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Gaming burnout: Como identificar o cansaço mental causado pelo excesso de jogos

Por  • Editado por Jones Oliveira | 

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Reprodução/Nano Banana
Reprodução/Nano Banana

No fim do ano passado, o 'Gaming Burnout’ virou discussão entre vários criadores de conteúdo após um vídeo do canal Velberan sobre o assunto. Na ocasião, o criador desabafou sobre sua relação de esgotamento com o trabalho envolvendo videogames.

O conteúdo em questão gerou muitas críticas entre os usuários. Alguns questionaram o fato de que o criador estaria reclamando de trabalhar jogando videogames. Já outros reprovaram a forma como Velberan abordou o termo Burnout.

Mas, afinal, é possível chegar a esse estado jogando ou trabalhando com videogames?

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O que é a síndrome de Burnout?

Antes de mais nada, é importante definir o que de fato é a síndrome de Burnout e como ela se diferencia de um cansaço temporário comum. A Organização Mundial da Saúde define a condição como uma síndrome resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso.

Psicólogo clínico há mais de 13 anos e dono do canal Bits Retro, Rafael Marques (CRP: 06/121262) explica que o Burnout é caracterizado por um estado de exaustão emocional, mental e física no qual a pessoa sente que não tem mais energia para continuar suas atividades. A síndrome também afeta o sono e a alimentação, além de aumentar a irritabilidade. O Burnout envolve a perda total do prazer e do ‘brilho’ ao realizar tarefas e atividades.

Embora Velberan tenha usado a palavra Burnout no título do seu vídeo, o próprio criador reconheceu a gravidade da condição e que seu caso era mais como um cansaço do que a síndrome de fato. 

Ao Canaltech, o criador Lucas "Pão de Mel", dos canais Pão de Mel e Reboot, mostrou preocupação sobre a banalização da palavra Burnout num contexto de videogame.

"O meu medo é banalizar essa palavra. A gente começar a normalizar isso, porque é muito mais pesado do que parece", contou. Para ele, muitas vezes o que o gamer sente é mais um cansaço de jogar, como numa ressaca literária.

Uma das melhores formas de diferenciar um cansaço temporário da síndrome de Burnout é que, no primeiro caso, a condição costuma passar quando as pessoas dão um tempo da atividade.

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Já o Burnout exige medidas mais drásticas. Marques explica que apenas dormir mais ou "tirar férias" pode não resolver se a mentalidade e as pressões continuam as mesmas. Essa condição exige um maior autoconhecimento, ajuda profissional e afastamento total das atividades.

É possível chegar a um Burnout 'jogando videogames'?

O Burnout pode e afeta muitas pessoas que trabalham com games, sejam criadores de conteúdo, jornalistas, streamers e jogadores profissionais de e-Sports. Essas atividades exigem acompanhamento e produção extensiva de conteúdo sobre videogames, que originalmente eram para ser encarados como um hobby, descanso e uma atividade prazerosa. Há um certo excesso em jogar videogame.

As respostas ao vídeo de Velberan, ou de qualquer outro criador de conteúdo que compartilhe estar cansado de trabalhar com games, mostram como as atividades relacionadas ao setor são vistas com um olhar de desdém.

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Pão de Mel conta que é difícil para o público ter empatia porque, externamente, parece que o trabalho é fácil e apenas sobre "jogar videogame", ou uma atividade que muitos fariam de graça. Esse pensamento pode ser influenciado pela visão que as pessoas têm sobre jogos e como eles estão associados a lazer ou algo mais próximo de brinquedo. Neste sentido, Burnout passa a valer somente para ‘trabalhos de verdade’, o que, socialmente, não enquadra atividades relacionadas a games.

Rafael Marques observou que, nos comentários do vídeo do Velberan, muitas pessoas invalidaram o cansaço do criador de conteúdo comparando a rotinas ‘como pegar ônibus na chuva de madrugada’. O psicólogo ressalta que essa comparação é injusta, pois o sofrimento mental e a exaustão emocional são reais e impactam a vida das pessoas de formas diferentes.

"Não estamos fazendo equivalências aqui em relação a quem tem mais desafios. Se é a pessoa que tá em casa jogando, o pro player, ou se é o cara que vai de madrugada pegar o metrô na chuva. Estamos falando do esgotamento mental do indivíduo. Cada um tem uma régua, cada um tem uma forma de sentir. Mas sente”, explicou o psicólogo.
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Para muitos profissionais que trabalham com videogames, o ato de jogar é, muitas vezes, a menor parte do processo. Pesquisa, produção de texto, gravação e edição costumam ser a maior parte do trabalho envolvendo a mídia. Cada segmento conta com fatores que não envolvem jogar sem parar.

Muitos seguem produzindo constantemente para não perder performance, engajamento ou relevância, o que pode levar a uma pressão e, por consequência, à perda de prazer e esgotamento.

Além disso, os criadores, muitas vezes, não jogam no momento certo, nem mesmo podem se dar ao luxo de jogar o que quiserem. Essa forma de trabalhar com os games transforma o lazer em uma obrigação comercial. Conforme Marques, os videogames deixam de ser uma válvula de escape e tornam-se uma fonte de estresse. Isso cria uma espécie de "gangorra" na qual o que deveria divertir passa a gerar insatisfação.

No fim das contas é possível ter Burnout 'jogando videogames'? A resposta é sim. Apesar da OMS relacionar a síndrome de Burnout principalmente com ambientes ocupacionais, ou seja, acontece em uma relação de trabalho, o psicólogo destaca a natureza da relação que o indivíduo estabelece com o ato de jogar jogos. Para quem trabalha com games, a mídia se torna uma ferramenta de trabalho e o esgotamento parte dessa obrigatoriedade de produzir e performar.

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Jogadores casuais podem chegar a um Burnout?

Apesar de mais difícil, Rafael Marques reforça que um jogador casual pode, sim, chegar a um estágio de Burnout jogando videogames. O profissional argumenta que jogadores comuns podem transformar a experiência de jogar em uma obrigação trabalhosa.

"Eu acredito que a resposta do Burnout vai muito nessa, porque se a pessoa se coloca nesse papel e ela não percebe, ou ela percebe e ela insiste, o Burnout vai acontecer, seja com o casual, seja com o profissional", conta Marques. Para ele, a questão também depende muito da personalidade das pessoas. Alguns jogadores tendem a querer gerenciar o lazer da mesma forma que o trabalho, por exemplo, o que pode ser um risco.

Pão de Mel considera-se alguém que gosta de catalogar suas experiências em aplicativos ou listas. No entanto, o criador de conteúdo alerta como essas ferramentas podem transformar o consumo de games em produtividade. Ele aponta que o uso de planilhas e sites como Backlogd, Letterboxd (filmes) e Skoob (livros) pode ser um problema quando o assunto é transformar hobby em trabalho. O perigo, segundo ele, é que a pessoa começa a jogar ou assistir a um filme pensando apenas na "catalogada" que vai dar no final.

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Essa condição de esgotamento geralmente vem da própria ansiedade do jogador ou pode partir de fatores externos, como a FOMO (ou medo de ficar de fora) e o hype em redes sociais. Nas devidas proporções, todos esses gatilhos podem gerar uma pressão e uma falsa necessidade de jogar todos os lançamentos, pegar todas as conquistas ou jogar no modo hard. "Eu acho que tanto essa parada do FOMO, quanto do backlog, é que você está se forçando a jogar uma parada, às vezes só para você catalogar, ou para fazer parte da rodinha que tá todo mundo falando", contou o criador.

Para ele, também existe toda uma cultura de um falso orgulho no meio gamer, na qual admitir cansaço com jogos é um sinal de fraqueza, bem como jogar no modo fácil, por exemplo.

Como saber a hora de largar o controle?

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Há diversas formas de identificar e driblar a estafa com os videogames. Para quem encara os jogos como hobby, a regra de ouro vem de Pão de Mel: se você precisa se forçar para jogar, você simplesmente não quer jogar naquele momento. O ciclo exaustivo de abrir um game, largar em dez minutos e pular para o próximo é o sinal mais claro de que é hora de soltar o controle. Nesses momentos, alternar com outras mídias e artes, como ler um livro, ver filmes ou maratonar uma série pode ser uma boa pedida. Tudo isso ajuda a dar um respiro e renovar o gás.

Na prática diária, o criador de conteúdo também sugere a tática de intercalar títulos. Misturar uma longa campanha de mundo aberto com jogos indies curtos, por exemplo, cria uma sensação constante de progresso e evita a monotonia de não sair do lugar.

Do lado psicológico, Rafael Marques pontua que a chave de tudo é o autoconhecimento. É preciso entender seus próprios gostos e não se deixar levar pelo "medo de ficar de fora" imposto pelas redes sociais. Com milhares de lançamentos chegando às lojas todos os anos, aceitar que é humanamente impossível consumir tudo tira um peso enorme das costas. Como lembra Pão de Mel, "o jogo não vai fugir".

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Por fim, o psicólogo recomenda resgatar o ritual da infância: aquele momento de jogar puramente pela diversão e descoberta, sem a intenção de produzir conteúdo ou análises. Abandonar a pressão da comunidade para platinar tudo ou zerar na dificuldade mais elevada é o primeiro passo para lembrar que você não é uma máquina, e que os videogames, no fim das contas, devem ser uma forma de descanso.

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