Análise | A divisão mobile da LG tinha ideias ótimas. Mas com execução tenebrosa

Por Rui Maciel | 06 de Abril de 2021 às 08h20
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E a crônica de uma morte anunciada finalmente se confirmou. Depois de cinco anos de prejuízos - ou 23 trimestres, se preferir - e perdas que chegaram a US$ 4,1 bilhões, a LG jogou a toalha e anunciou a sua saída do mercado de smartphones. O fim da divisão mobile está programado para o dia 31 de julho e, se você quiser arriscar a sorte, será possível comprar algum celular da marca, possivelmente com um bom desconto.

Mas, importante frisar, há dúvidas pairando em como será o suporte a esses dispositivos. Em seu comunicado, a empresa afirmou que "fornecerá o suporte para produtos atuais por um período de tempo que vai variar por região". O Procon-SP, aliás, já está em cima da companhia sul-coreana para saber como eles procederão nesse quesito.

E para sair do mercado de smartphones sem perder a fleuma, a LG afirmou que passará a:

"Concentrar seus recursos em áreas de crescimento, como componentes de veículos elétricos, dispositivos conectados, casas inteligentes, robótica, inteligência artificial e soluções business-to-business, bem como plataformas e Serviços.

Além disso, ela continuará a alavancar sua experiência móvel e desenvolver tecnologias relacionadas à mobilidade, como 6G para ajudar a fortalecer ainda mais a competitividade em outras áreas de negócios. As principais tecnologias desenvolvidas durante as duas décadas de operações de negócios móveis da LG também serão mantidas e aplicadas a produtos existentes e futuros".

De qualquer forma, trata-se do triste fim de uma era para a LG, que já foi uma das maiores fabricantes de smartphones do mundo, com aparelhos de grande qualidade. Além disso, ela chegou a ficar a frente da concorrência em alguns aspectos, como ter sido a primeira empresa a trazer uma lente ultra-grande angular em seus celulares ou uma tela de toque capacitiva - vulgo touchscreen.

No entanto, a LG sentiu na pele a dificuldade que é competir com marcas como Apple e Samsung nos principais mercados mundiais. A empresa nunca conseguiu vencer sua arquirrival sul-coreana nas categorias de aparelhos de entrada e intermediário - onde a margem de lucro é baixa, logo você precisa de volume gigantesco de vendas para prosperar. E na modalidade de smartphones topo de linha - onde reside grande parte dos lucros para as fabricantes - a resposta do público aos seus modelos sempre foi morna.

Para completar, a LG também não soube como proteger sua fatia de marketshare contra o crescimento das chinesas Huawei, Xiaomi, Oppo, Vivo, Realme, entre outras, principalmente no mercado asiático. Essas marcas conseguiram implementar com força a filosofia dos modelos com boa configuração a preços acessíveis, algo que a sul-coreana nunca conseguiu emplacar em suas linhas de celulares.

Com isso, no final de 2020, a participação global da LG no setor mobile era de apenas 2%, com 23 milhões de aparelhos vendidos, segundo a consultoria Counterpoint. Uma queda melancólica para quem chegou a ser a terceira maior do mundo em 2013.

Sobraram ideias. Faltou execução

Mas o que mais chama a atenção é uma questão paradoxal: a divisão mobile da LG sempre teve ideias incríveis para seus smartphones. E, justiça seja feita: ela nunca teve medo de colocá-las na rua para o público usar.

O problema é que a execução da maioria dessas ideias era tenebrosa. E ainda acabou sendo superada pela concorrência, que trazia modelos com os mesmos conceitos, mas muito mais bem acabados. Com isso, a categoria high end da LG - que, como dissemos antes, é a mais lucrativa do mercado de smartphones - não emplacou. E era ela quem poderia, inclusive, ter salvado a unidade de celulares da fabricante sul-coreana.

E exemplos de (boas) ideias mal executadas não faltam. E eles vêm de longe. Vamos a alguns:

LG Prada (KE 850)

Vamos voltar no tempo, mais precisamente em 2006: naquele ano, quando tudo era mato, o mercado já tinha grande expectativa sobre smartphones com telas sensíveis ao toque. E a LG pulou na frente e apresentou KE 850, popularmente conhecido como LG Prada, graças à parceria da fabricante com a prestigiada marca italiana de moda.

E analisando o aparelho, ele até fazia jus à marca Prada: tinha design elegante, era compacto, trazia câmera de 2 megapixels com foco automático (lembre-se que estávamos em 2006), gravava vídeos, tocava músicas em MP3, navegava pela internet e, de quebra, foi o primeiro smartphone com tela capacitiva do mundo. Aliás, ele chegou a vender um milhão de unidades nos primeiros 18 meses na loja. Ou seja, havia demanda.

LG Prada: aparelho era elegante e trazia bons recursos. Mas touchscreen era sofrível (Imagem: Andrew / Wikipedia)


O problema é que a sua tela touch screen era muito ruim, até mesmo em um mercado onde smartphones com esse tipo de display ainda eram uma novidade. Esse que vos escreve teve a oportunidade de testar o dispositivo na época (ou um modelo bem similar), em uma coletiva da LG. E eu lembro que acessar qualquer função a partir do painel era uma tarefa desconfortável, já que você precisava apertar a tela com força - algo semelhante aqueles iPhones falsificados. Ou seja, a experiência sobre o principal diferencial do modelo era ruim e, de quebra, ele custava bem caro. Afinal, levava a marca Prada.

Ele foi atropelado por quem?

No dia 9 de janeiro de 2007, menos de um mês depois do lançamento do LG Prada, um "tal" de Steve Jobs apresentou ao mundo um "tal" de iPhone. E a tela multitouch do dispositivo, junto a uma série de apps e recursos multimídia, facilmente acessados ao toque leve de um ou mais dedos, rapidamente caiu nas graças do público e atropelou sem dó os esforços da LG.

A empresa até tentou lançar evoluções do seu aparelho touchscreen, como o LG U990 3G, ou mais baratos (LG KP500). Mas já era tarde. O mundo já estava hipnotizado - e desejava arduamente - pelo smartphone da Maçã. O resto é história.

A LG só se recuperou no mercado de smartphones quando passou a adotar o Android.

LG G5

O ano era 2016. Os smartphones com tela multitouch já eram uma realidade consolidada mundo afora e, agora, o mercado ansiava por outro padrão: os celulares modulares. Puxado pelo Projeto Ara, do Google, esse tipo de dispositivo permitiria, pelo menos em teoria, uma customização sem precedentes, com o usuário podendo trocar processador, memória RAM, câmera, armazenamento e muito mais. Tudo como se fosse um Lego.

De olho nesse conceito, a LG, mais uma vez, foi corajosa e tomou a dianteira. Aproveitando a Mobile World Congress daquele ano, ela apresentou o LG G5, que seria o primeiro smartphone modular a chegar ao grande público. Ele pertencia à linha high end da marca e trazia uma configuração poderosa, além de uma ótima câmera. E, a cereja do bolo: a primeira versão do modelo permitiria a inserção de módulos de bateria, câmera (a Cam Plus), câmera 360 (LG 360 CAM), um player de música (Hi-Fi Plus) e até óculos de realidade virtual (LG 360 VR).

O conceito do LG G5 em si estava correto - a partir de módulos, você conseguiria potencializar algumas das funcionalidades preferidas dos usuários. Só que, mais uma vez, a execução foi muito ruim: para usar boa parte do módulos (pelo menos os mais populares), você precisava desligar o aparelho, desconectar a bateria, encaixar o acessório nela e depois religar o aparelho para poder utilizá-lo. Ou seja, menos prático impossível.

Ah sim! Para complicar só mais um pouco, por se tratar de modelo topo de linha, o LG G5 tinha um preço elevado para a época: R$ 3.499. E com o agravante de que, no Brasil, ele viria na versão menos potente, o G5 SE - que era um intermediário premium. E seus módulos também custavam pequenas fortunas: entre R$ 650 a R$ 1.800. Com isso, a falta de praticidade, aliada aos altos preços, logo desencorajou todos os usuários.

O sucessor do G5, o G6, foi lançado no ano seguinte em uma peça só. Também naufragou, mas ele já estava no looping de fracassos da LG no setor mobile. Além disso, não seria exagero dizer que o próprio G5 talvez tenha sido o grande empurrão ladeira abaixo sofrido pela empresa nessa área. Desde aquela época, ela não conseguiu emplacar mais nada.

Ele foi atropelado por quem?

Pela Motorola e a série Moto Z. E tudo porque os engenheiros da fabricante norte-americana - já controlada pela Lenovo - foram muito mais espertos que os da LG. Afinal, para utilizar os módulos da marca - chamados de Moto Snaps - você não precisava ter todo o trabalho exigido pelo G5.

Isso porque os modelos da linha traziam na parte traseira uma série de imãs, que se conectam aos Moto Snaps, sem a necessidade de desligar o aparelho ou realizar qualquer outra operação. Bastava plugar o acessório na traseira do celular e ele era reconhecido em dois segundos. Com isso, você poderia usar uma bateria auxiliar, uma caixa de som, um módulo de câmera estiloso da lendária Hasselblad, joystick para jogos e até um projetor. Simples assim. E tudo sem comprometer o visual do aparelho.

O problema do Moto Z, a exemplo do G5, é que tanto o smartphone, quanto os módulos, não eram baratos. Logo, ter o combo exigia do usuário desembolsar uma bela grana. E ele não estava disposto a isso. Além disso, o conceito de um smartphone modular total nunca saiu do papel. Logo, as vendas também foram insatisfatórias e a Motorola abandonou este padrão - e até mesmo o Google "matou" o Projeto Aras.

G8X ThinQ

Como o LG Rollable - celular com tela enrolável - demoraria muito para chegar ao público, a LG quis encarar a concorrência no mercado de celulares com displays dobráveis (Galaxy Fold, Huawei Mate X e Motorola Razr) de outro modo: lançando um modelo que não contaria com esse tipo de painel, mas traria DUAS telas e ainda seria mais barato que os rivais. Nascia assim o G8X ThinQ.

Mas, se a ideia era boa, mais uma vez, a execução deixou muito a desejar. A experiência de uso do aparelho era muito ruim. Apesar do bom hardrware, o software do aparelho não estava devidamente otimizado e logo se via que ele foi lançado às pressas. Além disso, a experiência de uso era ruim e o usuário demorava bem mais do que o recomendado para se adaptar ao aparelho e executar funções que deveriam ser simples, como arrastar um app de uma tela para outra. Sem contar que ele é pesado e pouco confortável no bolso da calça, por exemplo.

Menos mal que o seu preço de entrada era de R$ 6.000, R$ 3 mil a menos que o Galaxy Z Flip e R$ 7 mil a menos que o primeiro Galaxy Z Fold na época.


Ele foi atropelado por quem?

Complicado. Smartphones com telas dobráveis - ou duas telas, como é o caso do G8X ThinQ - atendem a um nicho de público tão específico (e endinheirado ) que é difícil dizer se o representante da LG foi atropelado pelos rivais. Isso porque não dá para dizer que os outros dobráveis são sucesso de vendas não só no Brasil, mas no resto do mundo, principalmente pela sua alta faixa de preço. Um bom sinal disso é que você não vê as fabricantes destacando o retorno financeiro dessa modalidade de smartphones em seus balanços trimestrais.

Mas o fato dos rivais do G8X ThinQ não serem sucessos de venda também não ajudaram o representante da LG a vender mais. E ele acabou naufragando com os outros modelos da marca.

Espiral  de desconfiança

De forma geral, seria leviano dizer que os três exemplos citados acima foram os responsáveis pelo fracasso da divisão mobile da LG. A empresa também pisou na bola em outras modalidades de smartphones. O fato é que em algum ponto de 2015 para cá, os celulares da empresa perderam a confiança dos usuários, mesmo com o lançamento de modelos muito bacanas como o LG Velvet.

Pode ter sido o excesso de expectativa em relação ao G5 e que acabou frustrando a muitos? Talvez. Ou a vísível a reciclagem de hardware de um ano para o outro nos modelos de entrada e intermediário da marca? É possível. A falta de atualizações no softwares, principalmente do Android, também não ajudou. Sem contar o crescimento meteórico das marcas chinesas nesses últimos seis anos, com seus celulares bons e baratos.Talvez a queda da divisão mobile da fabricante sul-coreana seja uma soma de todos esses fatores e mais alguns, como a pressa em lançar smartphones que, claramente, ainda precisavam de mais refinamento.

De qualquer forma foi uma ótima jornada, LG! Você já está no "hall da fama mobile", ao lado de outros gigantes que também caíram, como BlackBerry, Sony e HTC. Mas, esperamos que, a exemplo da Nokia, você uma dia volte. Boas ideias para aparelhos sabemos que não faltarão. Basta executá-las melhor.

E estaremos esperando de braços abertos.

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