Vacinas atuais funcionam contra variante Ômicron?

Vacinas atuais funcionam contra variante Ômicron?

Por Ingrid Oliveira | Editado por Luciana Zaramela | 01 de Dezembro de 2021 às 15h40
Degroote-Stock/Envato Elements

Muito se especula sobre o que está por vir depois da descoberta da variante Ômicron (B.1.1.529) do coronavírus, no dia 24 de novembro, identificada na África do Sul. Dúvidas sobre quais os sintomas, a letalidade, quão transmissível ela é ou se as vacinas disponíveis farão efeito ainda não foram respondidas — mas alguns especialistas já começaram a traçar possíveis cenários.

Por conta do alto número de mutações — 50 ao todo, sendo mais de 30 na proteína spike (S), que ajuda o vírus a entrar na célula humana — a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a B.1.1.529 como variante de preocupação (VOC). Ainda não é sabido se a nova cepa será capaz resistir aos imunizantes disponíveis.

Cientistas de todo o mundo tentam responder essas questões. Stéphane Bancel, executivo-chefe da farmacêutica Moderna, disse em entrevista ao jornal Financial Times que, ao que parece, haverá uma queda importante da imunidade. Ele só não sabe quão impactante isso será e que teremos que esperar os dados — que só devem sair nas próximas semanas.

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Cientistas ainda não têm certeza sobre a eficácia das vacinas contra a variante Ômicron, que apresenta mais de 50 mutações (Foto: RossHelen/Envato Elements)

As vacinas serão eficazes contra a variante Ômicron?

Os imunizantes desenvolvidos até agora se mostraram eficientes no combate de outras cepas do coronavírus, como a mais contagiosa até então, a Delta. Contudo, a grande quantidade de mutações na Ômicron é o que coloca o mundo em alerta.

As vacinas de mRNA, como aquelas desenvolvidas por Pfizer e Moderna, trazem consigo parte do código genético do vírus SARS-CoV-2 com edições para que nossas células "leiam a mensagem" do RNA e fabriquem a proteína S. Depois de introduzido no organismo, o sistema imunológico identifica o antígeno e gera uma resposta de combate capaz de nos proteger caso sejamos infectados pela covid-19.

Por outro lado, há doses, como da AstraZeneca e a CoronaVac, formuladas com o chamado vetor viral, um vírus inativado que possui um código genético em seu interior. Nesse caso, a resposta imunológica é um processo semelhante ao anterior. Nosso corpo identifica o agente invasor e trabalha produzindo células de defesa.

O imunologista Jorge Kalil Filho, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, falou à BBC que o caso da Ômicron é um pouco diferente. Segundo ele, essa variante traz muitas mutações em lugares estratégicos, como a região da espícula que se liga ao receptor das células — a proteína S. "E isso abre a possibilidade de que os anticorpos neutralizantes parem de funcionar como observado até agora", disse.

Possíveis cenários para a Ômicron, segundo a ciência

Ainda não há dados suficientes para saber se a B.1.1.529 irá driblar a imunidade adquirida nesses quase dois anos de pandemia. Mas, especialistas já traçaram situações que podem ocorrer, levando em consideração os dados de vacinação e resposta imunológica até agora.

No primeiro deles, a imunidade de quem já teve covid-19 ou tomou as doses recomendadas de vacina continua suficientemente alta. Numa segunda possível situação, pode haver queda na imunidade, porém boa parte de quem está vacinado ou já foi infectado continua com um nível bom de proteção contra as formas mais graves da doença. E por último, a perda da defesa adquirida é grande, e parte da população volta a ficar mais vulnerável, especialmente os mais velhos e pessoas com comorbidades.

É importante ressaltar que todos esses cenários são especulações traçadas com base nas informações disponíveis até o momento. Os pesquisadores estão tentando buscar respostas nas amostras de sangue de pessoas vacinadas ou recuperadas da covid e testando em laboratório para ver a reação do material com a Ômicron.

Kalil Filho acredita que essa estratégia nos dá uma ideia sobre se os anticorpos conseguem neutralizar a nova variante de uma maneira parecida ao que acontecia com as outras versões anteriores do coronavírus. Além disso, outro jeito de monitorar a perda de efetividade das vacinas é observar o que acontece nos lugares onde a variante circula com mais intensidade e comparar os testes de diagnóstico com o número de casos ao número de pessoas vacinadas.

No pior dos cenários, população idosa voltaria a sofrer com a variante Ômicron (Foto: Erika8213/Envato Elements)

Casos da Ômicron no mundo

Com apenas uma semana de conhecimento da variante pela OMS, a nova cepa do coronavírus já está presente em todos os continentes e em dezenas de países, incluindo o Brasil. A África do Sul está enfrentando um surto de infecções causadas pela Ômicron.

Waasila Jassat, especialista de saúde pública no Instituto Nacional para Doenças Comunicáveis sul-africano, disse em entrevista coletiva que cerca de 87% dos internados na província não estão completamente vacinados. Além disso, há um número alto de crianças pequenas precisando de hospitalização.

A a imunologista Cristina Bonorino, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, ouvida pela reportagem da BBC, disse que o grande problema é justamente esse. Se continuarmos nessa situação de não vacinar grande parte do mundo, como os países mais pobres da África e da Ásia, uma hora ou outra vai surgir uma nova variante com mutações que conseguem escapar totalmente das vacinas.

A Organização Mundial da Saúde continua a recomendar que o mundo não flexibilize as medidas de restrição como o uso de máscaras e distanciamento social. A indicação é que os países continuem avançando com as campanhas de vacinação para toda a população indicada.

Posição da Anvisa sobre vacinas e Ômicron

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária anunciou que está trabalhando com outros órgãos internacionais e farmacêuticas para acelerar a resposta sobre os possíveis impactos da variante Ômicron.

Em nota, o órgão regulador afirma que a expectativa é que nas próximas semanas os dados sobre nova cepa já estejam disponíveis para avaliação. Em caso de doses de reforço, a Anvisa afirma o compromisso de atuar com agilidade na permissão das atualizações das vacinas. 

O comunicado também diz que a agência já encaminhou um pedido de atualização a todas as desenvolvedoras de imunizantes autorizados no país — Pfizer, Butantan, Fiocruz e Janssen — para entender o andamento dos estudos sobre imunização. Mas reconhece que é preciso tempo para que as análises genéticas da Ômicron estejam disponíveis. 

Enquanto isso, a recomendação é que toda a população mantenha a prevenção contra a covid-19, adotando medidas de precaução como o uso de máscara, higienização das mãos e distanciamento social. Além disso, reforça a necessidade de vacinação para todos, bem como as doses de reforço disponíveis. 

Fonte: BBC Brasil; OMS; O Globo; Financial Times; Anvisa  

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