Turismo espacial pode se tornar uma ameaça ao clima da Terra, alertam cientistas

Turismo espacial pode se tornar uma ameaça ao clima da Terra, alertam cientistas

Por Wyllian Torres | Editado por Patrícia Gnipper | 26 de Julho de 2021 às 12h30
Drajt/Pixabay

Recentemente, o mundo se agitou com a viagem dos bilionários Richard Branson e Jeff Bezos ao espaço, cada um a bordo do veículo de suas respectivas empresas espaciais, Virgin Galactic e Blue Origin — marcando, assim, o início do turismo espacial. Apesar disso, ainda existe um longo caminho pela frente até que esta modalidade se torne amplamente acessível. Mas a preocupação dos cientistas é que, em algumas décadas, esse crescente aumento de foguetes lançados se torne mais um problema para a atmosfera da Terra e, consequentemente, contribua para agravar as mudanças climáticas.

Deixando de lado o debate técnico sobre o real limite do espaço ou o que faz de alguém um astronauta, os recentes lançamentos suborbitais das empresas de Branson e Bezos sinalizam um mercado em ascensão: o turismo espacial, há muito tempo aguardado. E, embora esteja apenas em seu início, o que realmente preocupa os cientistas é a emissão de fuligens gerada pela queima de combustíveis. "Esses motores funcionam como uma vela e seu processo de queima cria condições favoráveis ​​para a geração de fuligem", explica Filippo Maggi, professor associado de engenharia espacial da Politecnico di Milano, que pesquisa tecnologias de propulsão de foguetes.

Ônibus Espacial Challenger (Imagem: Reprodução/NASA)

Segundo Dallas Kasaboski, principal analista e consultor espacial da Nothern Sky Research (NSR), um único voo suborbital da Virgin Galactic, com duração de uma hora e meia, conseguiria gerar tanta poluição quanto um voo transatlântico de 10 horas. Por enquanto, não é o suficiente para alterar a alta atmosfera ou o clima do planeta, mas, diante das grandes ambições da Virgin (e de outras empresas) de levar seus clientes à borda do espaço várias vezes ao dia, alguns cientistas consideram este fator alarmante para daqui a alguns anos.

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Outro problema é que ainda sabemos pouco sobre o real efeito da emissão de fuligens na alta atmosfera da Terra — especificamente, na estratosfera, uma camada que começa a uma altitude de 10 km até 50 km. Karen Rosenlof, cientista sênior do Laboratório de Ciências Químicas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês) dos EUA, diz que "você está emitindo poluentes em lugares onde normalmente não os emite"; portanto, precisamos entender quais danos em potencial este aumento pode representar. O lento processo de acúmulo dessas partículas na estratosfera, a longo prazo pode alterar as correntes de jato polar, bem como os padrões das tempestades de inverno.

Os foguetes poluem as camadas superiores da atmosfera que, até antes do primeiro lançamento, mantinham-se livres dessas fuligens (Imagem: Reprodução/NASA)

A quantidade de combustível queimado atualmente pela indústria espacial representa menos de 1% do total queimado pela aviação, aponta Martin Ross, cientista atmosférico da Aerospace Corporation. De acordo com a NSR, em um futuro próximo, estima-se 10 voos por ano e, até 360 voos, ao ano a partir de 2030 — aliás, bem pouco diante a atual demanda deste setor. "Essas empresas têm virtualmente clientes esperando em uma fila e, portanto, desejam aumentar sua escala. Em última análise, gostariam de voar várias vezes ao dia, assim como fazem as aeronaves de curta distância", acrescenta Kasaboski.

A única pesquisa realizada nesse sentido foi realizada durante a era dos ônibus espaciais, da NASA, na década de 1990, quando o mundo também encarava uma camada de ozônio já bastante danificada. A agência espacial norte-americana, em parceria com a NOAA e a Força Aérea dos EUA, mediu os efeitos das emissões dos propulsores sobre o ozônio da atmosfera, especialmente o cloro. “Naquela época, não havia lançamentos de ônibus espaciais suficientes para fazer a diferença globalmente, mas localmente era possível esgotar a camada de ozônio devido a essa nuvem difusa", explica David Fahey, diretor do Laboratório de Ciências Químicas da NOAA.

Para Fahey, é fundamental que estes dados comecem a ser gerados a partir de agora para, então, avaliar os reais riscos futuros. "Gostaríamos de ver um programa nacional dirigido pela NOAA ou pela Força Aérea que desenvolvesse um banco de dados com características básicas de emissão de sistemas de propulsão modernos com base em observações”, acrescenta.

Fonte: Space.com

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