Área desertificada no Nordeste do Brasil já é do tamanho da Inglaterra

Área desertificada no Nordeste do Brasil já é do tamanho da Inglaterra

Por Wyllian Torres | Editado por Patrícia Gnipper | 11 de Agosto de 2021 às 12h50
Google Earth

O mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado pela ONU na última segunda-feira (9), revela um cenário dramático para o clima global. Sobre o Brasil, o relatório reforça que nosso país abriga uma das áreas do mundo onde as mudanças climáticas estão provocando efeitos mais drásticos — o Semiárido. Este processo, somado ao avanço do desmatamento na região, agravará a desertificação, que já alcança uma área equivalente à Inglaterra.

O AR6 (sigla para o 6º Relatório do IPCC), diz que o Nordeste brasileiro é a área seca mais densamente povoada do mundo, sendo frequentemente afetada por extremos climáticos. Segundo o relatório, essas condições devem se agravar pelos próximos anos, quando a temperatura média global terá atingido aumento de 1,5 °C. No Brasil, isto significa um aumento de até duas vezes na temperatura dos dias mais quentes.

Em várias partes do Semiárido, os verões ultrapassarão facilmente os 40 °C. A região, que engloba parte do Nordeste e o norte de Minas Gerais, já tem enfrenta secas mais intensas e temperaturas ainda mais altas.

Quer ficar por dentro das melhores notícias de tecnologia do dia? Acesse e se inscreva no nosso novo canal no youtube, o Canaltech News. Todos os dias um resumo das principais notícias do mundo tech para você!

Morte do solo e desertificação

O meteorologista e cientista de solo Humberto Barbosa explica que temperaturas extremas colocam em xeque a sobrevivência de microorganismos que vivem no solo do Semiárido, fundamentais para a sobrevivência das plantas. Há dois anos, o pesquisador observou temperaturas de até 48 °C em solos degradados no interior de Alagoas. "A vegetação não crescia mais ali, independentemente se chovesse 500 mm, 700 mm ou 800 mm. Não fazia mais diferença, pois toda a atividade biológica do solo não respondia mais", acrescenta.

(Imagem: Reprodução/LAPIS/UFAL)

Barbosa, que também é professor na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), coordena o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (LAPIS). Desde 2012, o trabalho acompanha a desertificação do Semiárido. Só em 2019, a pesquisa acusou que cerca de 13% de toda a região estava em estágio avançado de desertificação — o equivalente a 127 mil quilômetros quadrados. "Na nossa região, naturalmente não haveria um deserto, só que a gente tem hoje um deserto", ressalta o pesquisador.

De acordo com a ciência, os climas desérticos ou áridos são definidos pela quantidade de chuva que uma região recebe, inferior a 250 mm por ano. A pouca chuva dificulta a sobrevivência de espécies. No entanto, essas condições climáticas não se aplicam a nenhuma região brasileira. O Semiárido, por exemplo, recebe entre 300 mm e 800 mm de chuva ao ano. "O solo dessas regiões foi perdendo a atividade biológica, embora as chuvas continuem acima do que se espera para uma região desértica. Esse é o paradoxo", reforça Barbosa. Ele também afirma ser praticamente impossível reverter esse fenômeno — e o processo de recuperação extrapola nossa capacidade econômica.

Seca preocupante

Desde que os níveis de chuva começaram a ser registrados, em 1850, o Semiárido enfrentou seu maior período de seca entre 2012 e 2017. Naquela época, a seca já era relacionada às mudanças climáticas e, desde então, expandiu as áreas de deserto. Humberto Barbosa diz que, por conta da pandemia, não foi possível medir o progresso do fenômeno após 2019, mas provavelmente ele segue avançando.

Um dos principais núcleos de desertificação do Semiárido, localizada em Cabrobó (PE) (Imagem: Reprodução/Google Earth)

As áreas desertificadas não são contínuas, o que significa que elas ocupam diferentes partes do Semiárido, que, somadas, equivalem o tamanho da Inglaterra ou três vezes o estado do Rio de Janeiro. "A região semiárida é a mais impactada (pela mudança do clima) no Brasil, e é a região onde você tem os índices de desenvolvimento humano mais baixos do país", acrescenta Barbosa. Para os cientistas, não restam dúvidas sobre as mudanças climáticas serem as acentuadoras de eventos mais extremos.

Cadê as políticas públicas?

Barbosa explica que ainda não dá para saber quanto da desertificação se deve ao desmatamento ou às mudanças climáticas. No entanto, o desmatamento na Caatinga, o ecossistema da região, contribui para a degradação do solo. A Caatinga é o quarto maior bioma do Brasil, correspondendo a 11% do território nacional, mas já perdeu 53,3% da cobertura original, de acordo com o MapBiomas. A pecuária é apontada como uma das principais causas do fenômeno de desertificação e, somente neste ano, foram registrados 2.130 focos de queimadas — uma alta de 164% em relação ao ano passado.

Apesar desse cenário preocupante no Semiárido brasileiro e das previsões de piora, não existe, hoje, um plano concreto por parte do governo para mapear a desertificação — e, principalmente, para combatê-la. A ação mais recente foi o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAN), lançado em 2006, mas que não avançou.

Fonte: BBC

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.