Tudo o que você precisa saber sobre o Freedom 251, smartphone que custa US$ 4

Por Pedro Cipoli | 04 de Julho de 2016 às 23h50

O que esperar de um smartphone com um preço de R$ 12,50? É possível vender um modelo por esse preço, para início de conversa? Aparentemente sim, já que o Freedom 251 é exatamente isso. O número "251" se refere ao preço do aparelho em rúpias indianas (INR), que em uma conversão direta para o real sai aproximadamente o valor da primeira linha na cotação de hoje. É, de longe, o smartphone mais barato já anunciado.

As suas especificações, aliás, são melhores do que as do iPhone original, considerado o primeiro smartphone do mundo e que chegou ao mercado por US$ 499 (cerca de R$ 1.730 em uma conversão direta, considerando o valor do dólar atualmente), surpreendendo os que esperavam especificações ruins. E o que será que ele tem a oferecer?

Especificações

O chip que equipa o Freedom 251 não traz detalhes de quem o fabricou, mas trata-se de um quad-core rodando a 1,3 GHz com 1 GB de memória RAM, bateria de 1.450 mAh (quase um iPhone! Ainda assim, bem limitada), tela de 4 polegadas e um par de câmeras de 8 megapixels (traseira) e 3,2 megapixels (frontal). Se pararmos para analisar essas informações, veremos que ele não fica muito longe dos modelos de baixo custo vendidos no Brasil, só que custando apenas uma pequena fração do preço final.

Freedom 251

Impressionantemente, o Freedom 251 vem com um kit completo, incluindo até mesmo um fone de ouvido.

Qual é a versão do Android? Nada menos do que a 5.1 Lollipop, ponto que chega a ser surpreendente, já que não são raros os modelos vendidos atualmente (com preços muito maiores) que trazem versões mais antigas sem previsão de atualização. Isso coloca a desculpa de falta de hardware em perspectiva, não? Se um modelo extremamente básico vendido por um valor tão baixo está com a versão 5.1, por que a fabricante não atualizou seu modelo de 1 ou 2 anos atrás, mesmo?

Detalhes da tela, fora o seu tamanho de 4 polegadas, também não foram divulgados, ainda que seja difícil imaginar uma resolução maior do que 540x960 (qHD) e um painel diferente do TFT. Não aparenta ter uma qualidade ruim, aliás, pelo menos se tomarmos como bases as fotos vazadas. Se existisse uma relação custo-benefício que comportasse todos os aparelhos, o Freedom 251 certamente estaria em uma distante primeira posição, já que a dúvida estaria entre comprá-lo ou levar 1 Kg de feijão para casa.

Como é possível chegar a esse preço?

A fabricante do Freedom 251 já admite que perde dinheiro a cada unidade vendida. Quanto? Segundo Mohit Goel, fundador da Ringing Bells, algo entre 140 e 150 INR (R$ 2,40 ou R$ 2,50, em uma conversão direta), um valor bastante pequeno. Mas qual a motivação por trás disso? Duas, principalmente: vender um modelo acessível o suficiente para ser adquirido por moradores da área rural e pessoas de baixa renda na Índia, já que o segundo modelo mais barato disponível no país é oferecido por US$ 54, inacessível para grande parte delas. O segundo é ganhar presença no mercado, já que mercados gigantes como a China e a Índia passaram a contar com diversas novas empresas no setor com produtos de altíssimo custo-benefício.

Freedom 251

Mesmo sendo um dos modelos mais baratos que conseguimos lembrar, o design dele não chega a ser ruim.

Em relação ao aparelho em si, é de se esperar que os componentes internos sejam os mais baratos quanto possível. Não estamos falando da configuração, mas sim dos controladores de tensão, capacitores e afins, o que certamente ajudou a diminuir o custo final do Freedom 251. Já em relação à configuração, nota-se a ausência de um modem 4G (recheado de licenças) e falta de detalhes em relação ao SoC. Provavelmente não se trata de um modelo fabricado por empresas mais famosas, como a MediaTek, mas sim uma com menor penetração de mercado, como Rockchip, com uma arquitetura antiga, o que torna o seu custo final bem menor (em outras palavras, um Cortex-A5 ou A7, memórias antigas e uma GPU 2D com capacidade de decodificação de vídeo somente, como a Vivante).

O mesmo é válido para a memória interna. Aliás, chega a ser surpreendente que uma empresa consiga vender um modelo com 8 GB de memória interna e vários modelos no Brasil insistem em colocar somente 4 GB ainda hoje, mesmo custando diversas ordens de grandeza a mais e com a desculpa de que é para manter o custo baixo (o que por aqui significa R$ 300 ou R$ 400). Em relação ao design, o Freedom 251 é um clone do Adcom Ikon 4, tanto em relação ao aparelho quanto aos ícones do Android 5.1 Lollipop, com pouquíssimas modificações em relação ao Android puro. Ou seja, zero investimento em pesquisa e desenvolvimento aqui, o que não é algo ruim, considerando o foco do aparelho.

Freedom 251

Vários renders saíram antes do lançamento.

Por último, o volume de vendas ficou restrito a 2,5 milhões de unidades, com 200.000 unidades entregues por mês, assim como disponibilidade restrita à Índia, o que restringe o custo da cadeia de suprimentos. O Freedom 251 é fabricado na China e distribuído na Índia com todas as isenções possíveis, o que não tira o mérito de ser um smartphone com um custo de fabricação de apenas R$ 15.

Será possível comprá-lo no Brasil?

Com as informações que temos no momento, é certo que ele não chegará ao Brasil. Provavelmente será possível importá-lo de alguma loja do exterior, ainda que não consigamos imaginar um cenário onde isso seja interessante. Não que o Brasil não conte com o mesmo público-alvo da Índia, já que quem tem acesso a internet e pode realizar compras internacionais dificilmente precisa economizar no smartphone. Mesmo porque, não é esse o foco do Freedom 251, e sim dar uma oportunidade de acesso ao seu primeiro smartphone e apenas podem adquirir um modelo tão barato quanto ele. Nada impede, porém, que alguém consiga comprá-lo no Brasil, ainda que tenha que adicionar o IOF ao preço final. De qualquer forma, ele não seria taxado ao chegar aqui, pois – em teoria – ele tem um valor bem abaixo dos US$ 100 atuais de limitação.

Conclusão

O Freedom 251 é responsável por dois marcos importantíssimos. O primeiro deles é que mostra ser possível construir um smartphone realmente acessível para pessoas de baixa renda. Nada de discurso para vender um modelo ruim e cobrar um valor desproporcionalmente caro por ele, como acontece com muitos fabricantes por aqui, mas sim oferecer um modelo até bastante ok por um preço que é até difícil de acreditar. Ele tanto ajuda as pessoas a ter o seu primeiro smartphone quanto levanta uma questão interessante: com a diminuição do hype dos smartphones, com pessoas cada vez menos vendo razões para investir alto em um modelo, será que um aparelho como o Freedom 251 é capaz de mostrar que é bom o suficiente para quem quer o mínimo da experiência de um smartphone?

Freedom 251

Esse é, aparentemente, somente o primeiro passo da Ringing Bells, que assumiu o compromisso de criar a televisão mais barata do mercado, que também se chamará Freedom.

Em segundo lugar, a Ringing Bells é, talvez, uma das primeiras empresas que realmente buscaram oferecer um modelo para a população de baixa renda de seu país. Já houve outras tentativas, é claro, como o projeto Android One, mas certamente não com um valor tão acessível como o do Freedom 251. Sem entrar na questão dos motivos por trás de oferecer um modelo tão barato (imperativo categórico?), se é ajudar as pessoas ou propagar a marca da Ringing Bells (ou ambos), não podemos deixar de considerar que se trata de um projeto quase humanitário. Querendo ou não, talvez isso estimule outras empresas a fazer o mesmo, oferecendo smartphones para quem realmente não poderia adquirir um como estamos acostumados.

Fontes: Indian Express, Mashable

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