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Realidade Mista | Cirurgião brasileiro opera com HoloLens 2, da Microsoft

Por  • Editado por  Douglas Ciriaco  | 

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Reprodução/ Microsoft
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Nos últimos 10 anos, a tecnologia aplicada à medicina tem permitido um ganho, de difícil mensuração, nos conhecimentos da biologia do corpo humano. Em parte, esses novos saberes só foram adquiridos a partir da superação técnica do humano, como imagens em alta resolução que revelam o movimento do DNA no núcleo das células ou ainda uma Inteligência Artificial (IA) capaz de solucionar um enigma do coração apontado há 500 anos por Leonardo da Vinci.

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Estes são só alguns exemplos da mudança no campo de pesquisa de cientistas e médicos, mas a inovação também modifica a medicina, na prática, como dentro das salas de cirurgia, a partir da Realidade Aumenta (MA) e Mista (RM). Nessa nova sala de cirurgia, o mundo real e o virtual se fundem e cirurgiões já podem sobrepor algumas visualizações digitais e hologramas projetados em tempo real, como exames de imagem, no corpo do paciente, enquanto conversam com um especialista do outro lado do mundo.

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Para entender quais recursos já estão disponíveis em uma sala de cirurgia — e de fato podem ser úteis para os profissionais —, o Canaltech acompanhou, de forma remota, uma artroscopia, realizada pelo Dr. Bruno Gobbato, cirurgião ortopédico e especialista em cirurgias de ombros e cotovelos, no Hospital Jaraguá, em Santa Catarina. A operação integrou as atividades do 24-hour Holographic Surgery, evento internacional organizado pela Microsoft para demonstrar o potencial da RM na medicina.

Na ocasião, o médico vestia óculos inteligentes de RM desenvolvidos e fabricados pela Microsoft, o HoloLens 2, e estava na companhia virtual de dois especialistas: John Erickson, cirurgião ortopédico no Hospital Overlook, nos EUA; e Thomas Gregory, cirurgião do Hospital Universitário Avicenne AP-HP, na França.

Cirurgias com Realidade Mista

De modo geral, cirurgias ortopédicas já podem se beneficiar com equipamentos de RM, como cirurgias de próteses ou ainda procedimentos mais simples, como a artroscopia, realizada pelo Dr. Gobbato no evento. Neste caso, o paciente sofrera um acidente de bicicleta, onde quebrou a clavícula e, para a fixação do osso, foi instalada uma placa. Depois de algumas semanas de uso para o osso se restabelecer, o paciente voltou para a sala de cirurgia, dessa vez, para a remoção da placa estabilizadora.

Na ocasião, Gobbato vestia os HoloLens 2 e, dessa forma, pode conferir os exames de imagem projetados no corpo do paciente, como um raio-x. Depois de verificar as condições do local, desligou os óculos e removeu, de forma simplificada, a placa a partir da artroscopia de ombro. Vale explicar que a artroscopia é um procedimento cirúrgico feito para avaliar a situação de lesões que ocorrem dentro das articulações, de forma similar a uma endoscopia, isto é, um procedimento minimamente invasivo.

Há cerca de quatro anos, Gobbato já adota óculos de RM em suas cirurgias. "Na verdade, usamos a tecnologia de realidade aumentada desde o seu lançamento, em 2016, com o HoloLens 1", conta o médico que é também um entusiasta da tecnologia em conversa exclusiva. Naquele ano, o sócio do cirurgião, o Dr. Henrique Lampert comprou, no eBay, uma versão de desenvolvedor e viajou até os Estados Unidos para buscar. "Com ele, fizemos algumas cirurgias de coluna e de próteses de ombro", comenta.

"O primeiro procedimento foi uma sequela de uma fratura de clavícula. Este era um paciente norte-americano que já havia se submetido a sete procedimentos prévios", detalha o caso. "Fizemos algumas postagens no LinkedIn sobre as possibilidades e este senhor pegou um avião e veio para o interior de Santa Catarina se submeter a esta cirurgia", explica Gobbato sobre a cirurgia feita em janeiro de 2017.

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Na época, "fizemos a transmissão ao vivo para a família nos Estados Unidos com o HoloLens 1. Foi uma cirurgia diferente, e isso me marcou. Felizmente ocorreu perfeitamente. Ainda mantenho contato com este 'corajoso' paciente", afirma o cirurgião.

"Com a chegada do Hololens 2 [usado durante a artroscopia], sentimos uma melhora significativa na 'tracking', mas, principalmente, na portabilidade do device. Temos realizado cirurgias principalmente de próteses e correções de deformidades, que são cirurgias que demandam uma precisão maior. Mas o potencial é ilimitado" aposta Gobbato. De acordo com o especialista, "as cirurgias de alta precisão, como a neurocirurgia, é outro campo muito interessante para a realidade mista".

Como usar o HoloLens na sala de cirurgia?

No procedimento que acompanhamos, um pool de informações sobre o paciente, literalmente, salta na frente do cirurgião, o que poderia atrapalhar ou incomodar a percepção. "Não utilizamos o device durante todo o procedimento. Ele se faz mais necessário em momentos críticos. A primeira versão do HoloLens não permitia levantar o visor, mas com o HoloLens 2, você consegue levantar o visor nos momentos que você não precisa dele", explica o médico sobre o uso controlado dos óculos.

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"A principal vantagem é o controle por gestos e voz. Portanto, não precisamos tocar em nada para ter acesso a qualquer dado do paciente. Mas, é muito mais que ter o exame em mãos. É transformar aqueles exames que são tecnologias 2D em um planejamento 3D. É um paralelo como se ver duas fotos e tentar imaginar um filme, ao ver realmente este filme na sua frente", comenta sobre a usabilidade da realidade mista durante os procedimentos.

Inclusive, o cirurgião Gobbato explica que a conversa entre os outros médicos, de fato, aconteceu durante o procedimento de artroscopia. "Colocamos virtualmente os dois colegas como quadros na parede. Eles tinham o meu ponto de vista (FPV) e visualizavam todos os modelos 3D em tempo real. Isto abre para cirurgias realizadas com auxílio remoto", afirma. Em outras palavras, é um dos primeiros passos para uma operação com uma junta médica remota.

Potencial da RA nas cirurgias

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Embora a RA já permita alguns procedimentos e auxilie médicos na hora da tomada de decisões, o alcance ainda é restrito. "Acredito que a realidade mista será como o smartphone. Ainda não desvendamos o real uso dela. Começamos com o smartphone para acessar a internet e mandar mensagem, hoje é um computador pessoal. Os óculos de realidade mista já são computadores rodando Windows 10. Só precisamos explorar mais ainda seu potencial. E isto virá com o uso de Machine Learning", reflete o cirurgião.

"Podemos traçar um paralelo com a aviação. Fazer uma cirurgia é como pousar um avião apenas usando as referências visuais, conhecimento do piloto do terreno, condições meteorológicas; mas, se algo mudar, podemos ter problemas", ilustra Gobbato sobre a atuação pré-tecnologia. Agora, é possível uma "pilotagem por instrumentos" através da realidade aumentada.

"Você pode contar com instrumentos para ajudar a direcioná-lo no melhor caminho e, também, evitar locais indesejados, exatamente como pilotar um avião com mau tempo. Hoje, é possível pousar um 737 em Congonhas sem sequer ver a pista. Num futuro próximo faremos o mesmo nas cirurgias. Este é o primeiro momento da virada deste paradigma em algumas cirurgias", aponta o cirurgião para o futuro a partir do paralelo entre o avião e uma sala de cirurgia.

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Nesse tempo relativamente próximo, as tecnologias de realidade aumentada e telemedicina devem se fundir ainda mais. "O próximo passo é inserir a cirurgia robótica. Já estamos testando um braço robótico impresso em 3D", prevê o cirurgião ortopedista.