5 motivos para se preocupar com o relatório da ONU sobre as mudanças climáticas

5 motivos para se preocupar com o relatório da ONU sobre as mudanças climáticas

Por Wyllian Torres | Editado por Patrícia Gnipper | 11 de Agosto de 2021 às 16h48
Avtar Kamani/Pixabay

O 6º Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da ONU, publicado nesta segunda (9), não deixa dúvidas sobre o prejuízo que a ação humana tem provocado ao planeta. O AR6 (sigla para o 6° Relatório) aponta que o limite de 1,5 °C de aumento na temperatura média global, em relação ao período pré-industrial, será atingido em 2030 — uma década mais cedo do que anteriormente previsto. Um resultado direto disto são os eventos climáticos extremos sem precedentes, conforme alertam os cientistas.

Esta é a primeira parte do AR6, conduzida pelo Grupo de Trabalho I do IPCC, com a participação de mais de 200 cientistas de todo mundo. Para entender melhor quais são os pontos mais preocupantes desse relatório, o Canaltech entrevistou dois cientistas envolvidos nele: Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e um dos autores do novo relatório; e Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília e membro do Conselho Consultivo de Crise Climática (CCAG, na sigla em inglês).

Alves adianta: “O relatório fornece a compreensão mais atualizada e abrangente do sistema climático e das mudanças climáticas, tanto agora como no futuro. Por esse motivo, é relevante para todos: indivíduos, comunidades, empresas e todos os níveis de governo”.

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Os 5 pontos mais preocupantes do relatório da ONU

Colapso climático gera eventos regionais extremos

No AR6, os pesquisadores ressaltam que muitos pontos de inflexão estão sendo atingidos, ou seja, mudanças irreversíveis estão acontecendo. Alves diz que “este relatório coloca maior ênfase nas mudanças climáticas regionais, nas mudanças em eventos extremos e como esses eventos estão ligados às mudanças climáticas causadas pelo homem”. Um exemplo disso é a área de desertificação do Semiárido brasileiro, que já atinge o tamanho da Inglaterra. O pesquisador também reforça a importância do documento para os formuladores de políticas e para o público em geral.

Processo de desertificação no Semiárido (Imagem: Reprodução/Google Earth)

Mudanças projetadas nos extremos, explicou Alves, aumentam em frequência e intensidade a cada incremento do aquecimento global. “Cada 0,5°C adicional de aquecimento global causa aumento na intensidade e frequência de extremos de temperatura, incluindo ondas de calor (muito provável) e aumentos claramente perceptíveis na intensidade da precipitação (alta confiança), bem como secas agrícolas e ecológicas em algumas regiões (alta confiança)”, acrescentou.

Mercedes Bustamante, também uma das autoras do AR6, aponta que o relatório reforça algumas previsões já feitas no último (AR5), como os extremos nas ondas de calor, fortes precipitações, secas e ciclones. “Eventos extremos tem sido notícia em todo o mundo e são um desafio além do aumento gradual da temperatura, pois tem fortes impactos em termos de perdas econômicas, de vidas humanas e danos aos ecossistemas”, disse em entrevista ao Canaltech.

Além disso, Mercedes destacou o impressionante esforço em produzir o Atlas Interativo com dados regionais que aproxima os impactos das mudanças climáticas do público, pois permite avaliações localizadas.

Mudanças cada vez mais velozes

Lincoln ressalta que as mudanças climáticas recentemente observadas são generalizadas, rápidas e intensificadas — sem precedentes nos últimos milhares de anos. O AR6 prevê um aquecimento do clima global de 1,5 °C até o início da década de 2030, dez anos antes da avaliação acusada no relatório anterior (AR5). “Esse ponto é crítico porque indica que precisamos avançar muito mais no combate à mudança climática e também nos preparar de forma mais antecipada aos efeitos de 1,5 °C”, acrescentou a professora Mercedes.

A primeira parte do relatório é dedicada à ciência física do clima global, norteado por quatro questões: impactos, vulnerabilidade, adaptação e mitigação. Apenas uma redução drástica e imediata nos próximos dez anos pode evitar um colapso climático, apontam os cientistas. Desde 1988, foram publicados cinco grandes relatórios deste tipo, onde cientistas de todo o mundo revisaram pesquisas globais e alertaram o mundo sobre a crise climática.

A influência humana sobre o clima é inegável

Os pesquisadores ressaltam que, por conta das ações humanas, as mudanças climáticas já alcançaram os ecossistemas de todo o planeta. Inclusive, muitos pontos de inflexão estão sendo atingidos — ou seja, mudanças irreversíveis estão acontecendo. Entre elas, o aumento do nível dos mares, que tende a subir não apenas nas próximas décadas, mas ao longo dos próximos séculos.

(Imagem: Reprodução/WMO)

De acordo com o AR6, o clima global esquentou 1,09 °C desde o período pré-industrial e, desse total, cerca de 1,07 °C são de responsabilidade da atividade humana ao longo dos dois últimos séculos. Além da queima de combustíveis fósseis, que lançam uma grande quantidade de gases de efeito estufa para a atmosfera, o desmatamento e queimadas alimentam ainda mais este cenário de aquecimento global.

O impacto das mudanças climáticas será longo

A pesquisidora Mercedes explicou ao Canaltech que o relatório aponta para mudanças no nível do mar e na perda de massas de neve e gelo, que perdurarão por muito tempo — questão de séculos ou até mesmo milênios. Isso “significa que os impactos das mudanças climáticas também serão longos”, acrescentou. Ela também a alertou sobre a urgência em se trabalhar no controle das emissões e destacou a densidade de população humana nas zonas costeiras, incluindo grandes centros urbanos, que sofrerá com o nível dos mares subindo cada vez mais.

(Imagem: Reprodução/NASA/NOAA)

A primeira parte do relatório, que revisou mais de 14.000 pesquisas de todo mundo que fornecem evidências das mudanças climáticas nos últimos anos, apresenta uma probabilidade de 95% a 100% de que o aquecimento global ultrapasse a marca de 2 °C até o fim deste século. Caso as emissões de carbono permaneçam no nível atual e com um ritmo acelerado de crescimento, o clima global poderá superar 4 °C antes mesmo de 2100.

A solução é urgente, senão a natureza deixará de ser uma aliada

O AR6 também concluiu que os sumidouros de carbono terrestres e oceânicos — depósitos naturais como oceanos, florestas e solos — continuarão a crescer até 2100. No entanto, apenas uma fração de todo o CO2 será absorvida à medida que a concentração de carbono será superior ao crescimento dos sumidouros naturais. “Sistemas terrestres e oceanos têm contribuído com o sequestro de carbono, mas, à medida que a mudança climática avança a esses sistemas, eles perdem em eficiência, resultando em menor retirada de carbono da atmosfera e mais aquecimento”, ressaltou Bustamante.

(Imagem: Reprodução/Pixabay/jpleno)

A professora disse que, novamente, isto indica necessidade de atuar rapidamente enquanto ainda contamos com esses “aliados” naturais. O AR5, publicado em 2018, acusava sobre o efeito de curta duração de aerossóis sobre o aquecimento global nas próximas décadas, concluindo uma compensação parcial dos efeitos estufas nas próximas duas ou três décadas. Agora, o AR6 atualiza esse efeito e indica que as mudanças nas emissões desses compostos provavelmente provocará um aquecimento adicional.

A professora explicou que “essa informação indica a complexidade das interações entre compostos químicos na atmosfera que podem ter efeitos antagônicos (aerossóis que são poluentes e que impactam na saúde humana, mas que causam resfriamento) e gases de efeito estufa (que causam aquecimento)”. Ela disse que, ao controlarmos a poluição por aerossóis — o que é uma necessidade —, teremos que trabalhar de forma mais ambiciosa na redução dos gases de efeito estufa.

Por fim, David King, integrante do Climate Crisis Advisory Group (CCAG) e ex-conselheiro científico do Reino Unido, diz que o AR6 serve como um lembrete gritante e urgente para os governos e formuladores de políticas públicas, de que não há mais absolutamente nenhum espaço para manobras. “Destruímos sistematicamente o ecossistema do nosso planeta e, com ele, nosso futuro. Para nos salvar, devemos, agora, reparar os danos”, acrescenta King.

Abaixo, você confere um infográfico que resume esses e outros pontos preocupantes do relatório da ONU:

(Imagem: Reprodução/Agência Bori/RedeComCiência)

Fonte: Com informações de Agência Bori

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