Pega na mentira: 6 jogos que sofreram downgrade em seus lançamentos

Por Rafael Arbulu | 26 de Março de 2020 às 11h54
Ubisoft

Uma publisher quer que seu jogo tenha o máximo de apelo visual e sonoro, a fim de estimular os jogadores que, por sua vez, ficam tão empolgados com os materiais de divulgação que já sacam seus cartões de crédito e partem para a aquisição antecipada — a famosa pré-venda. Isso lhe parece uma prática bem padronizada, certo?

Mas e quando nos deparamos com situações em que o jogo anunciado difere — em alguns casos, grosseiramente — do entregue às lojas e ao consumidor? Há inúmeros casos onde vemos o famosos downgrade, comumente visto na parte gráfica, com visuais e texturas bem abaixo do que foi inicialmente revelado durante anúncios.

E não são poucos! O Canaltech listou 5 jogos que sofreram downgrade em seus lançamentos.

1. No Man's Sky

Vamos começar com possivelmente a maior mentira — e a maior redenção — da atual geração. Quando foi anunciado e durante toda a divulgação pré-lançamento, No Man’s Sky fez promessas incrivelmente mirabolantes, do tipo que fariam Peter Molyneux (lembra dele?) ficar corado de inveja. Trailers mostravam densas florestas e desertos gigantescos, com animais diversificados batalhando em um jogo que prometia uma campanha praticamente infinita, com o aspecto multijogador sem limites, permitindo formar facções e criar suas próprias guerras contra outros jogadores.

Dois anos depois, não tivemos nada disso no lançamento: os animais tinham visual e movimentação estranhos, os ambientas traziam texturas antiquadas e absolutamente nenhum aspecto online de jogabilidade poderia ser usado, com promessas dos desenvolvedores da Hello Games sendo adiadas “para datas posteriores”.

Felizmente, a situação se inverteu a ponto de o jogo lançado em agosto de 2016 se assemelhar, em 2020, a algo bastante próximo do que foi originalmente anunciado. Atualmente, No Man's Sky é um título muito bem recebido pelos jogadores, ainda que seu início tenha sido tão conturbado.

2. Anthem

Os estúdios BioWare, de propriedade da Electronic Arts, consistem de uma empresa dividida em duas eras: do lado bom da história, temos o nome por trás de Dragon Age: Origins e a trilogia original de Mass Effect. De outro, bem ruim, temos Anthem, um dos títulos mais alardeados como “o futuro da geração atual”, mas que foi entregue como algo medíocre, para ser educado.

Por onde começar? O trailer de demonstração do jogo, na época do seu anúncio, mostrava uma comunidade vívida. Não apenas por causa de diversos jogadores conectados online, mas também pelos personagens aleatórios, que engajavam em conversas próprias e ações feitas pela inteligência artificial, sem depender de comandos do usuário. Adicione a isso ambientes incrivelmente detalhados, dignos de serem explorados e que atiçavam a curiosidade do gamer.

Quando ele chegou, porém, recebemos um balde de água fria: o hub central do jogo — o Forte Tarsis — era uma localidade bem pífia em vivacidade, em nada fugindo do padrão de literalmente qualquer MMO genérico do mercado, com detalhes de ambiente e gameplay com texturas atenuadas demais, a ponto de fazer parecer que tratava-se de outro jogo.

3. Rainbow Six Siege

Quando a Ubisoft apresentou Rainbow Six Siege, o mundo parou e prestou atenção. O vídeo mostrava uma gameplay incrivelmente inovadora para o gênero de tiro em primeira pessoa (FPS), com movimentos realistas de câmera, ambientes claustrofobicamente apertados e foco na progressão tática ao invés de atirar em tudo o que se movia. Personagens tinham uma animação imersiva e o ambiente soturno do vídeo apenas adicionava à tensão nos olhos dos espectadores. Era tudo incrivelmente cinemático.

Não, eu falo isso literalmente. Era “cinemático”: um trailer cinemático que imitava gameplay. Literalmente zero momentos de jogo, tudo imitação criada por um computador, não muito diferente de qualquer animação intermitente em jogos do gênero. E aí o jogo chegou às prateleiras… meu amigo... pense na decepção. Pegue tudo o que era empolgante no vídeo inicial e vire do avesso. Animações que mais pareciam as versões primárias de Counter-Strike (sim, aquela das lan houses, lembra?) e, embora trouxesse um aspecto tático à partida, isso era superficial, e comumente os vencedores eram os jogadores que atiravam primeiro.

Atualizações subsequentes acabaram corrigindo a maior parte das insatisfações dos jogadores, deixando a experiência palatável e atraente. Mas, mesmo assim, não chegou nem perto do que o primeiro trailer prometia.

4. Aliens: Colonial Marines

Outra proverbial enganação dos estúdios Gearbox para os gamers de plantão, Aliens: Colonial Marines é, em essência, a resposta à pergunta “Por que não se deve mentir para o público?”

Sendo justo à Gearbox, esse jogo passou por diversos estúdios antes de chegar à empresa de Randy Pitchford, então não há como atribuir toda a culpa dessa falha retumbante em suas costas. Entretanto, após assumir a produção, a Gearbox posicionou um trailer que reproduzia com a mais alta fidelidade a experiência de ser constantemente perseguido pelo icônico xenomorfo dos cinemas. Ambientes escuros, sonorização baixa para captar sons que pudessem causar suspense no jogador, uma inteligência artificial aprimorada que fazia você pensar e repensar estratégias. Aliens: Colonial Marines passou por momentos muito dificultosos, mas finalmente parecia caminhar para o sucesso.

Entretanto, o que nos entregaram foi... bom, vamos deixar você ser o juiz, mas antes de ver o vídeo abaixo, vamos deixá-lo com essa informação: a Gearbox Software chegou a enfrentar inúmeros processos por propaganda enganosa e, no caso da inteligência artificial, o problema todo foi um erro de digitação no código do jogo.

5. Watch Dogs

Aqui, chegamos ao título que é geralmente o mais lembrado quando o assunto é downgrade: Watch Dogs foi revelado com um trailer magnífico em 2012, mostrando uma réplica fiel da cidade de Chicago, com pegada futurista e um ambiente noturno, externo, com efeitos climáticos como chuva e vento incrivelmente realistas. Ao mesmo tempo, o protagonista Aiden Pearce se destacava no cenário, com efeitos planejados nos mínimos detalhes: o balanço de suas roupas conforme ele andava, a forma como ele reagia ao olhar, brevemente, para alguns pedestres. Tudo ali foi feito com bastante esmero.

O que nos foi contemplado no varejo foi uma versão cujos visuais eram incrivelmente inferiores ao que vimos no trailer: efeitos climáticos eram completamente inexistentes na maior parte dos ambientes da cidade virtual e, quando apareciam, eram menos que notáveis. Os movimentos de Aiden Pearce também foram reduzidos e saltos, cambalhotas e afins diferiam muito do trailer, que nos mostrou também um efeito bullet time digno dos melhores filmes de Hollywood, ao passo que o produto final era bem menos impressionante.

Neste caso, não houve correção ou patch posterior que desse conta. Watch Dogs sempre será lembrado como o maior hype job (ou seja, o produto que gera enorme burburinho apenas para entregar algo “sem sal”) da história moderna dos games. Fica aqui a torcida para que Watch Dogs Legion consiga entregar tudo o que vem prometendo: o trailer da E3 2019 impressionou bastante, mas, convenhamos, o primeiro jogo da trilogia também…

Menção Honrosa: Killzone 2

Até aqui, todos os jogos que mostramos trazem a característica de trazer um pouco de gameplay em suas apresentações, exceto por Rainbow Six Siege mais acima. Mas nem mesmo ele se compara à hecatombe de falhas que foi Killzone 2: revelado em 2005, o jogo trazia um trailer obviamente cinemático, apesar da Guerrilla Games jurar que eram capturas de gameplay. Pouco tempo depois, analistas se deram conta de que o trailer era tão perfeito, que nem mesmo a atual geração de consoles — PS4 e Xbox One — poderiam reproduzi-lo com a mesma fidelidade.

O vídeo de apresentação foi uma miríade de sonhos que todo fã de jogos de tiro tem: capacidade de formação de times, modelos de humanos e monstros visualmente impressionantes e animações realistas em todas as vertentes, desde os movimentos faciais de personagens até gotículas de sangue de um ferimento aberto. O jogo que chegou às lojas, porém, não apenas era graficamente inferior, mas a jogabilidade também foi mentirosa, já que Killzone 2 nada mais foi do que um FPS bem genérico e, mesmo nisso, ainda não era dos melhores. “Rostos quadrados” é o tipo de falha visual que deveria ter morrido com o Nintendo 64, mas ela estava presente no auge do PlayStation 3.

O líder da Guerrilla Games, Herman Hulst, tentou justificar o erro: aparentemente, o vídeo em questão era apenas uma “prova de conceito para atestar as capacidades do hardware do PlayStation 3 e nunca deveria ter ido a público”. Não que essa desculpa tenha encontrado perdão entre os jogadores, mas ao menos a empresa se redimiu anos mais tarde com Horizon Zero Dawn.

6. Dark Souls II

Finalizando a lista, temos um jogo que, mesmo com todas as suas falhas entre o anúncio e a entrega do produto, conseguiu se sair muito bem — ainda que isso tenha sido possível mais pelo amor dos fãs do que por capacidade da From Software, que realmente deixou a peteca cair aqui.

Em Dark Souls II, fomos introduzidos a efeitos de ambientação incrivelmente detalhados: sombras que se ajustavam conforme a posição da luz mudava, sinalizando uma física hiper-realista; chamas de tochas que iam e voltavam nas pequenas labaredas, piscando levemente quando encontravam uma obstrução… Até mesmo a escuridão dos ambientes soturnos do jogo parecia diferente, melhor, mais viva. Detalhe: tudo isso em uma época que antecedeu ao ray tracing, então efeitos de luz que hoje são padrão por causa desse recurso visual, no trailer de Dark Souls II eram mostrados “na unha”. Sinta-se livre para inserir aqui o meme do “raiz versus Nutella”.

Já o produto final trouxe “foguinhos” texturizados que eram dolorosos só de olhar, uma movimentação estranha dos efeitos de luz e qualquer vivacidade nas ambientações variadas do jogo foi anulada, não sendo resgatada nem mesmo pelos inúmeros monstros e inimigos. Adicionando mais gasolina ao fogo, a mesma From Software viria a lançar Bloodborne dois anos depois — um primor visual como poucos jogos da época. Ou seja, não foi por falta de capacidade: claramente, Dark Souls II teve seu desenvolvimento acelerado, de forma a minar o detalhamento que os gamers esperavam.

"Mas que m&@#$% é essa?"

A frase acima provavelmente foi proferida por você diversas vezes. E tal qual nós lembramos de muitos outros jogos, com toda certeza você tem na memória alguns que não entraram em nossa lista.

Então você já sabe: é hora de discutirmos! Conte para nós, nos comentários abaixo: quais jogos você se lembra de terem sido apresentados de forma estonteante apenas para serem entregues de forma decepcionante? Vamos tentar entrar no seu post e interagir com algumas argumentações do nosso lado.

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