Contas compartilhadas nos videogames: o que pode, o que não pode e os cuidados

Por Felipe Demartini | 17 de Dezembro de 2020 às 09h58
Francielle Lima/Canaltech

No passado, o empréstimo de jogos ou as velhas locadoras eram as maneiras de diluir o sempre alto preço dos games. Porém, o mercado evoluiu, os videogames se tornaram conectados e digitais, mas algumas práticas nunca morreram, ainda que, atualmente, elas não sejam mais tão fáceis de se executarem.

Os métodos mudaram, assim como seus entusiastas tiveram de encontrar novas formas de lidar com as regras e as minúcias de videogames que permanecem sempre online. Alguns elementos se tornaram mais complexos, enquanto os termos permaneceram idênticos. Desde os tempos do PlayStation 3 e do Xbox 360, o compartilhamento e a venda de contas para divisão de jogos é uma realidade, às vezes citada como tal, outras mencionada como “locação”, mas nunca muito bem-vista pela Sony, Microsoft e Nintendo, ainda que existam poucos registros de ações diretas contra a prática.

Se antes eram cartuchos e discos sendo passados de mão em mão, os objetos agora são credenciais como e-mail e senha, normalmente em perfis voltados especificamente para o compartilhamento. Oficialmente, as normas de cada plataforma permitem o compartilhamento dentro de certos requisitos que, definitivamente, não envolvem o uso comercial. Ainda assim, na ausência de uma telemetria que indique exatamente esse fim, comerciantes e usuários operam em uma zona cinza.

Preços mais baixos e vocabulário nostálgico

Por meio de contas compartilhadas e repassadas de um usuário para o outro, vendedores tentam reviver o conceito de aluguel das antigas, agora com jogos digitais (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

As locadoras físicas quase não existem mais, mas, na internet, o mercado de locação de jogos segue vivo e funcionando de forma semelhante ao que víamos nos anos 1990, ainda que digitalmente. Por meio de marketplaces públicos como o Mercado Livre, por exemplo, é fácil encontrar títulos de Nintendo Switch, PlayStation 5 e Xbox Series X e S, ou até mesmo de gerações antigas, para “alugar” por preços bem atrativos para quem quer apenas dar uma olhadinha em um game ou é rápido nas jogatinas.

O remake de Demon’s Souls foi um dos jogos da lista de lançamento do PlayStation 5 mais aguardados desse início de nova geração. Nas lojas, ele sai por valores em torno dos R$ 350, enquanto a chamada "locação" do título pode sair por a partir de R$ 29 por uma semana, por exemplo. No Switch, um vendedor oferece contas com diferentes títulos a R$ 7 por dia, com direito até mesmo a assinatura do serviço da Nintendo que permite as jogatinas conectadas no console.

Vendas definitivas também acontecem. Outro lançamento renomado deste final de ano, Assassin’s Creed Valhalla, está custando cerca de R$ 240 nos principais varejistas brasileiros. No Mercado Livre, por exemplo, é possível encontrar vendedores que comercializam o jogo de forma definitiva, em contas que ficam para sempre com os clientes, por preços a partir da metade disso.

Serviços como o Game Pass também são vendidos por meio de contas compartilhadas, por valores mais baixos que assinaturas tradicionais (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

Até mesmo serviços são oferecidos desta maneira. Uma conta alugada com assinatura do Xbox Game Pass, com direito à possibilidade de jogar online nos consoles da Microsoft, acesso à lista de títulos no PC e também o portfólio do EA Access, custa a partir de R$ 25 — oficialmente, a assinatura oficial é vendida pela Microsoft por R$ 44,99, sendo que, para os novos assinantes, os três primeiros meses saem por R$ 5.

Os métodos usados, entretanto, demonstram certa preocupação com as regras, tanto das próprias plataformas quanto dos marketplaces. Não é incomum ver palavras como “conta” ou “primária”, que indica o caráter do perfil de uma forma que explicaremos a seguir, aparecendo separadas por espaços ou com asteriscos. Além disso, a maioria dos vendedores mostra preferência por contatos diretos a partir do sistema de perguntas do Mercado Livre, por exemplo, e chegam a passar dados pessoais de contato, algo que não é permitido de acordo com os termos do marketplace.

O contato com a reportagem também foi uma demonstração de que os comerciantes desse tipo de serviço sabem estar agindo de uma forma que não necessariamente respeita as regras. Nenhum dos acionados pelo Canaltech topou dar entrevista sobre a venda de contas compartilhadas e, em alguns casos, os anúncios pelos quais tentamos contato foram apagados ou pausados durante a apuração, ressurgindo com novos nomes ou maneiras de ocultar as palavras-chave citadas.

Como funciona em cada plataforma

Ainda que não existam muitos relatos de bloqueios ou banimentos relacionados a esse tipo de compartilhamento de contas, as fabricantes de consoles deixam claras as regras de funcionamento de seus sistemas. A ideia é dar liberdade para que o usuário, por exemplo, leve seu perfil e títulos para a casa de um amigo ou compartilhe os jogos com toda a família, ainda que as minúcias de funcionamento variem de um videogame para outro.

Switch permite que contas sejam adicionadas a outros consoles que não o principal do jogador, mas, fora dele, os jogos e serviços ficam disponíveis somente no próprio perfil (Imagem: Divulgação/Nintendo)

No Switch, os jogos digitais ficam associados a uma conta de usuário, que é essencial para logar no console, baixar títulos acessar o multiplayer e todos os outros recursos da plataforma. Cada perfil pode ter um console associado como primário, ou seja, o aparelho principal daquele jogador e o usado por ele de forma mais frequente. Entretanto, é possível utilizar a mesma conta em outros aparelhos, levando consigo os games adquiridos, da mesma forma que um mesmo videogame pode ter várias contas registradas.

Cada conta só pode ter um único console registrado como primário, e nele, todos os jogos desse perfil podem ser acessados livremente por qualquer outra conta registrada. Ao mesmo tempo, um mesmo aparelho pode ser o primário de diferentes perfis enquanto, nos videogames secundários, os títulos e recursos online somente poderão ser utilizados pelos usuários que efetivamente fizeram a aquisição, estando indisponíveis para todos os outros.

Exemplificando, fica mais fácil de entender. Você, João, divide um Switch com sua irmã, Maria, e adquire The Legend of Zelda: Breath of the Wild em sua conta. Ela também poderá jogar, mesmo não tendo o game na conta dela, pelo fato de seu perfil ter o console de casa como primário. Porém, você decide passar uma temporada na casa de um amigo, Pedro, e ativa sua conta no videogame dele para continuar a aventura de Link. Lá, o game estará disponível apenas na conta própria em que ele foi ativado, mas, da mesma forma, você terá acesso a todos os títulos adquiridos pelo colega desde que ele tenha o dispositivo dele ativado como principal.

O sistema é semelhante nos consoles da linha PlayStation, que também seguem a mesma lógica. As contas podem ser ativadas, com e-mail e senha, em inúmeros consoles, mas cada uma delas só pode ter um como primário. Da mesma maneira, todos os usuários registrados neste videogame têm acesso aos títulos do perfil principal e a assinatura da PlayStation Plus; a recíproca não é verdadeira e, nos aparelhos secundários, tais recursos estarão disponíveis apenas nas contas em que foram adquiridos.

No Xbox, contas precisam estar online simultaneamente para que um game adquirido em uma possa ser utilizado em outro console não primário (Imagem: Sergio Oliveira/Canaltech)

Algumas minúcias aparecem aqui, como a necessidade de conexão online para o uso de contas secundárias como forma de validar as licenças dos games, não sendo possível jogar desconectado. No PlayStation, uma mesma conta não pode ser usada ao mesmo tempo em mais de um console, e caso um novo login aconteça, o anterior será desconectado automaticamente; já no Switch, não é possível executar o mesmo jogo em dois videogames diferentes, mesmo que isso seja feito a partir de usuário diferente

No Xbox, o sistema também é parecido na ideia de que cada conta só pode ter um console como primário, mas algumas minúcias tornam a plataforma mais aberta ao compartilhamento. Uma segunda conta registrada em uma mesma plataforma, por exemplo, pode permitir o acesso aos jogos na primeira, desde que esteja logada. Basta usar o recurso “alternar”, no menu do Xbox One e Xbox Series X e S, para trocar de perfil e acessar os títulos — o processo precisa ser repetido a cada vez que o dispositivo for desligado, entretanto.

Valores divididos, responsabilidade também

É na zona cinza entre contas primárias e secundárias que está o comércio encontrado livremente nos marketplaces. O segredo para o valor mais baixo é simples: um jogo de R$ 250, como Assassin’s Creed Valhalla, é adquirido pelo preço normal e revendido a valores fracionados, de acordo com o teor do perfil disponibilizado, ou alugado repetidas vezes para gerar dinheiro por tempo indefinido.

Preços de perfis compartilhados, mesmo primários, podem ser convidativos, mas trazem consigo problemas de segurança e a falta de garantia sobre uso contínuo (Imagem: Captura de tela/Felipe Demartini/Canaltech)

A janela de lançamento faz toda diferença nessa lucratividade, com os jogos mais procurados sendo sempre os mais novos. Afinal de contas, quem resistiria a pagar metade do preço em um título novo como Cyberpunk 2077 e jogar como todo mundo? Cada escolha, uma renúncia, é claro, e essa questão normalmente transparece do ponto de vista da segurança.

Da mesma forma que os responsáveis por perfis de locação alteram a senha e revogam remotamente o acesso de seus clientes para garantir que outros possam alugar os games digitais, nada impede que algo similar seja feito com aquela conta primária que você acaba de comprar. Problemas de licenciamento do conteúdo podem levar à revogação no acesso de um título a qualquer momento, tenha ele acabado de ser comprado ou adquirido há meses, com a surpresa desagradável sendo perceber que, de repente, o game não funciona mais.

Além disso, questões relacionadas ao próprio funcionamento dos perfis também devem ser levadas em conta. Jogos adquiridos a partir de contas secundárias somente poderão ser jogados a partir delas, o que significa que jogos salvos, troféus e demais dados de progresso somente estarão acessíveis nelas e são intransferíveis — caso você adquira o game diretamente, em uma promoção, por exemplo, terá de recomeçar tudo do zero.

Ainda há de se levar em conta a concorrência entre contas e o limite de logins imposto por algumas plataformas, que não permitem a execução de um mesmo título em diferentes consoles. Novamente, você pode acabar ficando sem acesso a um game que acabou de adquirir, pois outro cliente do mesmo vendedor “está na vez” ou simplesmente porque o responsável perdeu o controle dos perfis.

Sistemas de segurança teriam bloqueado consoles após ativação e compartilhamento em massa da PlayStation Collection; para perfis trocados entre amigos ou vendidos, porém, a Sony não dá limites ou fala em punições (Imagem: Divulgação/Sony)

Felizmente, dados pessoais ou bancários não estão envolvidos em uma negociação assim, desde que, claro, a compra seja feita por sistemas como os do Mercado Livre, que protegem as transações. Por outro lado, como a maioria dos vendedores prefere conversar diretamente, não existem garantias quanto à segurança, muito menos de que o usuário efetivamente receberá os dados da conta para jogar o game adquirido.

O compartilhamento de contas ganhou um novo tipo de atenção em novembro com a chegada do PlayStation 5 e da PS Plus Collection, um pacote com quase duas dezenas de jogos de PlayStation 4 que são gratuitos para os assinantes da rede online da Sony nos consoles de nova geração. Ainda nos primeiros dias de lançamento do videogame, se descobriu que os títulos também poderiam ser acessados no videogame anterior, desde que o perfil fosse validado no aparelho atual.

Logicamente, o que se seguiu foi uma gigantesca quantidade de ativações, desde gente com o PS5 oferecendo isso a amigos que ainda não haviam migrado até gente cobrando cerca de R$ 20 para fazer isso em grupos especializados na plataforma. A conta veio semanas depois, com banimentos em massa atingindo os donos do console de nova geração, que se viram impedidos de acessar a loja online da plataforma de forma definitiva, além de suspensões de algumas semanas para os donos de PlayStation 4 que se aproveitaram dessa brecha no sistema.

A Sony não se pronunciou diretamente sobre o assunto, mas a ideia é de que as penalizações teriam a ver com um sistema de segurança implementado nos consoles da linha PlayStation, que identifica como fraudulentas as plataformas que realizam dezenas de ativações de contas em sucessão. Um alerta que também pode valer para os perfis compartilhados para venda ou aluguel de títulos, ainda que não existam informações claras sobre ações desse tipo.

Falta de informação

Enquanto as regras sobre o compartilhamento de contas são claras no que toca seu funcionamento e divisão das licenças dos jogos adquiridos, não existem muitos dados claros, como dito, sobre banimentos gerados pelo comércio de perfis em marketplaces públicos. Da mesma forma, a divisão entre amigos de perfis não é coberta por termos de uso públicos disponibilizados pelas donas dos sistemas online.

O Canaltech procurou as empresas, mas também não obteve muitas respostas. Retornando à reportagem, a Microsoft apenas enviou os links de seus termos de uso e os padrões da comunidade Xbox, que cita como fraude o compartilhamento e a venda de contas para terceiros, assim como a compra de títulos por revendedores não-autorizados ou a comercialização de conteúdo fora dos sistemas oficiais da marca. Já a Sony disse não ter nada a comentar sobre o assunto no momento. A Nintendo, por fim, não retornou à reportagem antes do fechamento.

Quando contatado, o Mercado Livre afirmou repudiar o uso indevido de sua plataforma e informou que os anúncios de contas e jogos compartilhados foram tirados do ar, pois representam infrações de seus termos e condições de uso. Além disso, a empresa informou que todas as listagens podem ser denunciadas pelos usuários e que possui um programa de proteção para marcas, com ferramentas gratuitas e acessíveis para solicitações relacionadas à quebra de direitos de propriedade intelectual. Confira o pronunciamento na íntegra:

"O Mercado Livre destaca que repudia o uso indevido de sua plataforma e informa que os anúncios em questão foram tirados do ar, pois tratam de produtos proibidos nos Termos e Condições de uso do seu marketplace.

A empresa ressalta que disponibiliza em 100% dos anúncios publicados o botão “Denunciar”, localizado logo abaixo da publicação, no canto inferior direito, que pode ser acionado caso um usuário identifique práticas irregulares na plataforma.

Além disso, o Mercado Livre possui um programa de proteção de marca, o Brand Protection Program, que oferece a todos os detentores de direitos de propriedade intelectual uma ferramenta gratuita, amigável, rápida e eficiente para denunciar qualquer publicação que se presuma estar realizando uma infração. A empresa possui uma landing page direcionada às marcas que tiverem interesse em aderir ao programa: www.brandprotectionprogram.com ".

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