Trocar de vez a TV a cabo pelo streaming já vale a pena? Nós fizemos as contas

Trocar de vez a TV a cabo pelo streaming já vale a pena? Nós fizemos as contas

Por Rui Maciel | 06 de Julho de 2021 às 09h20
afra32/Pixabay

No último dia 30 de junho, publicamos um texto sobre a chegada da HBO Max ao Brasil. Mas ela se deu não sob o viés de análise em relação à concorrência. Mas como a plataforma — junto com os outros serviços de streaming — vem enterrando de vez o já decadente setor de TV por assinatura.

E fatores para isso não faltam. O último levantamento feito pela Anatel, divulgado em junho último, mostra que as operadoras de TV a cabo perderam 170 mil clientes por mês, de acordo com dados compilados pela agência até abril. É mais que o dobro do ritmo de perda média registrada no ano passado — quando o índice de desistência era de 77 mil assinantes mensais.

Hoje, o Brasil tem 14,1 milhões de usuários desse serviço. Em 2020 eram 15,6 milhões de adeptos. Trata-se da base mais baixa desde agosto de 2012, quando havia 14,8 milhões de usuários. Isso equivale a apenas 6,6% do total da população do país, que tem 212 milhões de habitantes. Para efeito de comparação, 21,1% da população dos Estados Unidos tem TV a cabo em casa — o que equivale 70 milhões de clientes em um país com 329 milhões de habitantes. Mesmo assim, a Netflix já conta com mais assinantes que todo o mercado de TV por assinatura do país. Em outras palavras, esse movimento é global.

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E o "furacão streaming" se tornou ainda mais forte durante a pandemia — para o azar da TV paga. De acordo com um estudo realizado pela Bare International, 47,7% das pessoas mundo afora assumiram ter aumentado seus gastos com entretenimento e serviços baseados nesta tecnologia em 2021. Já no Brasil o fenômeno foi ainda mais forte: 61,6% dos entrevistados afirmaram ter investido mais em serviços de streaming.

A causa principal para essa queda é simples: ao assinar, dois ou três serviços de streaming, por exemplo, o usuário terá à disposição uma infinidade de filmes, séries e documentários, que ele pode assistir o que, quando e onde quiser, em telas de todos os tamanhos. Já as operadoras de TV por assinatura — e os canais que fazem parte de seus pacotes — estão com seus modelos estagnados, com canais que ninguém assiste, programação repetitiva e presa a horários, além de exibir uma infinidade de comerciais — o que é paradoxal, dado que o principal (ou único) modelo de receitas desse setor deveria ser o de assinantes. Afinal, um dos motivos para você pagar por um serviço desses é justamente escapar de propagandas.

HBO Max: mais um serviço de streaming para nocautear a já combalida TV a cabo

Como se não bastasse a diferença brutal do modelo de negócios entre ambos os formatos, há outro fator fundamental: assinar diversos serviços de streaming sai muito mais barato do que um pacote razoável de TV. A ponto de muitos usuários já terem abandonado esse último e outros considerando seriamente darem o mesmo passo. Não por acaso, apenas entre janeiro e maio de 2021, o Brasil já perdeu 800 mil assinantes de TV por assinatura.

E se você ainda está na dúvida se vale a pena fazer essa troca, o Canaltech fez as contas em dois cenários:

  1. No primeiro, nós mostramos quanto custaria a assinatura dos cinco principais serviços de streaming* (Netflix, Amazon Prime, Disney+, HBO Max e Globoplay) + um serviço de internet banda larga fixa com velocidade variável entre 200Mbps e 250Mbps.

  2. No segundo cenário, nós mostramos quanto custaria o pacote Premium de canais de TV a cabo + um serviço de internet banda larga fixa com velocidade variável entre 200Mbps e 250Mbps

Importante: como referência nas ofertas de serviços de internet banda larga e TV a cabo da Claro e Vivo, usamos o CEP da sede do Canaltech, localizada na cidade de São Bernardo do Campo, na grande São Paulo. Já para Oi e Sky, usamos a cidade do Rio de Janeiro

Veja abaixo quanto você gastaria:

Cenário 1: se você optou pelo combo Streaming + banda larga (entre 200 e 250Mbps), eis o quanto você gastaria por mês:

Vivo Fibra (200 Mega) Claro (250 Mega) Oi** (200 Mega) TIM Live Fibra*** (200 Mega)
Plano de internet R$ 119,99 R$ 119,99 R$ 
99,90
R$
120,00
Combo Netflix, HBO Max, Disney+, Amazon Prime e Globoplay R$ 127,50
Total R$ 247,49 R$ 247,49 R$ 
227,40
R$
247,50


Cenário 2: se você optou pelo combo banda larga (entre 200 e 250Mbps) + pacotes Premium da TV a cabo (com HBO, Telecine, SportTV e ESPN, entre outros) eis o quanto você gastaria por mês:

Pacote Preço
Vivo (Pacote Full HD Fibra, incluindo HBO e Telecine) R$ 369,98 (banda larga de 200 Mega) 
Claro NET TOP 4K (pacotes HBO e Telecine são vendidos separadamente) R$ 269,98 (banda larga de 250 Mega)

Oi Top (com HBO ou Telecine) R$ 289,90 (banda larga de 400 Mega)
Sky Combo Plus Top HD R$ 364,90 (internet banda larga não inclusa) 

A pá de cal veio com a HBO Max. E, em breve, com a Star+ 

Como você viu nas tabelas acima, em nenhum cenário os combos de internet com TV a cabo Premium vencem — em termos de valores — os pacotes que trazem apenas os serviços de streaming. Além dos preços significativamente maiores, os canais nesse formato sofrem com um modelo de negócios defasado, que não conseguiu se adaptar ao longo dos anos. Além disso, o usuário pode optar por um número menor de serviços de streaming, bem como uma banda larga com velocidade menor, diminuindo ainda mais os custos.

Para completar o quadro pouco animador, até mesmo os canais mais populares da TV a cabo — um dos poucos trunfos desse formato — também estão migrando para o streaming. Para ficar em um bom exemplo, temos o Globoplay: além de filmes, séries, novelas e outras atrações populares da Rede Globo em seu acervo, a plataforma traz ainda (em sua versão Premium) os canais ao vivo que você encontra na TV por assinatura. Ou seja, no app é possível assistir em tempo real canais como a própria Globo, Multishow, Globo News, Sportv, Viva, Megapix, Off, GNT, Studio Universal, entre outros. E tudo isso por R$ 42,90.

Já a recém-chegada HBO Max veio para fechar ainda mais o cerco nas TVs por assinatura. Isso porque ela tem em seu portfólio marcas como HBO, Warner Channel, TNT, Cartoon Network e, futuramente, Discovery. Ou seja, outra fatia dos canais mais assistidos na TV a cabo também já estão em uma plataforma de streaming. E custando R$ 27,90 (ou R$ 13,90 se você assinar o serviço até 31 de julho).

Por fim, ESPN e Fox devem dar o golpe final na TV por assinatura. O conteúdo de ambos os canais (pertencentes à Disney) estarão presentes no Star+, que chega ao Brasil no próximo dia 31 de agosto. A exemplo do Globoplay, o serviço transmitirá ao vivo uma extensa gama de eventos esportivos. Quem gosta de futebol, por exemplo, poderá acompanhar a Premier League, a Libertadores e a La Liga. Serão exibidos em tempo real ainda, torneios de tênis (incluindo Grand Slams), Hockey (NHL), baseball (MLB), entre outros, além de programas populares da ESPN Brasil, como o Sportscenter e o Linha de Passe.

E na parte Fox, o Star+ terá em seu acervo séries das mais populares como This is Us, The Walking Dead, How I Met Your Mother, Grey's Anatomy, 24 Horas, Homeland, Modern Family e Arquivo X, entre outros. Também estão inclusos desenhos como Os Simpsons, Uma Família da Pesada e American Dad, filmes como os dois Deadpool, Logan, Bohemian Rhapsody, O Diabo Veste Prada, Duro de Matar e muito mais do longo acervo do estúdio. E há ainda as produções originais.

E como a TV a cabo pode se salvar?

Diante de um cenário tão desolador, a única salvação da TV paga é uma reinvenção de seu modelo de negócios. E isso passa por imitar o que o seu maior rival, o streaming, faz com sucesso: a personalização. Ou seja, permitir que o usuário escolha o que deve fazer parte do seu pacote, em vez de obrigá-lo a levar um bando de canais inúteis que ninguém assiste.

E, claro, a partir desse modelo personalizado, alterar a sua política de preços e dar ao consumidor a possibilidade de pagar apenas pelo que ele está interessado. E permitir que o seu cliente também cancele facilmente os serviços que ele não deseja mais, sem ter de ficar xingando a pobre da Judite (entendedores entenderão)

Tudo isso envolveria uma série de negociações com os canais que fazem parte da TV por assinatura, as operadoras e até mesmo mudanças na legislação que regula esse mercado no Brasil. Mas essa pode ser uma das únicas soluções para que este setor mantenha com um número mínimo de usuários — até porque a sua base deve continuar caindo ano após ano, até estagnar em um patamar bem baixo.

E todo esse trabalho pode salvar a TV a cabo? Pouco provável. Mas é tentar isso ou se preparar para extinção em alguns anos.

Com a palavra, as operadoras.


*Valores dos serviços de streaming considerados no pacote

  • Netflix: R$ 32,90 (plano padrão)
  • Globoplay: R$ 42,90 (plano anual)
  • HBO Max: R$ 13,90 (valor promocional até 31 de julho. Após essa data o preço será de R$ 27,90)
  • Disney+: R$ 27,90
  • Amazon Prime: R$ 9,90

**Oi 200 Mega - Valor de R$ 99,90 válido para débito automático + fatura digital. No boleto o preço sobe para R$ 119,90

*** TIM: desconto e degustação de internet com velocidade de 200 megas adicionais (totalizando 400 megas) válido para os 12 primeiros meses, com pagamento sendo feito via débito automático

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