Conheça a Era de Prata, a era mais científica dos quadrinhos

Por Claudio Yuge | 07 de Novembro de 2019 às 13h14
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O Hulk é fruto de uma explosão gama. O Homem-Aranha foi picado por uma aranha radioativa. O Flash aborda exploração de múltiplos universos. O Lanterna Verde é parte de uma tropa espacial. Todos esses personagens têm algo em comum: eles foram criados na chamada Era de Prata dos quadrinhos. Foi um período de grande prosperidade, pautado pelos avanços tecnológicos e descobertas científicas — e influencia as criações até os dias atuais.

Antes de falar do começo da Era de Prata, é preciso entender o que era e como acabou a Era de Ouro, que iniciou com a chegada do Superman na primeira edição de Action Comics, em 1938. Esse era o período da Grande Depressão nos Estados Unidos, em uma época Pré-Segunda Guerra Mundial.

Os heróis desse período foram marcados então por mensagens de otimismo e esperança, com motivações mais simples e mundanas, além de vilões sem muita complexidade. O Superman, por exemplo, é uma clara analogia a Jesus Cristo e o deus do sol, Apolo: ele vem do céu em um paninho vermelho, é criado pelos “Reis Magos” Martha e Jonathan Kent e pode salvar o mundo. Já o Capitão América servia como um panfleto norte-americano de incentivo contra as tropas de Hitler.

Action Comics #1 (Imagem: Reprodução/DC Comics)

Paralelamente, as tiras de jornal traziam histórias de detetive e mistério, que ao longo do tempo também deram espaço para os contos de terror. Os quadrinhos se tornaram extremamente populares e, claro, isso chamou a atenção de muitos “adultos” — inclusive alguns conservadores que temiam essa nova expressão.

E foi aí que a Era de Ouro acabou. O livro A Sedução do Inocente, de Fredric Wertham, foi publicado em 1954 e trazia vários trechos descontextualizados de edições populares, exemplificando como aquele leitura “ingênua” poderia contaminar os lares das “famílias de bem”. A publicação invadiu o meio pedagógico e foi criado o Comics Code Authority, famigerado mecanismo de censura que praticamente devastou grande parte das revistas e tiras impressas nos Estados Unidos.

A Era de Ouro terminava então, abruptamente, em 1958.

Era de Prata “escondia” os temas na fantasia

Com todos de olho nas criações, era necessário encontrar uma forma de driblar a censura, tornando as motivações e textos menos políticos ou calcados na realidade. Então alguns autores decidiram levar as aventuras para outras realidades e para o espaço. Além disso, o fim dos problemas mundanos para os heróis também significava a abertura para infinitas possibilidades com a fantasia.

Só para contextualizar, essa era uma época em que a primeira missão tripulada da história havia sido registrada, com o programa espacial soviético Vostok e a ida do cosmonauta Yuri Gararin para fora do planeta, em 1961. A bomba atômica já havia devastado Hiroshima e Nagasaki.

Autores como H. P. Lovecraft, com seu terror cósmico em O Chamado de Chtulhu (1928); Robert E. Howard, criador do Conan (1932); Edward Elmer Smith, com Amazing Stories (1934); Alex Raymond, pai do Flash Gordon (1936) e J. R. R. Tolkien, com O Hobbit (1937) já haviam plantado sementes para influenciar uma nova geração de escritores — vale destacar que também já tínhamos representantes no cinema, a exemplo de Fritz Lang, com Metrópolis (1927).

(Imagem: Reprodução/Amazon)

Em paralelo à Era de Prata, tínhamos autores que levavam à frente essa nova forma de ficção: Ray Bradbury, criador de Fahrenheit 451 (1953); Isaac Asimov, com Eu, Robô (1950); e Arthur C. Clarke, com O Fim da Infância (1953). Mais tarde, eles viriam a receber a companhia de Gene Roddenberry, com Star Trek (1964); e Philip K. Dick, com Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968), entre outros.

Este era o panorama em que nascia a Era de Prata dos quadrinhos, em 1958.

Influenciados pela “Era Atômica”, autores iniciam um novo período

Embora hajam algumas divergências sobre a data exata, dá para dizer que a Era de Prata teve sua semente plantada em Showcase Comics #4, da DC Comics. O editor Julius Schwartz, influenciado por todo o cenário acima e preocupado com o Comics Code Authority, decidiu repaginar o Flash para essa nova realidade — veja bem, mesmo com tramas abaixo da qualidade, eles ainda não mexeriam em medalhões como Batman, Mulher-Maravilha e Superman.

Eis que a nova versão do Flash, com Barry Allen, fez muito sucesso. As mudanças não eram apenas de assuntos, mas também de inovações no desenho da anatomia e das perspectivas dos quadros; a narrativa ficou mais veloz e, com o crescimento da contracultura em paralelo nos quadrinhos alternativos, os autores começaram a experimentar cada vez mais.

Como as revistas começaram vender, a “Era Atômica”, os avanços científicos e os programas espaciais começaram a aparecer no trabalho de Stan Lee, Gardner Fox, John Broome, Steve Ditko, Carmine Infantino, Jack Kirby, Gil Kane e outros. Eles passaram a escrever sobre ciência, tecnologia, astronomia e vários outros temas que antes passavam longe dos quadrinhos.

(Imagem: Reprodução/DC Comics)

Então, a leitura passava a ser de aventuras em outras realidades, explosões atômicas, viagens interplanetárias, sociedades alienígenas, clonagem e alteração do DNA, robôs e inteligência artificial e outros assuntos considerados então “complicados” para o público leigo. Mas como eles podiam usar a imaginação para torná-los mais simples, tudo isso se tornou um playground para a criatividade.

Os personagens da era científica dos quadrinhos

A maioria dos personagens de quadrinhos com background científico nasceu então no começo dos anos 60 — todos com suas origens conectadas aos temas e contextos descritos acima de alguma forma. Novamente, o Hulk veio de uma explosão gama; o Homem-Aranha foi picado por uma aranha radioativa; o Quarteto Fantástico foi bombardeado por raios cósmicos… e por aí vai.

(Imagem: Reprodução/DC Comics)

Na DC Comics, isso mudou completamente a dinâmica dos personagens e seu próprio universo. A história “Flash de Dois Mundos”, publicada em 1961, por exemplo, deu origem ao que hoje conhecemos como o Multiverso DC. Além de unir os personagens de mesmo nome de 1940 e 1956, a era pré e pós Comics Code Authority, a trama abriu espaço para que todas as criações da editora pudessem interagir, em um terreno fértil para histórias ainda mais criativas.

Homem-Aranha eternamente “científico”

Vale aqui um adendo sobre o Homem-Aranha, que continua sendo um dos personagens mais influenciados pela Era de Prata. Ele foi o personagem que mais passou por mudanças entre as diferentes mídias e gerações de leitores. A maior razão disso é que Peter Parker, um rapaz pobre criado pela tia e que mora no Queens, é normalmente o primeiro dos personagens que os pequenos fãs mais se identificam.

Ele mora em uma cidade grande real, Nova Iorque, e não em Metrópoles; ele tem que estudar e normalmente não consegue explicar porque tira nota baixa, mesmo sendo um gênio; e tem que salvar o mundo enquanto lida com bullying no colégio e sofre com as agruras da adolescência.

Então, quando chegou aos cinemas no grande boom do gênero, em 2002, ele precisou ser revisto. Uma aranha radioativa já era distante daquela audiência, enquanto a grande discussão da época era a clonagem da ovelha Dolly. Então, o Homem-Aranha de Sam Raimi foi picado por uma aranha “geneticamente alterada”.

(Imagem: Reprodução/Sony Pictures)

Já em sua outra encarnação, alguns anos depois, isso mudou novamente. “Mas será que se eu deixar uma aranha me picar eu vou me tornar o Homem-Aranha?”, perguntaria uma criança bombardeada pelas informações da crescente Internet. Eis que o Amigo da Vizinhança de Andrew Garfield é resultado de uma “coincidência cósmica” que juntou elementos capazes de dar somente a eles esse poder.

O momento atual é diferente, porque a ênfase não é em como ele conseguiu os poderes — isso nem mesmo é explicado. As relações humanas se destacam em um momento em que todos conversam pelos telefones, então a mensagem atual do Homem-Aranha é que, independentemente de você ser picado ou não por uma aranha, o importante é o que você tem dentro do seu coração: qualquer um que colocar sua máscara pode ser um herói.

Era de Prata continua reverberando na Era Moderna

A Era de Prata acabou em 1970, quando o Homem de Ferro nasceu e trouxe uma evolução de todos os temas tratados até então. A partir daí autores (muitos deles britânicos) começaram a trazer um olhar mais realista para os heróis e vilões clássicos. Depois dos anos 80, os personagens começaram a ter suas atitudes questionadas e suas motivações se tornaram bem mais reais e complexas.

Em 1985, começava a Era Moderna (também chamada de Era Sombria), com a derrocada de vários valores sobre o que era realmente ser um “super-herói”. Para citar alguns, podemos evocar os trabalhos de Alan Moore, Frank Miller, Neil Gaiman, Grant Morrison, Warren Ellis e vários outros que passaram a oferecer uma leitura mais adulta sobre essas mesmas criaturas.

Crise nas Infinitas Terras decretou o fim da Era de Bronze, em 1985 e 1986, e foi altamente influenciada
pela Era de Prata (Imagem: Reprodução/DC Comics)

E então chegamos ao momento atual, que, claro, é uma amálgama de todas essas outras anteriores. E, embora a Era de Prata tenha acabado “oficialmente” em 1970, é possível ver influência de suas abordagens científicas e tecnológicas até hoje, principalmente nos filmes do Universo Cinematográfico Marvel, com o afrofuturismo. Afinal, estamos em um momento de avanços cada vez mais velozes — e, claro, isso também é espelhado nas criações de artistas contemporâneos.

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