Há 60 anos, Yuri Gagarin se tornava o primeiro homem a ser lançado ao espaço

Por Patrícia Gnipper | 12 de Abril de 2021 às 10h35
Reprodução/ESA/Twitter

A bordo da nave Vostok 1, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin se tornou o primeiro humano a ser lançado ao espaço em 12 de abril de 1961, há exatos 60 anos. Este foi o primeiro grande marco da Corrida Espacial, protagonizada entre Estados Unidos e União Soviética, que, em plena Guerra Fria, batalhavam "na miúda" para ver quem conquistava o espaço primeiro.

A Vostok 1, por sinal, era uma nave bastante humilde, medindo apenas 4,4 metros de comprimento por 2,4 m de diâmetro, e pesando 4.725 quilos. Ali, havia dois módulos, sendo um para acomodar os equipamentos e tanque de combustível, enquanto o outro era a cápsula onde o cosmonauta sentou ali, quietinho, durante a experiência.

Lançamento da Vostok 1 (Imagem: Reprodução/ESA/spacefacts.de)

Gagarin disputou a vaga histórica com outros 19 pilotos previamente selecionados após testes físicos e psicológicos rigorosíssimos, sendo escolhido por conta de seu excelente desempenho durante o treinamento, além de ter uma origem camponesa (o que contou pontos para o regime político comunista). Mas sua personalidade cativante e características físicas "compactas" (ele tinha somente 1,57 m de altura e pesava 69 kg) também foram diferenciais considerados na hora da seleção.

Pouco antes de embarcar, Gagarin disse algumas palavras. "Em poucos minutos, possivelmente uma nave espacial irá me levar para o espaço sideral. O que posso dizer sobre estes últimos minutos? Toda a minha vida parece se condensar neste momento único e belo. Tudo o que eu fiz e vivi foi para isso!", declarou. Já no espaço, enquanto a Vostok 1 dava a sua única volta na órbita da Terra, Yuri, aos 27 anos de idade, não segurou a emoção e disse: "A Terra é azul! Como é maravilhosa. Ela é incrível!".

O voo durou exatos 108 minutos, a uma altitude de 315 km a partir da superfície, e em uma velocidade de 28 mil km/h. O cosmonauta se manteve em contato com a Terra usando diferentes canais via telefone e telégrafo. Já na hora de voltar ao planeta, os cientistas soviéticos acabaram errando o cálculo da trajetória de aterrissagem da nave, fazendo com que Gagarin retornasse à Terra caindo no Cazaquistão — a mais de 320 km do local da decolagem. Então, quando Yuri aterrissou de volta ao nosso planeta, ainda precisou esperar, sozinho, até que a equipe o resgatasse.

O feito de Gagarin estampou manchetes de jornais em todo o mundo (Foto: Domínio Püblico)

E foi, a partir deste momento, que a humanidade entrava na Era Espacial, fazendo com que os EUA investissem na NASA para que o país não ficasse atrás dos rivais soviéticos no que diz respeito à exploração do espaço. Sim, os EUA levaram o Homem à Lua pela primeira vez em 1969, com a missão Apollo 11, mas é dos russos o troféu do lançamento do primeiro satélite na órbita terrestre (o Sputnik 1, em 1957), e a medalha de ouro na competição de levar um ser humano ao espaço pela primeira vez, com Gagarin.

Yuri Gagarin, celebridade global

O cosmonauta recebeu a medalha da Ordem de Lenin pelo seu feito histórico. A condecoração da URSS era o equivalente a uma medalha de herói, criada pelo Partido Comunista e concedida a indivíduos ou instituições que prestassem serviços extraordinários ao Estado, bem como a membros das Forças Armadas por seu serviço exemplar.

Com status de celebridade, Yuri começou a viajar pelo mundo como o garoto-propaganda soviético para promover a tecnologia espacial de sua nação, passando, inclusive, pelo Brasil. Por aqui, Gagarin foi condecorado pelo presidente Jânio Quadros com a Ordem do Cruzeiro do Sul, ganhando também o título de "Embaixador da Paz".

Mural homenageando Gagarin (Imagem: Reprodução/Andrzej Otrębski/Wikimedia Commons)

Impedido de retornar ao espaço (visto que o Estado não queria arriscar sua vida em futuras missões), ele acabou participando do treinamento de outros cosmonautas, fornecendo sua expertise em primeira-mão. Contudo, tornar-se uma celebridade global acabou afetando Gagarin, que passou a beber demasiadamente — o que não o impediu de trabalhar no design de novas espaçonaves.

Yuri Gagarin morreu em 1968, durante um treino de rotina com um voo de caça, junto ao instrutor Vladimir Seryogin. O acidente não foi muito bem explicado, mas ambos receberam honras do Estado e foram enterrados na muralha do Kremlin. No entanto, em 2011, quando o voo histórico de Gagarin completou 50 anos, as autoridades russas revelaram um documento que era classificado como "segredo de estado", mostrando que a causa mais provável para o acidente fatal teria sido uma manobra brusca do piloto para evitar uma sonda atmosférica que estava em seu caminho. Isso teria feito a nave perder estabilidade, chocando-se contra o solo.

O legado de Gagarin

Após sua morte, a cidade próxima de sua aldeia-natal foi renomeada em sua homenagem. Ainda, o centro de treinamento de cosmonautas do Cazaquistão também foi rebatizado com o nome de Yuri Gagarin, e uma das maiores crateras da Lua, localizada em sua face oposta, foi chamada de Cratera Gagarin.

Mas as homenagens não acabam por aí: uma rocha descoberta em Marte também ganhou seu nome, e a medalha de ouro da Federação Aeronáutica Internacional se chama "Medalha de Ouro Yuri Gagarin". Acha que acabou? Pois em Moscou foi construído o Centro de Treinamento de Cosmonautas Yuri Gagarin, enquanto o maior museu da aviação e do espaço, também na Rússia, leva seu nome.

Além disso, a noite do dia 12 de abril foi batizada como "Yuri's Night" (ou "A noite de Yuri"), sendo celebrada anualmente em um festival na Rússia, justamente para comemorar sua conquista espacial. Por conta da pandemia de COVID-19, as duas últimas edições foram realizadas apenas online, com uma transmissão ao vivo repleta de convidados especiais (e espaciais). Você pode assistir à reprise da última edição clicando aqui

Na sétima arte, Gagarin também está presente com frequência. Em 2011, por exemplo, estreou o filme First Orbit, com imagens filmadas na Estação Espacial Internacional e capturadas exatamente no mesmo local e horário em que Gagarin viu a Terra lá do alto, declarando que ela era "azul e maravilhosa". Então, em 2013, um novo filme sobre o cosmonauta foi lançado, chamado Gagarin: Pervyy v kosmose, reproduzindo sua missão espacial e, por meio de flashbacks, mostra um pouco da infância e adolescência de Yuri, além de seu treinamento para se tornar o primeiro homem a ir para o espaço.

E na cultura pop, Yuri Gagarin é celebrado até os dias de hoje das mais diversas maneiras, estampando itens de moda e decoração e influenciando artistas da literatura, música e outras artes.

Inclusive, em 2017 o grupo britânico Depeche Mode lançou um videoclipe para a música Cover Me, que faz parte de seu último álbum de estúdio, Spirit. Mas o que isso tem a ver com Yuri Gagarin? Assista, e entenderá:

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