Organizadora de protesto contra a Google deixou a empresa: "sofri retaliação"

Por Rafael Arbulu | 10 de Junho de 2019 às 11h12
Tolga Akmen/AFP/Getty Images
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Claire Stapleton, uma das organizadoras do Google Walk Out, protesto em formato de passeata conduzido por funcionários da Google em diversas unidades da companhia pelo mundo, deixou a empresa alegando ter sofrido retaliação dos gestores e ver a Google tentar mudá-la de departamento.

Em um post publicado na conta do movimento Google Walkpout for Real Change, no Medium, Stapleton compartilhou o conteúdo do seu e-mail de despedida da empresa, comunicando que deixou a Google na semana passada. Segundo o material, ela era apaixonada pela companhia quando ingressou em seu quadro de trabalhadores, em meados de 2017, mas com o tempo passou a enxergar a cultura da Google de forma diferente.

“A Google sempre enfrentou controvérsias e debates internos, mas as ‘partes difíceis’ haviam se intensificado, e a forma como as lideranças tratavam delas subitamente pareceram diferentes, evasivas, menos satisfatórias”, ela escreveu.

(Imagem: Reprodução/Google Walkout/Medium

O protesto que ela ajudou a organizar reuniu mais de 20 mil funcionários, que repudiaram a Google — em especial, a área de Recursos Humanos e gestores diretos — por falhar em tomar ações coercitivas contra a cultura sexista e de assédio sexual e trabalhista, da qual acusavam ser perene na empresa. Na ocasião, a Google disse apoiar o protesto dos funcionários e prometeu reuniões de debate e esclarecimentos.

Grande parte das reclamações advinha dos pagamentos milionários que a empresa fez a Andy Rubin e outros gerentes, diretores e funcionários de alto cargo durante a saída deles. O caso de Rubin, que criou o sistema operacional Android, é o mais expressivo: ele teria assediado sexualmente uma funcionária de um departamento chefiado por ele durante uma viagem de negócios. A Google, ao invés de puni-lo, decidiu “recomendar-lhe a renúncia”, pagando ao executivo um pacote de bonificação de cerca de US$ 90 milhões em 2014. O escândalo foi descoberto pelo jornal The New York Times.

Em abril deste ano, porém, Stapleton, junto de outras pessoas que encabeçaram o protesto, começou a relatar supostas tentativas de retaliação por parte da direção da empresa. Segundo ela, dois meses após os protestos (ou seja, janeiro deste ano), ela foi informada que seria rebaixada de seu cargo e perderia metade de seus relatórios. Ao levar a questão à área de Recursos Humanos, ela encontrou ainda mais retaliação: “Meu gerente começou a me ignorar, meu trabalho foi passado para outras pessoas e eu fui ‘encorajada’ a sair de licença médica mesmo sem estar doente”.

Na ocasião, ela disse ter conseguido manter, depois de uma boa briga, as suas atribuições originais, mas o ambiente em sua área de trabalho tornou-se hostil, com gerentes e funcionários ignorando-a no dia a dia. À época, Stapleton já havia sinalizado que considerava pedir as contas da empresa, mas havia sido prometida uma “reunião aberta” para discutir a situação, que até ocorreu, mas apenas para que a Google negasse as acusações de retaliação e dissesse que as mudanças de cargos e atribuições eram algo “protocolar” da empresa.

No Medium, Stapleton disse que a resposta da Google foi “deprimente”. “Eu fiz essa escolha após os chefes do meu departamento me marcarem de tal forma que dificultasse eu realizar o meu trabalho ou encontrar outra ocupação”, ela relata no texto. “Se eu tivesse ficado [na empresa], eu não estaria apenas me preocupando de sofrer mais ignorância, volatilidade e estresse. Isso já era até esperado por mim”.

Meredith Whittaker, outra organizadora do protesto de novembro que também relatou tentativas de retaliação por parte da Google (mas que ainda continua empregada na empresa), disse em seu perfil do Twitter que a gigante da internet está tentando silenciar participantes das reclamações: “[Claire Stapleton] é uma irmã e amiga, além de um ser humano profundamente maravilhoso. Ao empurrá-la para fora, a Google está tentando acabar com um movimento. Mas não é assim que funciona — com ou sem crachá, a Claire não vai sumir, nem os milhares de organizadores por toda a companhia. A mudança de estrutura ESTÁ CHEGANDO à tecnologia”.

A Google não comentou sobre o caso.

Fonte: Google Walkout for Real Change

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