As principais teorias de conspiração sobre o coronavírus — e por que viralizam

Por Claudio Yuge | 15 de Abril de 2020 às 15h07
Lancenet

“O coronavírus é uma arma biológica criada pela China”, “a radiação do 5G ajuda a espalhar o coronavírus”, “o coronavírus pode ser curado com o uso de cocaína” e por aí vai. Você provavelmente já deve ter ouvido falar ou lido em alguma corrente de WhatsApp ou redes sociais alguma coisa envolvendo ideias mirabolantes, profecias apocalípticas ou planos meticulosamente orquestrados para que estivéssemos passando por este exato momento de pandemia.

Embora hajam conexões culturais, sociais e econômicas com crises de grandes proporções, todas essas teorias de conspiração não passam de delírios coletivos. Mas por que elas são tão populares e viralizam com tanta facilidade? Bem, antes de falar sobre essa resposta, vamos relembrar alguns dos casos mais famosos vistos por aí na Internet:

— Coronavírus foi criado pelo homem para ser uma arma biológica

Mito: A luta pelo poder teria feito com que a China ou os Estados Unidos usassem seus laboratórios especiais para patógenos perigosos para a criação do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Algumas variantes dessa ideia envolvem o Reino Unido com produção de drogas radioativas e, em outra versão, a parceria foi entre Estados Unidos e Israel. Para piorar, autoridades dos próprios governos dos Estados Unidos e da China chegaram a trocar acusações sobre isso, o que alimentou ainda mais essa teoria.

Fato: A própria Ciência, por meio do mapeamento genético do patógeno, encontrou muitas evidências de origem natural. E, convenhamos: uma arma biológica com taxa de mortalidade baixa (lembrem-se, o número de mortos se dá pela velocidade de contágio e falta de profissionais, equipamentos e locais para tratamento) e com tantos alvos aleatórios seria um tanto ineficaz caso você realmente quisesse se livrar de alguém, não?

— A radiação do 5G é o que causa a disseminação rápida do novo coronavírus

Mito: O 5G aumenta a velocidade do contágio e essa história ganhou força quando um médico belga vinculou os "perigos" da tecnologia ao vírus durante uma entrevista em janeiro. Posteriormente, uma comunidade contra a quinta geração de internet móvel na Austrália espalhou que viajantes do navio Ruby Princess disseram que “cruzeiros são saturados por radiação” — e isso seria a causa de mais de 600 infecções e 11 mortes por COVID-19.

Fato: A preocupação com a radiação emitida pelo 5G sempre foi genuína, por isso há muitas pesquisas e análises de agências reguladoras em todo o mundo. A diferença entre o 5G e as gerações anteriores, como o 4G e o 3G, é que estas usam frequências de rádio abaixo da faixa de 6 gigahertz, enquanto o 5G também utiliza na faixa de 30 a 300 gigahertz.

Torres de telefonia (Reprodução/Yahoo)

Na faixa de 30 a 300 gigahertz, não há energia suficiente para quebrar ligações químicas ou remover elétrons quando em contato com tecido humano. Assim, esse intervalo é chamado de radiação eletromagnética "não ionizante", que pode entrar em contato com a pele, por exemplo, quando colocamos um celular com 5G no ouvido para fazer uma ligação. Mas essa exposição está bem abaixo de um nível capaz de nos causar mal. A radiação 5G não pode penetrar na pele ou permitir que um vírus faça isso — e não há evidências de que as radiofrequências 5G causem ou aumentem a disseminação do novo coronavírus. O que causa a contaminação do novo coronavírus em um telefone é você não higienizar a superfície do aparelho, caso ela esteja infectada.

— O Coronavírus pode ser curado com o uso de entorpecentes

Mito: Em fevereiro deste ano, o consultor de marketing nigeriano Bizzle Osikoya postou um tweet alegando que cocaína tem propriedades curativas, o suficiente para curar o coronavírus. Da mesma forma que afeta a respiração, os batimentos cardíacos, a personalidade e a autoestima, a droga pode também eliminar a COVID-19 do corpo humano. Não demorou até que outras substâncias entrassem na jogada, como álcool, água sanitária, entre outras.

Fato: Como sabemos há anos, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) não se cansa de dizer, a cocaína e o álcool causam grande grau de dependência e afetam profundamente o corpo humano, causando e acelerando vários problemas, incluindo problemas no fígado e no coração. Ainda assim, logo após que essa fake news começou a se espalhar, o governo francês também usou o Twitter para esclarecer que a ingestão de drogas não tem nada a ver com uma cura, que, aliás não existe.

O que existem hoje em dia são algumas candidatas a vacinas passando por testes clínicos e uso moderado de anticoagulante heparina e do remédio cloroquina, de forma muito controlada e em alguns casos, que vêm apresentando alguma melhora. Faltam muitas conclusões sobre o novo coronavírus, portanto não há uma “bala de prata” contra a COVID-19 e nem mesmo a heparina ou cloroquina são indicados para todos os casos, pois, especialmente no caso desta última, houve tantas reações positivas quanto negativas, principalmente devido ao seu uso equivocado.

— O novo coronavírus veio do espaço

Mito: Quem espalhou essa ideia por aí foi o cientista Chandra Wickramasinghe, conhecido por seu trabalho no ramo da astrobiologia. Em conversa com o Express.co.uk (braço virtual do tabloide britânico Daily Express), ele disse que "é muito provável que o surto repentino do novo coronavírus tenha uma conexão espacial, e a forte localização do vírus na China é o aspecto mais notável disso". Para explicar isso, ele conectou a queda de um fragmento de um meteoro no nordeste chinês, em outubro do ano passado, a “uma monocultura de partículas infecciosas do vírus SARS-CoV-2, que teriam sobrevivido no interior do fragmento".

Chega de desinformação: o novo coronavírus NÃO veio do espaço!

Fato: A panspermia é uma hipótese que tenta explicar como a vida surgiu na Terra. Ela se embasa na ideia de que a vida, na verdade, existe em todo o universo, sendo distribuída por aí a bordo de meteoros, asteroides e planetoides, por exemplo. O conceito é controverso na comunidade científica e já é uma ideia bastante descreditada, na verdade, sendo levantada, hoje em dia, por cientistas como Wickramasinghe, que acabam sendo acusados de promover a pseudociência — ou apenas "má ciência" mesmo. Contudo, a panspermia não chegou a ser completamente descartada, ainda que não existam precedentes que atestem a capacidade de um vírus realmente sobreviver à radiação espacial em viagens tão longas quanto as que aconteceriam no caso de uma panspermia.

Registro de meteoro (Reprodução/Chris Small/ESA)

E, mesmo que isso seja possível, também não há provas de que esses micro-organismos sobreviventes ao ambiente inóspito do espaço seriam capazes de infectar seres humanos depois de aterrissar.

Momento de crise aumenta a velocidade de desinformação

De acordo com Yonder, uma empresa de inteligência artificial que monitora conversas on-line, incluindo fake news, as teorias de conspiração que antes ficavam mais restritas a grupos periféricos estão viajando para meios acessíveis e populares com mais rapidez durante a pandemia do novo coronavírus.

Um relatório da companhia sobre desinformação envolvendo o patógeno aponta que "o mainstream está aceitando extraordinariamente pensamentos conspiratórios, rumores, alarmismo ou pânico" durante tempos incertos. Segundo esse documento, uma “narrativa periférica” antes levava de seis a oito meses para sair das margens da web para chegar ao centro das comunicações. Agora, esse intervalo tem sido observado entre três a 14 dias.

"No cenário atual, vimos teorias da conspiração e outras formas de desinformação espalhadas pela Internet a uma velocidade sem precedentes", disse Ryan Fox, diretor de inovação da Yonder, ao TechCrunch. Ele acredita que a tendência representa a influência excessiva de "pequenos grupos de indivíduos hiper apaixonados" na condução de informações erradas, como as alegações do 5G. O executivo lembra ainda que o caso da internet móvel de quinta geração reúne pessoas que já estão alimentando esse mito há mais tempo, inclusive com apoio dos “anti-vaxxers” (pessoas que são contra vacinas), por exemplo.

Como sabemos, celebridades e influencers acabam aumentando a força e a velocidade da desinformação, seja de forma intencional ou não. A teoria envolvendo a disseminação do novo coronavírus com ajuda do 5G foi apoiada, por exemplo pela cantora MIA e pelos atores John Cusack e Woody Harrelson.

Mesmo que eles mudem de ideia ou apaguem suas postagens, a exemplo do que aconteceu com Cusack, o estrago já está feito, pois muitos de seus seguidores “autenticam” essas teorias por meio de seus ídolos e as passam para frente. E, se isso acontece com artistas, quando ocorre com autoridades e líderes, como políticos, o impacto pode ser ainda maior e desastroso.

A satisfação pelo “segredo”

As pessoas são atraídas por essas narrativas porque elas prometem satisfazer certas motivações psicológicas, como domínio dos fatos, autonomia sobre o bem-estar e senso de controle. "Todos esses ingredientes podem levar as pessoas às teorias da conspiração", explica Karen M. Douglas, psicóloga social que estuda crença em conspirações na Universidade de Kent, na Grã-Bretanha.

Se a verdade não preenche essas necessidades, muitos de nós temos a capacidade de inventar histórias para completar as lacunas, mesmo sabendo que são falsas. Uma análise recente, por exemplo, revelou que as pessoas são significativamente mais propensas a compartilhar histórias sobre o que elas acreditam do que notícias verdadeiras sobre o novo coronavírus.

De acordo com a companhia de verificação de fatos Snopes, suas equipes estão sobrecarregadas, tamanho a quantidade de fake news. “A magnitude da desinformação que se espalhou após a pandemia da COVID-19 está sobrecarregando nossa pequena equipe. Estamos vendo dezenas de pessoas, com pressa de encontrar algum conforto, piorando as coisas à medida que compartilham desinformação (às vezes perigosa)”, comunicou, no Twitter.

E isso tem implicações reais e perigosas. Um vídeo do YouTube que descarta as medidas de distanciamento social foi visto mais de 1,9 milhão de vezes — e isso ajuda bastante a aumentar ainda mais o tempo de confinamento, pois a famosa curva de atendimento fica mais difícil de ser achatada. Na Grã-Bretanha, recentemente houve uma série de ataques a torres de celular.

A crença de que temos acesso a informações secretas pode nos ajudar a sentir menos sozinhos, contra um “inimigo” em comum, ou nos fazer pensar que temos alguma “vantagem” e estamos de alguma forma mais seguros. Mas, qualquer conforto que essas teorias de conspiração possam trazer, essa sensação tem vida muito curta: os principais estudos sobre o tema comprovaram que alimentar essas ideias não somente falha em satisfazer nossas necessidades psicológicas, como também tende a agravar sentimentos de medo ou desamparo.

Portanto, evite as fake news e não compartilhe campanhas de desinformação. Atenha-se aos fatos científicos e o que tem dado certo em todo o mundo. Lave as mãos, fique em casa se puder, cuide de seus próximos. Seja solidário. O sorriso das pessoas que estão ao seu lado, com saúde, vale muito mais do que qualquer teoria.

Fonte: The New York Times, TechCrunch, QG, Parlia, Quartz, The Conversation  

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