Entendendo a preferência do usuário através do Antutu, parte 3: CPU e RAM

Por Pedro Cipoli | 27.07.2016 às 23:35

A quantidade de núcleos dos smartphones cresceu em uma velocidade impressionante, para dizer o mínimo. Do Galaxy S original anunciado em 2010 até o Galaxy S4, em 2014, os cores de CPU dobraram ano após ano, saindo do single-core e chegado no octa-core (versão Exynos do Galaxy S4). O mesmo ocorreu com o clock, que pulou de 1 GHz nos modelos top de linha para chegar a 2,7 GHz no Snapdragon 805, presente em modelos como o Moto Maxx e o Galaxy Note Edge.

O mesmo ocorreu com a memória RAM. Em 2010 o “padrão top de linha” era 512 MB, geralmente DDR2, mas atualmente é comum mesmo os modelos mais básicos trazerem nada menos do que 2 GB. Já o segmento flagship usa 6 GB de memória RAM padrão LPDDR4, isso na data em que esse artigo foi finalizado, já que modelos com 8 GB estão logo ali na esquina. Um fato curioso, para dizer o mínimo, já que ainda é bastante comum encontrar laptops om 4 GB de memória RAM.

Mas em que estado estamos atualmente? Hora de analisar os dados do Antutu a respeito.

Núcleos importam?

Como podemos ver no gráfico abaixo, 50% dos aparelhos registrados no Antutu no primeiro semestre do ano trazem chips de oito núcleos (50,00%! Cravado!):

Antutu

Com exceção da Apple, é muito raro (senão impossível) ver modelos novos trazendo somente 2 núcleos de CPU, mesmo os mais básicos.

Vale lembrar que os primeiros chips de oito núcleos não traziam exatamente 8 núcleos, sendo, na verdade, dual-quad-cores. Esses primeiras gerações conseguiam usar somente um dos clusters por vez, dependendo do foco em economia de energia ou desempenho (todos os primeiros modelos usavam o big.LITTLE, usando Cortex-A heterogêneos), não trazendo a capacidade de ativar os oito núcleos simultaneamente, como hoje é bastante comum.

Mais interessante ainda é que modelos com apenas dois núcleos estão realmente à beira de extinção. Atualmente, somente a Apple usa apenas dois núcleos (que são bastante poderosos, diga-se de passagem, como explicamos nos links acima), um fato que não é muito difícil de acreditar, já que até mesmo o Freedom 251, aquele smartphone que custa somente R$ 12,50, traz um chip de 4 núcleos, sendo o modelo mais barato do mundo.

Ao mesmo tempo em que os chips quad-core se tornaram o requisito mínimo para qualquer smartphone Android, os de oito núcleos se tornaram mais ou menos mainstream. Modelos como o Snapdragon 610, 615, 617 (Qualcomm), MT6753 (MediaTek) e Exynos 7580 (Samsung) são bastante comuns atualmente, presentes em boa parte dos intermediários, ainda que tenham pouca relação com desempenho final.

Freedom 251

Mesmo custando somente R$ 12,50, o Freedom 251 vem com uma configuração muito parecida com a do Galaxy S3 (2012), mostrando a velocidade de evolução do hardware de smartphones.

Atualmente, usuários sabem que a quantidade de núcleos de CPU não diz muito sobre o seu desempenho. Chips como o Apple A9 (dual-core) e o Snapdragon 820/821 (quad-core) conseguem resultados superiores por focar em eficiência single-core com uma poderosa GPU (PowerVR XT7600 e Adreno 530, respectivamente), batendo até mesmo o Exynos 8890 em diversos testes, mesmo que este seja um chip de oito núcleos projetado para um top de linha. O marketing por trás dos oito núcleos já não tem o mesmo apelo de antes.

E os modelos hexa-core e deca-cores? Ambos ainda contam com uma pequena participação na divisão total de aparelhos (8,65% e 2,01%, respectivamente), talvez pela pouca quantidade de dispositivos com essa configuração. Dos hexa-cores, o Snapdragon 808 é um dos poucos existentes, e ele só chegou ao mercado como uma solução contra o superaquecimento do Snapdragon 810. No entanto, a pequena porcentagem de modelos deca-core impressiona, já que o Helio X20 é o único modelo atual (até a data de fechamento deste artigo) – então esses 2,01% incluem somente ele. É exatamente esta a relação que vemos no gráfico acima.

Antutu

Todos os Exynos e Kirin trazem 8 núcleos, assim como o Helio X10 e o Snapdragon 652. Já o Snapdragon 820 é quad-core e o Helio X20 é deca-core, apontando uma estabilização dos modelos com 8 núcleos.

Ainda há espaço para 1 GB de memória RAM?

Para a nossa surpresa, os smartphones com 1 GB representam mero 1,58% do total de aparelhos. Aliás, nem isso, já que essa porcentagem inclui também modelos com 512 MB (que alguns fabricantes ainda insistem em vender) ou 1,5 GB (bastante raro). Não vale nem a pena discutir os modelos com 512 MB: eles não deveriam existir e ponto final, sendo um desrespeito ao consumidor usar essa configuração com a desculpa de vender barato, pois sabemos que de baratos eles não têm nada.

Antutu

Modelos com 1 GB se tornaram tão raros que já são categorizados como "outros", junto com modelos com 512 MB e 1,5 GB.

Mas será que ainda existe espaço para modelos com 1 GB? Devemos considerar o mundo como um todo, e não somente o Brasil, já que alguns fabricantes por aqui ainda anunciam modelos que já seriam defasados anos atrás. O Moto G3 (2015), trazia opções com 1 GB e 2 GB, marcando uma época de transição, já que não existe essa opção no Moto G 2016. Intermediários com 1 GB estão fadados a fracassar, ainda mais quando consideramos que, ainda em 2015, modelos nessa faixa traziam 2 ou 3 GB (no caso, Moto X Play e Zenfone Selfie).

Considerando a proporção do Antutu, além dos próprios comentários dos usuários, acreditamos que quem compra modelos com 1 GB, atualmente, busca unicamente economizar. É bastante improvável que o fabricante que anuncia esses modelos considere, mesmo que por um pequeno momento, atualizá-lo para alguma outra versão do Android. Isso quando eles trazem a versão mais atual, já que modelos com o Android 6.0 Marshmallow pré-instalado só começaram a se popularizar no segundo semestre deste ano, quase 9 meses depois do seu anúncio oficial.

iPhone SE

Um dos fatores que ajudaram no mínimo de 2 GB de memória RAM foi o fato de a Apple começar a usar essa configuração nos modelos com chip Apple A9.

Acreditamos também que as estatísticas do segundo semestre desse ano apresentem modelos com 1 GB (assim como 512 MB e 1,5 GB) com menos de 1% de participação, já que quem compra esses modelos não tem a menor intenção de ficar com eles durante muito tempo. E, mesmo que fosse o caso, sabe que ficaria sem o menor suporte da fabricante.