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Exclusivo: Anúncios falsos no Google Discover resultam em golpes e prejuízo

Por| 09 de Maio de 2024 às 07h00

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Danilo Berti/Canaltech
Danilo Berti/Canaltech
Tudo sobre Google

Você pega o celular para ficar informado, desliza a tela inicial do Android para o lado e acessa o Google Discover. Entre as notícias há um anúncio: uma oferta incrível de uma empresa famosa liquidando estoque. Você abre o link, faz a compra e só depois percebe que caiu num golpe. Essa situação tem se repetido há alguns meses e vem fazendo muitas vítimas, como identificou uma investigação conduzida pelo Canaltech nas últimas semanas.

Todo dia é quase sempre igual

A rotina descrita no parágrafo acima é repetida por um número incerto de pessoas todos os dias — todas potenciais vítimas de novos golpes. O Google Discover aparece à esquerda da home no Android, no app Google e na página inicial do Chrome para celular, o navegador mais usado do planeta. A "onipresença" dessa rede social de notícias dá uma ideia do alcance e do potencial nocivo de uma tentativa de golpe veiculada ali.

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Quem costuma usar este espaço talvez já tenha se deparado com anúncios que prometem produtos por preços baixíssimos porque supostamente lojas do naipe de Polishop, Centauro e Pontofrio estariam falindo e liquidando estoque com ofertas incríveis. Tudo, porém, é falso e não tem ligação com as grandes marcas usadas para tentar induzir o público a realizar a compra.

Outros conteúdos impulsionados no Discover contam que empresas como Amazon e Mercado Livre estariam vendendo a preço baixo caixas que não puderam ser entregues ao destinatário original. As iniciativas recebem os nomes de “Amazon Caixas” e “Mercado Caixas”, mas também são meras tentativas de fraude e não têm a ver com as gigantes do varejo.

Nem mesmo grandes sites de notícia são poupados nos anúncios falsos: quando você clica num link convidativo desses, além de ser levado a páginas com o visual idêntico ao de lojas oficiais, por vezes também cai em publicações falsas em sites que simulam veículos de notícias famosos, como G1 e Folha de S.Paulo.

Vítimas do Google Discover

O arquiteto Ricardo Saboia, 48, esperava um voo no aeroporto quando viu um anúncio no Google Discover com uma superpromoção da loja Centauro. Segundo a notícia publicada pelo site “G95”, a loja havia sido vendida e oferecia descontos para diminuir o estoque.

“Entrei no site e estava aparentemente tudo ok, pedi um par de tênis e paguei R$ 117. Eu tinha mandado no grupo da família para ver se alguém queria algo e uma sobrinha disse: tio, eu vi aqui no site da Centauro e não tem nada de promoção ou de encerramento”, explica Ricardo à reportagem do Canaltech. “Foi aí que fui olhar o site de compra e, apesar de muito similar ao original da Centauro, estava escrito ‘Centouro’”, continua.

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Ricardo explica que, ao perceber ter sido vítima de um golpe, imediatamente cancelou o cartão no qual realizou a compra para evitar seu uso em novas transações. Ele até tentou cancelar a transação junto à operadora do cartão, mas foi informado de que isso teria que ser feito com a loja. “Obviamente a ‘loja’ não respondia mais nada”, explica o arquiteto.

Plataformas como a rede social Reddit e o site Reclame Aqui, que registra insatisfações de clientes com produtos e serviços adquiridos pela internet, estão repletos de registros de pessoas que passaram por situações semelhantes à de Saboia nos últimos meses.

“Olhando o Google Notícias ou Discovery (sic), apareceu uma notícia que a Centauro estava com queima de estoque e promoções nos tênis. Inocente eu, entrei e vi as promoções e comprei”, relata uma pessoa que alega ter tido prejuízo financeiro com o anúncio que se passava pela mesma varejista.

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Além do Google Discover, alguns links falsos aparecem até mesmo na busca. É o caso do “Mercado Caixas”: o mesmo link com uma notícia fictícia sobre o tal programa aparece organicamente (ou seja, não era patrocinado) na primeira posição dos resultados quando a expressão é pesquisada no Google. Confira no print abaixo.

Algumas reclamações também estão direcionadas ao serviço Cashtime Pay, que, segundo relatos de alguns consumidores, processa pagamentos em alguns desses casos — encontramos relatos que citam a companhia especialmente em aquisições no "Mercado Caixas". A empresa costuma responder os usuários no Reclame Aqui informando que apenas intermedeia as transações. Em alguns casos, chega a informar que vai realizar o reembolso. 

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Ao Canaltech, a Cashtime Pay reforçou ser uma intermediadora de pagamentos. Em nota, a companhia diz que "atua como uma interface segura que conecta compradores e vendedores" e possui "uma abrangente equipe de compliance e antifraude” para realizar monitoramento constante das transações realizadas por meio dela. A empresa reconhece, porém, que "fraudes ocasionalmente ocorrem", mas garante que tais incidentes representariam "uma ínfima parcela das milhares de transações intermediadas". Confira a nota da Cashtime Pay na íntegra ao fim desta publicação.

Anúncio falso, anunciantes suspeitos

Todo anúncio que aparece no Google Discover traz junto de si um botão de três pontinhos que, se clicado, leva o leitor até uma tela com mais informações sobre quem é o responsável pela publicação. Um padrão em todos os anúncios falsos vistos pela reportagem do Canaltech é a presença da mensagem “a identidade do anunciante não foi verificada”.

E, apesar de o anúncio usar imagens de empresas grandes e conhecidas do público, o anunciante geralmente traz o nome de uma pessoa física. Quando o responsável é uma empresa, nunca é de fato aquela responsável pela marca usada de má fé para iludir clientes.

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Segundo as informações de anúncios do Google, o responsável pelo impulsionamento de um anúncio falso da Shopee é a empresa Planik 19 Empreendimento Imobiliário — vale mencionar que a identidade do anunciante não foi verificada pelo Google, como fica claro no print abaixo.

No Reclame Aqui há uma reclamação deste caso. O consumidor alega ter visto o anúncio no YouTube, não no Google Discover, o que indica um alcance ainda maior dessas publicações nas plataformas do Google. Na resposta, a Planik informa que "não tem qualquer relação com esse anúncio" e que encaminhou o caso de uso indevido do nome da companhia para o seu departamento jurídico.

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O Canaltech entrou em contato com a empresa para ter mais informações, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria — o espaço segue aberto para a manifestação.

Autoverificação de anúncios não é apropriada, diz especialista

Para o coordenador de projetos do NetLab da UFRJ Bruno Martins, a verificação própria de anúncios realizado pelas Big Techs não é o suficiente. "Do ponto de vista da autorregulação das plataformas e redes de anúncios digitais, é seguro dizer que não há uma moderação e revisão apropriada do que é impulsionado por meio delas", explicou o jornalista e mestrando em ciência da computação ao Canaltech.

Entre outros projetos, o NetLab atua junto da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para monitorar a desinformação online no Brasil. 

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"Na ausência de uma regulação pela força da lei, as plataformas digitais colocam seus termos e políticas de uso acima da legislação vigente e ainda assim não seguem o que estipulam, mesmo que expressamente proíbam a publicidade irregular, nociva e fraudulenta. Nas entrelinhas, elas já deixam claro que não exercem muito controle sobre os anúncios que permitem circular e se eximem de qualquer responsabilidade por eles", prossegue Martins.

Questionado pelo Canaltech, o Google não explicou exatamente como ocorre a verificação prévia de anunciantes a fim de garantir que o material impulsionado seja legítimo. Em nota, a companhia apenas alegou ter “políticas rígidas" para delimitar como pessoas e empresas anunciam produtos no Google Ads e que age “imediatamente” para suspender anúncios que violem essas regras.

Ainda segundo a Gigante da Internet, em 2023 foram bloqueados ou removidos 2,5 bilhões de anúncios e 12,7 milhões de contas de anunciantes em todo o mundo por conta dessas violações — confira a nota do Google na íntegra ao final da matéria.

Para contextualizar melhor, apenas no ano passado, o Google faturou mais de US$ 283 bilhões com anúncios veiculados em todo o seu ecossistema — em conversão direta pela cotação de hoje, isso equivale a mais de R$ 1,4 trilhão. O valor representa a maior parte da receita total de US$ 305 bilhões (R$ 1,5 trilhão) da companhia em 2023.

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Caí no golpe, o que fazer?

O Procon-SP orienta que pessoas lesadas em golpes de anúncio falso registrem a ocorrência, mas informa que não há como recorrer a órgãos de defesa do consumidor para resolver a questão.

“Os consumidores lesados devem registrar boletim de ocorrência em uma delegacia de polícia, que é o órgão competente para realizar as investigações criminais frente a este tipo de problema”, explica o órgão ao Canaltech.

“Por se tratarem de anúncios falsos — ou sites falsos —, não haverá uma empresa envolvida e legalmente constituída como responsável; tal fato impede a atuação de órgãos de defesa do consumidor, como os Procons, por conta de suas atribuições e competências de âmbito administrativo", continua o Procon.

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O advogado Matheus Puppe, sócio da área de TMT, Privacidade & Proteção de Dados do Maneira Advogados, explica que registrar um BO é importante porque fazer isso "não só formaliza a denúncia, mas também ajuda as autoridades a identificar padrões e possivelmente prevenir golpes similares no futuro."

O Google é responsável?

Segundo o artigo 19 do Marco Civil da Internet, empresas só podem ser responsabilizadas por conteúdos veiculados em suas plataformas se descumprirem uma ordem judicial que determina a remoção desses materiais. Na opinião de especialistas, isso acaba por reduzir a possibilidade de ação da justiça no combate às fraudes com anúncios falsos.

“Caso o Google seja notificado judicialmente sobre a natureza fraudulenta de um anúncio e não tome as medidas adequadas para removê-lo, poderia ser considerado corresponsável pelos prejuízos causados aos usuários”, esclarece Matheus Puppe. “Contudo, sem essa notificação, a responsabilidade direta da plataforma é mais limitada, já que não é exigido que monitore proativamente todo o conteúdo veiculado.”

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Para Bruno Martins, qualquer mudança no sentido de responsabilizar Big Techs por esse tipo de conteúdo só será viável com a alteração do artigo do Marco Civil que trata do tema.

"Esse cenário só pode ser minimamente alterado com a aprovação de um projeto de regulação que reverta o artigo 19 do Marco Civil da Internet, de forma a responsabilizar as plataformas pelo que circula nelas, sobretudo mediante pagamento, como no caso de anúncios falsos", comenta o coordenador do NetLab.

Como realizar compras seguras na internet

Fazer compras na internet é uma prática comum, o que levanta também um alerta: muitos golpistas se aproveitam disso para tentar enganar compradores.  O Procon-SP explicou ao Canaltech que o consumidor precisa sempre estar atento e buscar o site oficial da loja ao realizar uma compra, prestando atenção a dados como endereço físico, telefone de atendimento, CNPJ e também à estrutura do endereço da página.

“Também é interessante que o consumidor faça uma consulta na lista disponibilizada no site do Procon-SP com sites não recomendados”, indica o órgão. “São sites que tiveram reclamações de consumidores registradas no Procon-SP, foram notificados, não responderam ou não foram encontrados”

A página indicada pelo Procon paulista está disponível em procon.sp.gov.br.

O que dizem as empresas

Confira abaixo as notas enviadas por Google e Mercado Livre a respeito dos anúncios falsos. Entramos em contato com a Amazon — que também tem sua marca usada em anúncios falsos que promovem o “Amazon Caixas” — mas não houve resposta até a publicação (o espaço segue aberto para incluir o posicionamento da empresa). Leia também a íntegra do posicionamento da empresa Cashtime Pay.

Nota do Google

Temos políticas rígidas que delimitam a forma como pessoas e empresas podem anunciar produtos por meio do Google Ads. Quando identificamos uma violação às nossas políticas, agimos imediatamente suspendendo o anúncio e, até mesmo, bloqueando a conta do anunciante.

No total, apenas em 2023, nós bloqueamos ou removemos, globalmente, 5,5 bilhões de anúncios e 12,7 milhões de contas de anunciantes por violações às nossas políticas. Se algum consumidor suspeitar ou for vítima de golpe, oferecemos uma ferramenta para denunciar violações de nossas políticas.

Nota do Mercado Livre

O Mercado Livre informa que combate ativamente tentativas de golpe e fraude de engenharia social, que também lesam a sua marca fora da plataforma. Para isso, investe massivamente em segurança, tecnologia e equipes especializadas, além de todo trabalho de conscientização de usuários e da parceria com o poder público para a investigação de crimes de cibersegurança.

Nos últimos anos, a companhia tem percebido a efetividade das ações de educação dos usuários compradores e vendedores, que têm papel relevante na proteção dos seus dados pessoais e na identificação de tentativas de golpe de engenharia social fora da plataforma, que se utilizam de técnicas de persuasão e manipulação para convencer vítimas.

Atualmente, devido ao seu trabalho de Inteligência Anti-Ciberameaças, a plataforma já derruba cerca de 250 páginas falsas por dia, a partir dos seus esforços proativos de detecção de páginas e posts fraudulentos, que são reportados ao aos servidores e plataformas, solicitando a baixa imediata. Para garantir uma negociação e compra seguras, o Mercado Livre sempre orienta que toda comunicação e transação entre usuários seja realizada dentro da sua plataforma, assim como os orienta a nunca compartilhar dados pessoais e clicar em links suspeitos.

É recomendável ainda verificar os anúncios diretamente na plataforma, o remetente de e-mails recebidos e desconfiar de mensagens via WhatsApp, e-mail ou SMS sem que o usuário tenha solicitado atendimento. Diante de qualquer suspeita, a empresa recomenda sempre consultar os dados da transação dentro na plataforma, consultar os Termos e Condições de Uso e a seção de Segurança, além de acionar os canais de atendimento oficiais.

A companhia reforça ainda que, dentro da plataforma, qualquer anúncio ou vendedor pode ser reportado por usuários compradores através do botão ‘denunciar’, presente em todos os anúncios, assim como a conta com programas reconhecidos de proteção a vendedores, marcas e detentores de direitos autorais, assim como parcerias público-privadas para a investigação externa de práticas proibidas.

Nota da Cashtime Pay

É com grande satisfação que a Cashtime Pay se coloca à disposição para esclarecer o papel fundamental que desempenhamos como intermediários de pagamentos no cenário comercial atual. Nosso compromisso vai além de simples transações financeiras, somos uma ponte confiável entre comerciantes e consumidores, simplificando e assegurando cada etapa do processo de compra.

Em essência, um gateway de pagamentos, como a Cashtime Pay, atua como uma interface segura que conecta compradores e vendedores, facilitando transações online de forma eficiente e segura. É a garantia de uma transação tranquila e protegida para ambas as partes envolvidas.

Na vanguarda da integridade e segurança, nossa empresa mantém uma abrangente equipe de compliance e antifraude dedicada, vigilante em todos os estágios do processo. Desde a verificação rigorosa no cadastro dos vendedores até o monitoramento constante das transações, estamos empenhados em salvaguardar os interesses de nossos clientes.

Reconhecemos que, apesar dos nossos esforços incansáveis, fraudes ocasionalmente ocorrem. É importante, no entanto, destacar que esses incidentes representam uma ínfima parcela das milhares de transações intermediadas por nós diariamente. É nossa prioridade absoluta detectar e deter qualquer atividade fraudulenta, agindo rapidamente para mitigar qualquer dano aos consumidores afetados, e adotando todas as medidas legais cabíveis.

Nossa dedicação em oferecer suporte excepcional não se limita apenas à prevenção de fraudes. Como prova de nosso compromisso com a excelência no atendimento ao cliente, estamos orgulhosos de ostentar a nota máxima no Reclame Aqui, uma conquista que reflete nosso compromisso em resolver prontamente quaisquer questões ou reclamações.

Na Cashtime Pay, encaramos cada desafio como uma oportunidade de aprendizado e aprimoramento. Estamos sempre prontos e dispostos a auxiliar todos os que possam ter enfrentado dificuldades em suas transações. Nossa missão é garantir que cada experiência de pagamento seja segura, confiável e livre de preocupações para todos os envolvidos.

Agradecemos pela oportunidade de esclarecer nossa posição e compromisso com a segurança e a excelência no serviço. Estamos à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais.