turismo também vêm vantagens. "Os nômades ficam hospedados por um período maior do que outros viajantes. Isso diminui a frequência de atividades relacionadas a check-in e check-out recorrentes, reduzindo custos operacionais", diz Luiz Mazetto, diretor geral da Casai, startup mexicana de hospedagem com aparelhos inteligentes.

A nômade digital holandesa Esther Jacobs (Imagem: Reprodução/Instagram @estherjacobsnl)

Como entrar nessa?

Matheus de Souza, autor de "Nômade Digital: um Guia para Você Viver e Trabalhar Como e Onde Quiser", trabalhava como assistente de marketing e em 2015, perguntou aos gestores sobre a possibilidade de fazer home office. Após ouvir uma negativa, virou freelancer nas horas vagas para juntar dinheiro, demitiu-se em 2017 e meses depois, fez a primeira viagem como nômade para o México.

Para se tornar um andarilho remunerado, diz ele ao Canaltech, é preciso se ocupar com um trabalho que possa ser feito remotamente, um passaporte, uma passagem aérea e um lugar para ficar. Sobre o dinheiro para começar, ele diz que depende de quanto perrengue você quer passar. "Eu ganhava em torno de R$ 4 mil quando me tornei nômade e me virava como dava. Hoje ganho bem mais que isso e escolhi passar menos perrengues, então gasto mais. Tem gente que viaja com menos, e por aí vai".

O equipamento precisa aguentar o tranco também. Primeiro, o computador deve ser potente e também leve. A holandesa Esther Jacobs usa um Mac, que segundo ela, é o notebook referência para os nômades. "Sempre nos aeroportos você vai ver a luz da Apple", brinca, referindo-se à maçã acesa nas costas desses aparelhos. Também é preciso um bom celular, e ela ainda tem um roteador Mi-Fi, aparelho móvel que a conecta em qualquer lugar do mundo com sinal 3G, tirando dela a dependência de redes Wi-Fi locais. E claro, use e abuse de serviços em nuvem, do Google Docs ao Dropbox.

Davi Decampos, empreendedor brasileiro que viaja o mundo buscando inspirações para sua grife de moda, reforça a necessidade de haver muito planejamento, e claro, energia e conectividade. "Eu, por exemplo, sempre planejo meus dias em intervalos de 15 dias. Busco sempre estar em lugares que eu possa ter acesso à internet e sinal de telefone, além de me hospedar em lugares que eu me sinta confortável e com uma estrutura com tudo necessário para me conectar".

O nômade digital brasileiro Matheus de Souza (Imagem: Reprodução/Instagram @matheusdesouzacom)

As vantagens: liberdade e experiências novas

Os ouvidos pela reportagem são unânimes sobre as benesses dessa vida: em resumo, a liberdade de ir para onde quiser, quando quiser, ser mais dono de seu tempo, alternar com flexibilidade entre o trabalho e o turismo e enriquecer suas experiências pessoais e profissionais.

Esther Jacobs, em seu livro "Digital Nomads: How to Live, Work and Play Around The World" coescrito com André Gussekloo, lista algumas vantagens:

  • Romper com seu modelo anterior de estilo de vida: padrões como ter casa e carreira estável não são mais seguros quanto costumavam ser;
  • Seguir o clima: se sua cidade natal está chuvosa, vá a um país que está em temporada de verão;
  • Trabalhe em locais inspiradores: se quiser dividir ideias, vá a um coworking local; se quer algo mais relaxado e focado, procure uma pousada;
  • Viajar pelo mundo: você pode trabalhar em qualquer país com internet. Não é mais preciso esperar a aposentadoria ou férias para realizar seus sonhos de turismo;
  • Conhecer pessoas que pensam como você: com isso, você abre a mente sobre possibilidades pessoais e profissionais.

Os perrengues: da burocracia ao estresse

É tudo bem tentador, mas nem tudo são flores. Em primeiro lugar, a burocracia para lidar com isso ainda pode ser um problema. No caso de Esther Jacobs, relatado no início deste texto, por um tempo ela precisou ser enquadrada em uma lei voltada aos sem teto para continuar a ser considerada cidadã holandesa. Mesmo que ela seja proprietária de cinco apartamentos pelo mundo, de Miami (EUA) a Mallorca (Espanha). "O grande problema é sempre me perguntarem onde é minha residência permanente", lamenta.

O começo também pode ser difícil, já que você sai de um ambiente mais confortável para se jogar no desconhecido. Por isso, a empresária sugere que essa transição seja feita passo a passo. Ou seja, não venda sua casa e desista do emprego tão rápido para virar nômade. Tente entrar em um "emprego lateral" como freelancer para manter uma nova renda, e só quando você sentir que essa alternativa é promissora, daí então você pode se demitir do outro emprego para viajar.

Outra questão é a solidão. Matheus Souza se diz satisfeito com a escolha, mas admite: "Só rola uma saudade da família e dos amigos de vez em quando". Uma possível solução é interagir com a cultura local para evitar a sensação de isolamento social – algo que piorou com a pandemia.

A gestão do tempo e de dinheiro também podem ser problemas, porque as demandas de trabalho podem muitas vezes se sobrepôr ao planejamento de viagem. Ou pior: faltar o dinheiro necessário para pagar as contas no meio de um país mais isolado, por exemplo, o que pode gerar excesso de trabalho para cobrir o rombo, estresse e frustração. O fator grana é mais problemático para brasileiros, com o real bem desvalorizado em relação a moedas como o dólar, euro e libra.

Contra isso, novamente é necessário planejamento, o que significa contar com uma boa verba de segurança e um bom plano B para retornar a um ambiente seguro no seu país natal. Além disso, busque países com moedas mais barata, como México, Tailândia ou Indonésia. Se possível, passe períodos mais longos em cada cidade que visitar, pois isso ajuda a conhecer tudo com calma e traz um pouco de organização para o trabalho, sem muito vaivém.

Ah, e cuide bem dos seus equipamentos. Se o seu laptop quebrar no meio da viagem, tente improvisar um tempo com o celular ou um tablet e tenha dinheiro reservado para consertá-lo ou em último caso comprar outro. Também guarde todo o seu trabalho em serviços de nuvem, para não perder nada por causa de um aparelho defeituoso.

O nômade digital brasileiro DaviDecampos (Imagem: Reprodução/Instagram @elevateothers_)

Veio para ficar?

Como estamos hoje, ainda há uma estrada longa para transformar o trabalho remoto – e por tabela o nomadismo digital – em algo simples para todos. Normalmente alguns alguns setores estão mais propensos ao teletrabalho, como criativos (redatores, designers, ilustradores, editores e do audiosisual), programadores e certos gestores.

Já outros nem tanto. Um levantamento da Pew Research Center nos EUA mostra que 84% dos bancários ouvidos disseram ver condições na mudança, enquanto só 16% do pessoal de transportes acham isso possível. A própria pandemia provou na prática: muitos trabalhadores considerados "essenciais" à sociedade precisaram sim atuar in loco, dos médicos aos entregadores de comida.

Ainda há também a questão burocrática e cultural para lidar. Meses depois de ter sido "demitida" de seu país, Jacobs foi contratada pelo governo da Holanda para ajudá-los a resolver a 'questão' dos nômades digitais. "Propus a criação de uma 'rua digital'. Eu não me importaria em me registrar na Rua Digital nº 1, pagar minhas taxas locais, ter seguro de vida, minha pensão, como qualquer residente na Holanda. Mas eles não querem isso, e sim que os nômades vão embora", diz.

Mas o futuro é animador. Segundo um estudo de 2019 da Dell, 85% das profissões que existirão em 2030 ainda não foram criadas. Então, nessa pegada espera-se que cada vez mais empregos presenciais seja trocados por digitais.

"A tendência é as empresas irem se adaptando. Vivemos em uma era onde é perigoso permanecer como está: ou você acompanha o mercado e traz inovações ou pode ter como consequência um atraso e até mesmo um retrocesso nos resultados. A tecnologia é capaz de possibilitar e unir a produtividade com qualidade de vida", diz André Sena, da Accor.

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